segunda-feira, 24 de agosto de 2015

«O Fim é o Meu Início», de Tiziano Terzani

Editora: Self
Data de Publicação: Julho 2015
N.º de Páginas: 464

Um homem de sessenta e cinco anos tem um cancro em estado avançado. Sabendo que o seu fim está iminente, propõe ao filho: «e se tu e eu nos sentássemos todos os dias durante uma hora e tu me perguntasses as coisas que sempre quiseste perguntar e eu falasse livremente». Folco acede ao último desejo do seu progenitor e durante os fulgurantes três meses que lhe restam de vida, têm lugar em Toscânia as conversas intimistas e profundas trocadas entre ambos. O resultado desses diálogos gravados foi compilado após à morte de Tiziano Terzani e deu origem ao livro La Fini è il Mio Inizio, publicado em 2006 e transposto para o cinema em 2011. A tradução para português da obra é um trabalho bem conseguido de Rossana Appolloni, tradudora de livros de autores italianos como Fabio Volo e Frederico Moccia, e também autora com um título publicado pela Editora Self.
Tiziano Terzani, um dos grandes jornalistas europeus da segunda metade do século XX, que acumulou uma vasta experiência como repórter em vários países por onde viajou para reportar notícias para os diversos jornais e revistas para os quais colaborou, como o Der Spiegel (de 1971 a 1996), revelou ao filho, e agora aos leitores, o que é que aprendeu sobre as muitas questões da vida e no sentido que ela pode ter.
O advogado florentino, que tornou-se jornalista, «percebi que o meu caminho ia ser viajar e observar», um amante da verdade absoluta, sempre preferiu estar in loco, em cenários de guerra muitas vezes perigosos, como Vietname, Singapura e Camboja, a observar e sentir os estados de espírito das populações. Aquando da sua estada nos Estados Unidos, Terzani escreveu sobre diversas eleições, a célebre Marcha sobre Washington de 1963, os protestos contra a guerra do Vietname, os assassinatos de Robert F. Kennedy e Martin Luther King, entre outros assuntos que marcaram e mudaram uma página na História mundial. A génese dos seus inúmeros livros fazem também parte deste livro que não deixa de ser uma excelente súmula do seu percurso pessoal e profissional pleno: «fiz tudo o que queria fazer, vivi intensissimamente».
O livro-memória, que tem lampejos de uma verdadeira lição de História, narrado por um dos melhores jornalistas conhecedores do mundo oriental, inclui dezenas de fotografias do autor em lugares tão díspares como África do Sul e Índia, que suportam o que é-nos descrito ao longo das páginas. O Fim é o Meu Início está organizado por perguntas e respostas, com muitos interlúdios, silêncios. É uma obra biográfica, mas não é uma biografia.
Em resumo: um livro profundo e aconselhável para qualquer leitor; uma mistura de História, geografia, política e cultura, que não poupa críticas ao jornalismo idiossincrático e volátil, que parece estar em vigência cada vez mais.
Em Julho de 2004, com uma paz infinita, «Sinto ter feito uma viagem — a viagem mais longa, que é a da vida — em que cheguei mesmo ao destino. Estou no fim da linha e não quero apanhar o comboio que volta para trás», Tiziano Terzani morreu de cancro, mas a doença não o matou — quem ler O Fim é o Meu Início entenderá por quê.

Excertos
«Há um caminho na vida e o engraçado é que nos apercebemos disso apenas quando termina. Voltamo-nos para trás e dizemos: “Oh, olha, há um fio condutor!” Enquanto vivemos, não vemos esse fio, mas está lá.» (p. 65)

«FOLCO: A História. Foi sempre o que te emocionou mais na vida, não foi?
TIZIANO: Sim, sempre (…) Tive a grande sorte em toda a minha vida jornalística de sentir a História, a História com “H” maiúsculo» (p. 137)

«Os livros eram os meus melhores companheiros de viagem. Estavam calados quando eu queria que estivesse calados e falavam quando eu precisava que falassem. Um companheiro de viagem é mais difícil porque impõe a sua presença, as suas exigências. Um livro não, é mudo. Mas está cheio de coisas magníficas.» (p. 183)

«Os livros. Forma os meus grandes amigos porque não há nada melhor do que viajar com alguém que já fez o mesmo caminho, que nos conta como era para podermos comparar, para sentirmos um cheiro que já não existe, ou que ainda lá está.» (p. 186)

1 comentário:

Andreia Murraças disse...

Certamente, um livro perfeito. <3 Qe belo gosto :D Amei o seu blog, sem dúvida. :)
Fa do Facebook : Cristina Ferreira. :D