domingo, 12 de janeiro de 2014

«Um Marido Ideal», de Oscar Wilde

Editora: Europa-América
Ano de Publicação: 1999
N.º de Páginas: 232


A peça Um Marido Ideal foi levada à cena pela primeira vez em 1895, no Haymarket Theatre, em Westminster, Londres. Várias vezes encenada nos mais diversos palcos do mundo, esta peça do genial escritor Oscar Wilde, teve várias adaptações para o cinema, sendo a mais recente em 1999, pela direcção de Oliver Parker (que transpôs posteriormente outras duas obras de Wilde para filme, em 2002 e 2009, respectivamente: The Importance of Being Earnest e Dorian Gray) e contou com um elenco do qual constam nomes como o de Julianne Moore, que representa a vilã da peça. Figurando ao lado das peças Uma Mulher Sem Importância e A Importância de se Chamar Ernesto, Um Marido Ideal forma a trilogia que marca o ex-libris literário da carreira de dramaturgo de Wilde. Em An Ideal Husband (de seu título original) podemos nos esbarrar com os melhores e acutilantes paradoxos tão característicos da linguagem wildiana, dados a conhecer ao longo de uma acção distribuída por quatro actos, com a duração de vinte e quatro, e cujo desenrolar da história tem lugar em Londres, na última década do séc. XIX.
Um político íntegro e em ascenção no Parlamento, Sir Robert Chiltern, aos olhos da mulher e da sociedade londrina, jamais cometeu um deslize de qualquer ordem. Ele é o protótipo perfeito de um homem ideal. Essa máscara, no entanto, fica a ponto de desabar quando entra em cena Laura Cheveley, uma mulher ambiciosa e oportunista, que tem em seu poder a prova de um erro crasso cometido há dezoito anos pelo marido de Gertrude Chiltern. Nessa altura Robert era um jovem que auspiciava um lugar de topo na política, e deixou-se cair nos meandros da «mais baixa desonestidade», e assim, como o próprio revela: «comprei o sucesso por um preço muito alto.» A origem da fortuna de Robert é um segredo que só Laura tem conhecimento e é por isso que ela o chantageia, pedindo em troca do seu silêncio algo que põe, novamente, em jogo os escrúpulos de Robert. Mantido num pedestal, como objeto de adoração, pela mulher, Robert Chiltern não quer ver a sua reputação, enquanto político e esposo, cair por terra ao ser revelado um episódio obscuro do seu passado, e desabafa ao seu melhor amigo, Lord Arthur Goring, o seu segredo. Goring é um amigo fiel, mas também um mordaz crítico dos (bons) costumes, sendo as suas elações quase sempre politicamente incorrectas. É por isso que este levanta a moral do seu amigo e ajuda-o a sair dessa situação, até porque Laura Cheveley fora sua amante em tempos idos, e o bon vivant bem sabe com que tipo de índole contar. Sobre como se desenlaça esta peça, duas questões são pertinentes lançar: Será que teremos que ser totalmente julgados pelo nosso passado? Todos teremos de pagar por aquilo que fizemos?
Em Um Marido Ideal há um ataque à falsa moralidade e à hipocrisia social e política do final da era vitoriana. A riqueza desta obra resulta essencialmente do teor sem escrúpulos da personagem vilã que lança intriga e chantagem a vários personagens, criando uma trama invulgarmente inesperada. Um efeito cómico frequentemente empregado por Oscar Wilde é afirmar o contrário do que se espera, e muitos são os belos exemplos encontrados ao longo desta obra de edição bilíngue, traduzida para português por Carmo Vasconcelos Romão. No seu estilo subversivo, ora profundo, ora subtil, ora superficial, o autor de Salomé mostra-nos o seu invencível desejo de se revelar contra todos os sistemas de ideais, e dá exemplos de como a ambição, corrupção e perdão podem estar bem interligados. A vida é imperfeita, e talvez por este facto «nunca é justa (…) E talvez seja bom para alguns de nós que nunca o seja.»


Citações de alguns personagens:

Mrs. Marchmont: «Gosto de olhar para os génios e de ouvir pessoas belas.» (p. 28)

Lorde Goring: «As mulheres têm um instinto maravilhoso. Descobrem tudo, menos o óbvio.» (p. 49); «rouge a mais e roupa a menos. Numa mulher é sempre sinal de desespero.» (p. 58)

Mrs. Cheveley: «quando um homem ama uma mulher, fará tudo por ela, menos continuar a amá-la.» (p. 99)

Sir Robert Chiltern: «Os casamentos sem amor são horríveis. Mas há ainda uma coisa pior do que um casamento completamente sem amor. Um casamento onde há amor apenas de uma das partes.» (p. 128)


17 comentários:

Miguel Jerónimo disse...

Ando para ler Oscar Wilde. Particularmente "O Retrato de Dorian Gray".
Não sei se é por apreensão ou por medo. Talvez me assuste a ideia da complexidade dos seus livros. Mistérios de leitor, huf.
Aqui fica o meu blogue: http://rabiscosdoluar.blogspot.pt/

Boas leituras!

Miguel Pestana disse...

Não tenha receio do que lhe pode fazer bem, Miguel :)

Denise disse...

Excelente! ;)

Mónica Jordão disse...

Gostava muito de experimentar este livro, parece soberbo!!
Bom fim de semana.

BlueLightBoy disse...

Oscar Wilde é um escritor que ainda tenho por descobrir...Parece-me um bom tema de conversa..

Aiko89 disse...

Adoro o humor e as observações acutilantes nos livros de Oscar Wilde. Ainda não conheço este, mas recomendo :)

kassie disse...

Deste autor só O Retrato de Doran Gray, livro fabuloso, entre os meus preferidos. Tenho que ler este também :)

Silvéria Miranda disse...

Comecei agora a ler "O retrato de Dorian Gray" e pelo menos no início não me está a cativar muito! A ver vamos!
Este não conhecia, por acaso!

Revista 21 disse...

Ainda não li este, mas Oscar Wilde é um dos meus autores favoritos. Para além d'O Retrato de Dorian Gray (que é um dos melhores livros que já li), também gosto bastante de alguns contos, como O Crime de Lord Arthur Saville. Aliás, o único texto de Wilde que me desiludiu foi O Retrato de Mr. W. H., mas esse é quase mais não-ficção que ficção.

Flavio Borda d'Agua disse...

Existem mesmo maridos ideais, ou simplesmente mulheres perfeitas ;-) ?

Flavio Borda d'Agua disse...

Existem mesmo homens ideiais ou simplesmente mulheres perfeitas ;-) ?

Jose Palma disse...

Mais uma obra excepcional de Oscar Wilde...intemporal!

Susana Simões disse...

Óscar Wilde no seu melhor !

Catarina Pereira disse...

Já ando para ler este autor há algum tempo e pelas críticas este é um excelente exemplo das suas obras... ;)

Joana disse...

Provavelmente será uma das minhas próximas leituras.

Carina Martins disse...

fiquei curiosa, gostava muito de o ler :)

João Miranda disse...

O primeiro e único, até agora, de Wilde. Gostei bastante. Um retrato brilhante da sociedade retratada.

Gostei do blog, vou acompanhar.

Este nasceu ontem:
http://crimeoucastigo.blogspot.pt/

Boas leituras.