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Editora: Presença
Data de publicação: 18-02-2026N.º de páginas: 112 |
Numa carta dirigida a Mahatma Gandhi, datada de 7 de Setembro de 1910, Liev Tolstói, já consciente da proximidade da morte, manifesta o desejo de partilhar aquilo que mais profundamente o tocava. Aos 82 anos, descontente com uma existência marcada pelo conforto e pela abundância material, o escritor decide abandonar o lar para procurar uma vida mais simples. No dia 28 de Outubro desse mesmo ano — poucas semanas antes de falecer, a 20 de Novembro — deixa uma carta à esposa, explicando que a convivência doméstica se tornara insuportável e que pretendia afastar-se da vida mundana para viver em paz e recolhimento os seus últimos dias.
A fase final da sua vida, muitas vezes designada como período de conversão, ficou profundamente marcada por uma crise espiritual. Essa perturbação interior alterou de forma decisiva o modo de pensar e de encarar o mundo de um homem que, prestes a completar cinquenta anos — por volta de 1877, quando relata ter vivido uma espécie de despertar —, era amplamente reconhecido, possuía estabilidade familiar, riqueza e prestígio. À partida, reunia todas as condições para ser feliz. Ainda assim, era ciclicamente assaltado por pensamentos suicidas. A inquietação agravava-se, intensificada por uma fé fragilizada desde a adolescência, altura em que deixara de frequentar a igreja.
Na tentativa de encontrar um sentido para a vida, Tolstói revisita o seu passado e confronta-se com os seus erros: a participação em mortes durante a guerra, mentiras, roubos e comportamentos moralmente condenáveis. A consciência de que cometera inúmeras faltas e, apesar disso, continuava a ser admirado pela sociedade, aprofunda o seu conflito interior. O autor de Ressurreição inicia então uma procura persistente de respostas, dialogando com sábios indianos e monges, e confrontando-se com o pensamento de figuras como Socrates e Arthur Schopenhauer. Aproxima-se das camadas mais humildes da população, procurando compreender o significado que as pessoas simples atribuem às suas existências, e acaba por concluir que a finalidade do homem reside na salvação da alma.
Confissão é uma obra de carácter autobiográfico, escrita em 1882 e publicada na Rússia apenas em 1906, devido à censura eclesiástica. Redigido na primeira pessoa, o texto desenvolve-se em várias direcções reflexivas que convergem numa inquietação central. Ao longo destas páginas, o leitor acompanha de perto a angústia do autor perante a ausência de um propósito claro para a vida. Trata-se de um livro que convida à introspecção e que, depois de lido, continua a inquietar.
Quatro anos após concluir esta obra, Tolstói publica A Morte de Ivan Ilitch, narrativa centrada numa personagem que, perante a iminência da morte, também procura atribuir significado ao tempo que lhe resta.






