segunda-feira, 15 de agosto de 2016

«Antes de Eu Partir», de Paul Kalanithi

Data de publicação: 22/04/2016
N.º de páginas: 224

Paul Kalanithi (1977-2015) tinha 36 anos e era um profissional em ascensão na neurocirurgia quando descobriu que tinha um tumor maligno no pulmão. Ele estava no 6.º e último ano de internato num Hospital em São Francisco. Nas páginas que perfazem o prólogo de Antes de eu Partir, ele conta ao leitor o momento em que recebeu o diagnóstico e como esse veredicto mudou a sua vida. A morte, tão familiar para ele no seu trabalho, fazia-lhe agora uma visita pessoal.
Na primeira parte da obra, o autor conta os momentos mais marcantes da sua infância, adolescência e transmite ao leitor que desde sempre se interessara por entender a relação que existia entre o sentido, a vida e a morte. Para compreender as particularidades da morte este jovem ambicioso estudou História e Filosofia da Ciência e Medicina em Cambridge, Literatura Inglesa em Stanford e por fim incursou na Faculdade de Medicina de Yale, nos EUA.
A primeira dissecação de um cadáver, o primeiro nascimento, a primeira morte de um paciente seu, são episódios que lhe marcaram e são relatados de forma íntima e emocionante, nas páginas do livro. Não é necessário ler muito do que Paul partilha na obra, para sabermos que ele dava imensa importância às relações humanas:
«Quando não há lugar para o bisturi, as palavras são o único instrumento do cirurgião.»
«antes de operar um doente ao cérebro tenho primeiro de entender a sua mente: a sua identidade, os seus valores»
A segunda parte do livro é guiada pela voz narrativa do neurocirurgião após ter sido diagnosticado com a doença terminal, a partir do ponto em que ele comeca a ver o mundo através de duas perspectivas: «começava a ver a morte simultaneamente como médico e doente.» Esta parte que ruma até ao final do livro, é mais perturbante, inquietante e simultaneamente emocionante. Aqui, ele disseca o seu íntimo de forma sincera, afirmando que o cancro o ajudou a salvar o seu casamento com Lucy, a mulher, e o ajudou a entender, finalmente, questões que ele desde há muito levantara e estudara sobre a mortalidade.
Metástase, cancro, cérebro, morte, vida, limbo, são vocábulos que surgem amiúde ao longo da leitura. O autor é comedido na forma como apresenta o conteúdo da sua vida, escreve usando linguagem pungente e adornada com termos pomposos, mas sem gíria médica.
Antes de eu Partir (When Breath Becomes Air; tradução de Teresa Carvalho) é uma obra póstuma intensa, emotiva e, nalguns casos, violenta, que nos fala sobre algumas das coisas mais simples e mais importantes da vida e da morte. Deste livro, uma contudente lição de como lidar com a morte, podemos absorver que a vida é breve, mesmo quando é longa.


Citação
«Recebi a pulseira de plástico que todos os doentes usam, vesti a familiar bata azul-clara do hospital, passei pelas enfermeiras que conhecia de nome, e fui admitido num quarto – o mesmo quarto em que vira centenas de doentes ao longo dos anos.» (p. 37)

1 comentário:

Maria Helena Costa disse...

Quando um médico passa a doente vê o seu mundo mudar para uma incógnita!