![]() |
Editora: Dom Quixote
Data de publicação: 09-09-2026N.º de páginas: 208 |
East Wind, West Wind (1930), o romance de estreia de Pearl S. Buck (1892-1973), editado em Portugal pela Editorial Minerva em 1977, há décadas que estava fora de circulação nas livrarias. Esta nova tradução, assinada por Ana Marta Caio e com o selo da Dom Quixote, vem colmatar essa lacuna, até porque Vento do Oriente, Vento do Ocidente é uma obra belíssima, que deve estar ao alcance dos leitores portugueses. Menos de uma década depois da publicação deste romance, que antecede a sua obra mais célebre, Terra Abençoada (1931), a escritora norte-americana foi galardoada com o Prémio Nobel de Literatura, em 1938.
O romance decorre na China do início do século XX, numa sociedade ainda profundamente marcada pelos costumes tradicionais — o casamento arranjado, o enfaixamento dos pés, a importância da descendência masculina e a existência de concubinas —, mas já confrontada com a influência crescente dos valores ocidentais.
Kwei-lan, casada aos dezassete anos com o homem a quem fora prometida antes de nascer, foi educada para ser uma mulher submissa: «Foste educada para este fim». A mãe inculcou-lhe: «Em tudo te ensinei a submeteres-te, como a flor se submete igualmente ao sol e à chuva.» E ainda: «Uma mulher perante os homens deve manter um silêncio floral e retirar-se no primeiro momento possível sem confusão.»
O marido, seis anos mais velho, médico e formado no Ocidente, representa uma nova maneira de olhar a vida e os costumes. Inicialmente, Kwei-lan sente-se incompreendida: «Não há nada que o meu marido deseje em mim.» Quando ele lhe pede que desenfaixe os pés, por saber que a prática é prejudicial, ela sente-se ofendida. Mas, pouco a pouco, começa a questionar aquilo que sempre lhe ensinaram: «Nunca sonhei poder desejar ser diferente.» E acaba por reconhecer: «Agradeço aos deuses ter casado com um homem moderno.»
O pai de Kwei-lan tinha várias concubinas, numa família onde a esposa principal ocupava uma posição distinta das restantes mulheres. A importância dos filhos e da continuidade da linhagem, bem como crenças como «Onde o sangue é misturado e impuro o coração não pode ser estável.», revelam a força da tradição.
Pearl S. Buck consegue, através de uma história familiar, retratar o choque entre Oriente e Ocidente e uma China em transformação. A nossa protagonista não abandona simplesmente a sua cultura: aprende, gradualmente, a olhar para ela de outra forma e a descobrir que também pode escolher.
É um romance curto, com uma prosa fluida, precisa, leve e imagética, muito rico nas questões que levanta sobre família, cultura, casamento e liberdade.
Vento do Oriente, Vento do Ocidente é, portanto, um retrato muito bem elaborado das crenças e costumes da sociedade chinesa de há mais de cem anos, escrito numa linguagem delicada, capaz de produzir frases tão belas como «Nessa noite, quando as pontadas da minha deceção tinham já passado…» e «Vi de súbito o interior dos corredores do seu coração.»
Excerto
«Não é de supor que te sentisses atraída por mim, a quem vês pela primeira vez, como eu também te vejo a ti. Foste obrigada a este casamento tanto quanto eu. Não podíamos fazer nada a este respeito até agora. Mas agora, que estamos sozinhos, podemos criar a nossa vida segundo os nossos próprios desejos. Pela minha parte, desejo seguir os novos caminhos. Desejo considerar-te em tudo como minha igual. Nunca te obrigarei a nada. Não és minha propriedade; não és um bem meu.» (p. 32)




























