sábado, 2 de Fevereiro de 2013

«Mudanças», de Mo Yan

Editora: Divina Comédia
Ano de Publicação: 2012
Nº de Páginas: 155

Quando foi anunciado que o escritor Mo Yan (n. 1955) tinha ganho o Nobel da Literatura 2012, os leitores portugueses deslocaram-se às livrarias para conhecerem os livros publicados do escritor chinês. Para espanto, a sua única obra editada em Portugal Peito Grande, Ancas Largas (Ulisseia, 2007) encontrava-se esgotada ou «indisponível» (leia-se escondida para a não comercialização), conforme os dizeres e celeuma em torno das temáticas polémicas do livro). Após duas semanas, a reedição estava novamente ao dispor dos leitores. Quando pensava-se que demoraria alguns meses até ser dado à estampa uma outra obra de Mo Yan, eis que é anunciado na imprensa no mês de Novembro a obra Mudanças, o título de estreia da Divina Comédia editores.
Numa primeira parte de Mudanças – uma espécie de semi-autobiografia –, o autor narra como foi crescer na segunda metade do séc. XX, num país que estava em constante transformação e sob o domínio de Mao Tsé-Tung.
As brincadeiras de meninice, a expulsão da escola, os camiões e o orgulho pelos seus motoristas, o surgir dos primeiros laços de amizade (como He Zhiwu – que terá sido, certamente, uma grande referência na vida de Yan, como nos revela na página 22: «(…) é ele a personagem principal desta narrativa (…)»), enfim, Mo Yan narra a sua infância e evoca os seus sonhos de adolescente: «(…) ir para a universidade e tornar-me escritor.» (p. 108)
Da sua vida após adulto, sabemos que ele foi militar, vigilante e instrutor político de propaganda. Enveredou-se em múltiplas viagens e aprimorou as suas habilidades de escrita, quando decidiu regressar à vida civil. Portanto, o título desta obra ou a seguinte frase dela transcrita fazem jus se quisermos escolher uma palavra para descrever a sua vida: «A mudança de sítio mata as árvores, mas mantém as pessoas vivas.» (p. 36)
Mudanças é um livro de memórias que se lê como um romance, tal o conteúdo ficcional e fascinante do autor, sua família e amigos.
Todavia, o presente livro não deixa conhecer – a nós, leitores – o maneirismo, o finco e o tom «normais» da escrita de Mo Yan. O texto desta obra não é extensivo. Muito deixa por apurar. É por isso que sabe a pouco.
Uma nota para salientar a rigorosa e belíssima execução gráfica, interior e exterior, de Mudanças.
Um apontamento curioso: Mo Yan, pseudónimo literário de Guan Moye, traduzido do chinês significa não falar. Como o próprio disse na palestra de agraciação do Prémio, em Estocolmo: «Para um escritor, a melhor forma de falar é pela sua escrita.»
Nota: 3 de 5. 
(Texto publicado na edição de Fevereiro da revista Madeira Digital.)