sexta-feira, 6 de outubro de 2017

«Nada», de Janne Teller

Editora: Bertrand
Data de publicação: 01/09/2017
N.º de páginas: 152

Intenso, macabro e indiscutivelmente brilhante. Assim podemos definir Nada, o primeiro livro da conceituada escritora dinamarquesa Janne Teller (n. 1964) que é publicado em Portugal. Este romance, que é tido como o livro mais controverso da autora, foi censurado na Dinamarca pouco depois de ter sido publicado.
A história é narrada pelo ponto de vista de Agnes, uma das alunas do sétimo ano de uma escola situada nos subúrbios do país que é considerado o mais feliz do mundo. Através de seus relatos vamos acompanhando o quotidiano dos seus colegas de turma, entre eles Elise, Gerda, Sofie, Kaj, Ingrid e Jan-Johan; mas tudo gira à volta de Pierre Anthon, que «saiu da escola no dia em que chegou à conclusão de que não valia a pena fazer nada, porque de qualquer forma nada tinha significado.»
Este niilista do grupo, argumenta que a vida é isenta de sentido e valor, e por isso passa os dias inteiros no cimo das ameixeiras perto da escola, questionando e tentando convencer os seus colegas a pensar do mesmo modo: «No momento em que vocês nasceram, começaram a morrer. É assim com tudo. (…) Nem sequer vale a pena existir.»
Saturados de ouvirem sempre o mesmo pregão, os jovens desenvolvem um plano para provar a Pierre que há muitas coisas com significado na vida de cada um. Da teoria, passam à prática e ao longo de várias semanas recolhem numa serração velha objectos que para cada um dos vinte adolescentes (com idades não superiores a 14 anos) tem muita importância (bicicleta, telescópio, etc.). Mas à medida que cada um começa a desafiar os outros para que faça sacrifícios cada vez mais insensatos, o que ambicionavam ser um jogo inocente, com boa finalidade, ganha proporções sinistras e mórbidas (exumações de corpos, animais sacrificados, dedos cortados, etc.).
Será que Pierre ao ver a “pilha de coisas com significado” — como lhe chamam — mudará o seu pensamento em relação ao real valor das coisas?
Neste livro, cujo principal tema é a crueldade humana, tudo é sacudido, posto radicalmente em discussão. Janne Teller, de forma acutilante, através de uma narrativa precisa e bem articulada, cria um universo tão perturbador e tenso que faz com que o leitor não consiga se desprender de Nada, obra traduzida a partir do dinamarquês por Ana Diniz.
A acção, gradualmente, vai ganhando balanço e como se de uma bola de neve se tratasse, em poucos minutos estamos a assistir ao derradeiro final desta história protagonizada por adolescentes.
Nada é o tipo de livro que foi escrito para provocar reflexão, para deixar o leitor inebriado e sem chão. Só quem se atrever a ler este pequeno livro (em páginas, leia-se) é que poderá perceber o porquê deste título ter chegado a ser proibido aquando da sua primeira publicação e depois, ter desencadeado debates controversos e acalorados em alguns dos cerca de 30 países onde já foi publicado.

1 comentário:

Joana Lopes disse...

Ansiosa por experimentar!