Em 2026 assinala-se 70 anos da morte de Thomas Mann (1875-1955). A Dom Quixote reedita algumas das suas obras literárias mais emblemáticas, nomeadamente A Montanha Mágica, O Mário e o Mágico, Os Buddenbrook e Tonio Kröge.
Deste escritor distinguido com o Prémio Nobel de Literatura em 1929 sai também, pela Livros do Livros, reedições de A Montanha Mágica, Desordem e Primeira Paixão e As Três Últimas Novelas.Esta é a história de Hans Castorp, herói singelo e sonhador, filho traquinas da vida, objeto pedagógico disputado por figuras ideológicas em oposição, o hóspede que sobe à montanha por três semanas apenas, de visita e de passagem, e acaba por lá ficar sete anos, nem longos, nem breves, herméticos tão-só.História mágica ou filosófica, romance histórico ou de formação, narrativa sobre o tempo ou viagem interior de um jovem alemão honrado e ávido de experiências, este romance envolve e enreda o leitor em teias mágicas que não mais o libertarão, entre a sátira e a seriedade, o humor e a ironia, a luz e o niilismo, numa sinfonia contrapontística em que liberalismo e conservadorismo, decadência e sublimação, doença e saúde, espírito e natureza, morte e vida, honra e volúpia se sucedem num torvelinho que só a Primeira Guerra Mundial conseguirá dissipar.Quando as fundações da Terra e da montanha mágica começam a tremer, quando o mundo hermético feito de tédio, torpor e exasperação começa a abalar, por ação do trovão e do enxofre, das baionetas e dos canhões, é que o arganaz adormecido esfrega os olhos e começa a endireitar-se, saindo da sua tenaz hibernação, expulso do seu reino e dos seus sonhos, salvo e liberto, depois de quebrado tão longo e mágico encanto.Um pai anónimo conta-nos o conturbado início de férias da sua família numa estância balnear italiana, em finais dos anos 1920. Desde que chegaram que repara serem tratados de forma desagradável devido à sua condição de estrangeiros, observando o ambiente oprimente e de crescente nacionalismo que os rodeia. Este vem à tona quando um acontecimento inocente toma as proporções de um escândalo, precipitando o fim da viagem da família. No entanto, antes de terminarem a sua estada, um mágico chega à pequena localidade, anunciando o seu espetáculo. Este parece ser uma boa oportunidade de divertimento para as crianças, que se mostram entusiasmadas com a ideia. Mas o suposto entretenimento de leve não tem nada.Cavaliere Cipolla, como é anunciado nos cartazes, não é um mágico vulgar mas uma espécie de hipnotizador, um mestre nas «artes ocultas» - ele tem a capacidade de manipular e humilhar as pessoas apenas com a força da sua vontade, sendo o poder e controlo que exerce sobre o seu pequeno público comparável ao dos ditadores sobre as massas. Ao mesmo tempo ofensivo e intrigante, o diabólico Cipolla repulsa e cativa o público até ao fim da sua exibição, que termina de forma surpreendente e inesperada.Os Buddenbrook narra a ascensão e a decadência de uma família burguesa alemã através de quatro gerações. Mais do que a crónica em torno da vida e costumes dos seus personagens, este romance é a metáfora exemplar das contradições e dilemas de uma classe, cujo poder e domínio se constroem sobre a fraude, a hipocrisia e a alienação. Ao mesmo tempo, como posteriormente acontecerá nos seus principais romances, Thomas Mann propõe e desenvolve o tema da arte como a instância privilegiada em que o homem pode reflectir sobre si, a sua época e o seu meio.
Tonio Kröger é um jovem escritor de origem burguesa. Espírito atormentado, leva uma vida solitária, como que à parte dos outros homens. Não consegue viver sem se questionar constantemente, a si e ao seu trabalho, mas ao mesmo tempo aspira a uma existência banal, como a dos que vivem sem pensar, dos que não se analisam, não sonham, dos que se contentam em abandonarem-se aos instintos sociais. Numa palavra, sonha viver como Hans e Ingeborg, jovens e belos, loiros e de olhos azuis.Thomas Mann aborda pela primeira vez na sua obra o tema do artista em choque ou em progressivo divórcio com a vida, tema que tanta importância viria a assumir no seu romance Doutor Fausto. Em grande parte autobiográfico, Tonio Kröger é a base de toda a obra de Thomas Mann.
Publicada em livro em 1926, logo após A Montanha Mágica, a novela Desordem e Primeira Paixão é, de certa forma, o contraponto de Thomas Mann a esse grande romance: da imponência dos Alpes e das grandes ideias desce aqui à domesticidade burguesa e suas tensões familiares. Mas ambos os textos espelhavam a viragem política que se sentia na Europa. À volta da mesa do Professor Cornelius, as quatro crianças e a sua mulher reúnem-se para acolher um conjunto de jovens amigos. Os efeitos da crise económica não escapam à vista daquela casa respeitável, onde há apenas couve-lombarda a imitar costeletas para a refeição e o mordomo enverga um casaco demasiado curto. E no decorrer daquele encontro, uma dança deixará todos em alvoroço, velhos e novos, senhores e criadagem, expondo uma reflexão a um só tempo melancólica e humorística.
História de uma mulher de meia-idade em tumulto físico e emocional, que pode ser lida como o contraponto feminino de A Morte em Veneza, A Mulher Atraiçoada foi a última novela publicada por Thomas Mann, em 1953. Mais de uma década antes, em 1940, lançara As Cabeças Trocadas, a sua versão filosófica de uma lenda indiana em torno de um triângulo amoroso. E, entre as duas, em 1943, escreveu A Lei, um novo olhar sobre a vida de Moisés, o nascimento do povo judeu e a construção de um código moral que os nazis procuravam então destruir.
Traduzidas pela primeira vez do alemão, as três últimas novelas de Thomas Mann são agora integradas num só volume por onde perpassa uma mesma voz de grande ironia e paródia, um questionamento constante das normas e uma reflexão poeticamente tecida sobre a complexidade do comportamento humano.
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