Dois livros de Dulce Maria Cardoso voltam a ganhar vida em novas reimpressões. O Chão dos Pardais (Prémio PEN Clube Português e Prémio Ciranda) e Os Meus Sentimentos (Prémio da União Europeia para a Literatura) regressam às livrarias, confirmando que há obras que permanecem actuais e continuam a despertar o interesse de novos leitores. Uma excelente oportunidade para conhecer — ou reler —, em versão de bolso, duas obras incontornáveis da autora.

Texto sinóptico
Afonso é um homem muito poderoso. Inatingível. Excepto pelo passar
dos anos. Há muito que só encontra a juventude nos corpos das amantes.
Como o de Sofia, que o odeia. A sua mulher, Alice, entretém‑se a governar a casa e a dar ordens a
Eugénia, a criada de sempre. A filha, Clara, traduz livros inúteis e
apaixona‑se por Elisaveta. O filho, Manuel, é um cirurgião plástico
acusado de negligência e entregue ao amor por uma mulher com quem se
encontra no ecrã do computador.
No entanto, tudo está perfeito na festa que Alice organiza para os sessenta anos de Afonso. Antes e depois dessa festa, antes e depois da tragédia, o romance dá
conta das forças que atiram as personagens umas contra as outras, para
se amarem ou para se odiarem. E, vertical, por entre todas as forças, a
força da gravidade que estatela os corpos no chão.
Excerto
É de noite. A rua está ladeada por muros altos. A mulher usa um casaquinho curto de manga a três quartos e uma camisa de flores roxas que tem os primeiros três botões desapertados. A pele da mulher é morena. As meias de rede preta tornam as pernas mais longas. A mulher está muito cansada. Encosta‑se a um dos muros, ofegante. Os lábios vermelhos são um coração bem desenhado.»

Texto sinóptico
É uma noite de temporal. A noite do acidente. Suspensa num estilhaço
de vidro, há uma gota de água que teima em não cair, há um instante que
se eterniza. Reflectida na gota, Violeta mergulha nessa eternidade e
recorda aquele que pode ter sido o último dia da sua vida. Na verdade,
as memórias desse dia contam toda a sua história: os pais, a filha, a
criada, o bastardo, e em todos a urgência da vida, que prossegue
indiferente, como a estrada de onde ainda agora se despistou. Nessa
posição instável, de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança,
parece que tudo se desamarra. O presente perde a opacidade com que o
quotidiano o resguarda e Violeta afunda‑se nos passados de que é feita,
uma espiral alucinada de transparências e ecos.
Excerto
«inesperadamente
não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,
inesperadamente páro
a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro»
Dulce Maria Cardoso publicou os romances Campo de Sangue (2001), Os Meus Sentimentos (2005), O Chão dos Pardais (2009), O Retorno (2011) e Eliete (2018). Estão traduzidos em várias línguas e publicados em mais
de duas dezenas de países. A obra da escritora nascida em 1964 é estudada em
universidades de vários
países e tem sido adaptada a cinema, teatro e
televisão.
Todos os livros da autora encontram-se disponíveis nas livrarias e aqui, no site da editora Tinta-da-china.