Recentemente publicado pela Editora Alma dos Livros, Dias de Vidro é uma narrativa intensa sobre a capacidade de resistir mesmo nos contextos mais desumanos. Num cenário marcado pela violência e pelo silêncio imposto, acompanha-se a história de uma mulher que encontra formas de permanecer inteira, preservando a sua fé na humanidade. Entre a sombra e a luz, o romance transforma o silêncio numa força viva.
Amplamente reconhecida, Dias de Vidro, com tradução portuguesa de Filipa Ramalho, foi distinguida com o Prémio da União Europeia para a Literatura, o Prémio Alessandro Manzoni (Romance Histórico), o Prémio Literário Chianti e o Prémio The Bridge, além de ter sido finalista do Prémio Strega, entre outros. Nicoletta Verna, nascida em Forlì em 1976, estreou-se com Il Valore Affettivo e afirma-se hoje como uma das vozes mais marcantes da literatura italiana contemporânea, destacando-se pela forma como transforma a memória histórica em ficção viva, aliando rigor narrativo e grande intensidade emocional.
Excerto
«Não é que os meus pais fossem pobres, ou pelo menos não eram mais pobres do que os outros. O meu pai guardava a casa do conde Morelli no Tarascone, que ficava no caminho que passava pela fortaleza, e a minha mãe vendia tremoços no mercado de Santa Maria com um carrinho. Em Castrocaro, havia quem trabalhasse nas Termas e já tivesse uma casa de banho, é verdade, com uma sanita de cerâmica branca, onde despejando água com uma bacia ia tudo por ali abaixo e nem nos apercebíamos de ter feito alguma coisa, enquanto os restantes iam para o barracão no pátio, assim como os outros do bairro, com um odor que fazia vir as lágrimas aos olhos, e punham-se no buraco a chocar e limpavam-se à pressa com um pano. Mas não eram pobres: conseguiam pagar todos os meses a renda da casa na curva da estrada nacional e quase não tinham dívidas.»
Sinopse
Itália, 1924. Giacomo Matteotti, principal opositor de Benito Mussolini, é assassinado no dia em que Redenta vem ao mundo. O medo instala-se, o silêncio torna-se regra e a violência passa a ser instrumento de governo. A morte de um marca o início definitivo da ditadura, o nascimento de outra inaugura uma vontade obstinada de resistir.
Prometida em criança ao seu melhor amigo, Bruno, que desaparece sem explicação, é mais tarde escolhida para casar com Vetro, um dirigente fascista cujo sadismo parece não ter limites. Ainda assim, algo nela persiste. Uma força silenciosa, quase indestrutível.
A vida de Redenta cruza-se com a de Iris, uma mulher rebelde e com desejos de liberdade. Duas mulheres, duas formas de coragem, dois destinos que se entrelaçam num dos períodos mais austeros da História.
Outro romance também premiado, recentemente publicado pela editora: O Artista, de Lucy Steeds.
domingo, 3 de maio de 2026
Novidade: «Dias de Vidro», romance multi-premiado e finalista do Prémio Strega
sábado, 2 de maio de 2026
«Klara e o Sol», de Kazuo Ishiguro
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Editora: Gradiva
Data de publicação: 24-02-2026N.º de páginas: 272 |
O romance de Kazuo Ishiguro após ter vencido o Nobel de Literatura em 2017, apresenta-nos um futuro próximo onde a tecnologia se entrelaça com as emoções humanas de forma inquietante. A protagonista, Klara, é uma Amiga Artificial dotada de uma extraordinária capacidade de observação, que aguarda ser escolhida numa loja enquanto tenta compreender os comportamentos daqueles que passam diante de si. Desde o início, a sua perspectiva singular — simultaneamente ingénua e penetrante — conduz o leitor por um mundo onde as relações humanas parecem cada vez mais mediadas e frágeis.
Quando Klara é escolhida para acompanhar Josie, uma adolescente fragilizada por uma doença misteriosa, a narrativa desloca-se para um ambiente mais íntimo e emocionalmente complexo. À medida que a ligação entre ambas se aprofunda, Klara observa e interpreta as dinâmicas familiares, as ansiedades da mãe e a solidão que envolve essas personagens. Paralelamente, vai desenvolvendo uma crença quase espiritual no Sol, fonte da sua energia, que passa a encarar como uma entidade capaz de intervir no destino humano. Movida por essa fé e pela sua dedicação a Josie, Klara envolve-se numa tentativa comovente de salvar a jovem, revelando uma capacidade de amor e sacrifício que desafia a própria definição de humanidade.
Ao longo da obra, o leitor é confrontado com um mundo marcado por desigualdades e escolhas difíceis, onde o progresso científico levanta questões éticas profundas. Através do olhar de uma narradora inesquecível, o autor nipónico — que se estreou na literatura com o romance As Pálidas Colinas de Nagasáqui — contempla o mundo moderno em rápida mudança para compreender uma questão fundamental: o que significa amar?
Klara e o Sol (tradução de Maria de Fátima Carmo a partir de Klara and the Sun) afirma-se, assim, como uma reflexão tocante sobre a natureza do amor, da esperança e daquilo que nos torna únicos.
Considerado um dos melhores livros de 2021, o romance foi adaptado ao cinema, com estreia prevista para Outubro deste ano, contando com a participação dos actores Amy Adams, Jenna Ortega e Steve Buscemi nos principais papéis.
Excerto
«Quando vemos as coisas por dentro, não só elas se tornam menos assustadoras como nós aprendemos. Aprendemos coisas novas e extraordinárias.»
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Ensaio inédito de Umberto Eco entre os livros que a Gradiva publica em Maio
Maio será um mês marcado por um significativo conjunto de reedições a publicar pela Gradiva. Com exceção de Reflexões sobre a dor, obra inédita em Portugal de Umberto Eco, um ensaio sobre a dor, traduzido por Bárbara Villalobos, e do romance Na tua mão, do médico e escitor Hélder Teixeira Aguiar — vencedor do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2025 —, os restantes nove títulos que chegarão às livrarias até ao final do mês correspondem a reedições.Entre estas, destacam-se A Fórmula de Deus e Nunca me deixes, de José Rodrigues dos Santos e Kazuo Ishiguro, respetivamente; a 4.ª edição de O Silêncio dos Livros, de George Steiner, volume que reúne dois breves ensaios dedicados à censura e à repressão do conhecimento; e O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, de Samuel P. Huntington, reconhecido como um dos mais influentes pensadores da ciência política ocidental.
Integram ainda esta série Diplomacia, de Henry Kissinger; o há muito esgotado volume 1 de Calvin & Hobbes A Noite da Grande Vingança, de Bill Watterson; duas obras do médico e fundador da Bial, Luís Portela — Serenamente e O Prazer de Ser —; e, por fim, Jardins Secretos de Lisboa, de Manuela Gonzaga, originalmente publicado em 2005 pela Âncora Editora.



