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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

«A Intransigente Defesa da Arte», de Oscar Wilde

Editora: Guerra & Paz
Data de publicação: Janeiro de 2022
N.º de páginas: 128

Oscar Wilde é o autor do mais recente título da coleção Livros Negros, da Guerra & Paz Editores. Publicação inédita em Portugal, A Intransigente Defesa da Arte: Transcrição de um Julgamento Sórdido, apresenta aos leitores a totalidade do que foi proferido no primeiro julgamento, de três, que deliberou a condenação do escritor, poeta e dramaturgo mais sensacionalista e provocante das últimas décadas do século XIX.
Localizemo-nos em Londres, no ano 1895.
Tudo começa com o relacionamento entre Oscar Wilde e Lord Alfred Douglas (“Bosie”), o filho de John Douglas, o Marquês de Queenberry. Ambos se conheceram quatro anos antes, e mesmo com uma diferença de idade de 16 anos, tornaram-se amigos inseparáveis, comparsas na vida boémia e… amantes.
Quando o pai de “Bosie”, conhecido por seus modos grosseiros, descobre a ligação entre os dois, ele confronta o irlandês variadíssimas vezes a respeito da natureza do relacionamento deles, ameaçando-o, tentando fazer com que o dândi desistisse de andar na companhia do filho (Em De Profundis, Oscar, em encarceramento, escreveu: «O que o teu pai queria, de facto, não era a cessação da nossa amizade, mas um escândalo público.»)
Esta perseguição e campanha pública caluniosa contra o escritor torna-se insustentável, quando o Marquês lhe endereça um cartão-de-visita insidioso contendo uma frase, que Wilde a toma como de uma afronta total. Furioso, reage, movendo uma acusação judicial por difamação contra o pai de Douglas.
Nos primeiros três dias do processo, em tribunal, entre depoimentos e acusações, aquele que é até ao dia de hoje conhecido como o grande mestre em criar frases marcadas por ironia, sarcasmo e cinismo, fez uso desse seu dom – ele era um provocador nato – e em alguns momentos deixou o advogado de defesa do réu sem palavras; mesmo quando este lia os excertos mais imorais do controverso O Retrato de Dorian Gray, com o intuito de denegrir a moralidade do esteta.
Mas Oscar Wilde nunca disse a verdade que queriam ouvir...
Na introdução desta obra, indispensável na biblioteca de todos os fãs do autor de várias peças sublimes como Salomé, o editor Manuel S. Fonseca sublinha a pertinência e a actualidade da obra: «este é um manifesto de intransigente defesa da independência da arte, defesa hoje tão válida e necessária como ontem, face aos novos vitorianos que infestam, com a boçalidade e brutalidade da sua pureza, parte dos nossos dias.»
Lembrar que ter relações homossexuais ainda foi considerado um crime em Inglaterra até aos 72 anos que se seguiram a este “julgamento sórdido”.

Excertos
«Quando escrevo uma peça ou um livro, só me preocupo com a literatura, ou seja, com a arte. Não procuro fazer bem ou mal, mas sim uma coisa que tenha qualidade, alguma beleza.»

«Tudo é bom desde que estimule o raciocínio, seja em que idade for.»

«… há pessoas neste mundo que não conseguem compreender a devoção intensa, o afecto e a admiração que um artista pode sentir por uma bela e magnífica personalidade. São estas realidades que nos condicionam a vida.»

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Nova edição de «Teleny, ou o Reverso da Medalha», de Oscar Wilde


A 11x17, selo editorial do Grupo BertrandCírculo, que desde 2008 publica livros de bolso, publica na primeira semana de Fevereiro um romance clássico do amor homossexual. A tradução deste título é a mesma que foi publicada pela extinta
Bico de Pena, ex-chancela da Pergaminho. Salientar que para esta edição a tradução foi revista, por Tânia Ganho.

Texto de apresentação
Teleny, ou o Reverso da Medalha
foi publicado pela primeira vez em Londres em 1893. O anonimato do autor manteve-se até 1958, data em que o romance foi, pela primeira vez, explicitamente atribuído a Oscar Wilde, numa edição com a chancela Olympia Press (texto que a obra segue). É considerado um dos primeiros romances assumidamente homossexuais da literatura inglesa e conta a história de amor entre um jovem francês chamado Camille Des Grieux e o pianista René Teleny.

De Oscar Wilde (1854-1900), que talvez foi talvez o mais importante dramaturgo da época vitoriana, a editora tem já no seu catálogo O Retrato de Dorian Gray. 
Deste escritor, foi publicado este mês A Intransigente Defesa da Arte: Transcrição de um Julgamento Sórdido.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

A defesa de Oscar Wilde, para ler em «A Intransigente Defesa da Arte: Transcrição de um Julgamento Sórdido»


Oscar Wilde
é o autor do 5.º volume da colecção Livros Negros, da Guerra & Paz Editores. A Intransigente Defesa da Arte: Transcrição de um Julgamento Sórdido, com tradução assinada por André Morgado, nunca tinha sido publicado em Portugal.

Do autor de De Profundis, encontra-se publicado pela editora O Retrato de Dorian Gray, e na colecção Livros Amarelos, A Alma do Homem sob a Égide do Socialismo. Já no início de Fevereiro, será reeditado, em formato de bolso, Teleny, ou o Reverso da Medalha.


Texto sinóptico

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 1895, acontece a triunfante estreia de The Importance of Being Earnest: é o zénite da carreira de Oscar Wilde. E menos de cem dias depois, era um preso comum condenado a dois anos de trabalhos forçados.
Este livro publica a quase totalidade da transcrição do julgamento mais sensacional do século XIX ou como da sordidez da exposição, na Londres vitoriana, da homossexualidade de Wilde nasce uma veemente e majestosa defesa da absoluta liberdade da criação artística.
Esta Intransigente Defesa da Arte é um esplêndido documento histórico e é um manifesto de intransigente defesa da independência da arte, permitindo aos leitores ouvir as reais palavras de Wilde no seu mais articulado e brilhante discurso, que faz de um texto que se presumiria perdido nos meandros da lei uma peça da mais sublime estética.

Conhece, aqui, todas as novidades de Janeiro preparadas pela Guerra & Paz.

domingo, 7 de agosto de 2016

«O Banqueiro Anarquista / A Alma do Homem sob a Égide do Socialismo», de Fernando Pessoa e Oscar Wilde

Editora: Guerra e Paz
Data de publicação: 29/06/2016
N.º de páginas: 200

Antes de direcionar alguns parágrafos sobre os dois textos que estão coligidos neste primeiro volume de uma nova colecção da Guerra e Paz Editores, vou estender algumas palavras sobre o objecto em si que é este livro. Normalmente, escrevo na parte final das resenhas sobre a parte visual e gráfica dos livros, mas no caso desta obra vou inverter o habitual.
O primeiro detalhe que este livro 15 por 20 centímetros pronuncia é a sua cor, que também encontra-se pintada (à mão) nas três faces do miolo – um verdadeiro regalo para a vista. A capa tem a particularidade de ter uma fenda elíptica que separa os títulos dos textos que nele se encontram. Não só por fora o livro é chamativo, desenganem-se. Exceptuando as páginas onde vem assentado os textos de Fernando Pessoa e Oscar Wilde, todas as outras cerca de 60 páginas, com notas biográficas dos autores e contextualização sobre ambos os títulos, da autoria do editor irreverente Manuel S. Fonseca (que afirma editar livros que ele próprio, enquanto leitor, gostaria de encontrar nas livrarias), têm uma parte gráfica estimulante aos sentidos: a paginação joga com as cores antípodas e contrastantes branco e preto, com os tamanhos das letras e palavras; um trabalho criativo do designer da editora, Ilídio J.B. Vasco, que já nos habituou a olhar com outros olhos as capas dos livros que a Guerra e Paz publica. Depois de sentir com a visão e com o tacto O Banqueiro Anarquista / A Alma do Homem sob a Égide do Socialismo, é o intelecto do leitor que será despoletado de seguida, assim que ele iniciar a leitura destes escritos com pendor político e filosófico. Um texto em prosa de Pessoa e um ensaio de Wilde. O primeiro, data de 1922, o segundo, de 1891.
O Banqueiro Anarquista acompanha o diálogo tido entre dois velhos amigos, após terem jantado. O narrador é o interlocutor mais passivo da conversa, que questiona o amigo e o ouve atentamente, tentando perceber como e porque ele tornara-se anarquista e posteriormente banqueiro. Tal contradição é, paulatinamente, enquanto o diálogo decorre, fundamentada pelo anarquista que diz-se consciente e convicto, em comparação com «os parvos dos sindicatos», que «são anarquistas só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática. Eles são anarquistas e estúpidos, eu anarquista e inteligente.» Todos devem trabalhar para o mesmo fim, mas separados, e a liberdade para todos só pode vir com a aniquilação das ficções sociais, podemos concluir deste texto em prosa de Fernando Pessoa, que permanece intemporal.
António Rodrigues é o autor da mais recente tradução portuguesa de The Soul of Man under Socialism, o ensaio que ocupa 70 páginas e que encontramos na segunda parte deste livro. Quais os benefícios que os homens retirariam de uma sociedade regida pelo socialismo? Tendo por base alguns contextos da sociedade inglesa da época, Oscar Wilde mostra-nos o seu invencível desejo de se revelar contra todos os sistemas de ideais, e afirma que «o Socialismo será importante simplesmente porque levará ao Individualismo». A Alma do Homem sob a Égide do Socialismo está escrito num estilo incisivo e imbuído de ironia, o que é apanágio do autor irlandês, e além de abordar questões políticas, nos presenteia com a sua visão de como a Arte desempenha um papel fundamental num estado social. É neste ensaio que estão reunidas algumas das frases mais sagazes e conhecidas de Oscar Wilde, que amiúde lemos em posts nas redes sociais. São exemplos: «Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas contenta-se em existir.» (p. 144) e «Qualquer um pode sentir compaixão pelos sofrimentos de um amigo, mas é preciso uma natureza mais fina – a natureza de um Individualista – para estar em comunhão com o êxito de um amigo.» (p. 191).
Resumindo: O Banqueiro Anarquista / A Alma do Homem sob a Égide do Socialismo são exercícios mentais proveitosos, da autoria de dois génios que, coincidentemente, morreram no mesmo dia de Novembro (30).

Mais informações sobre a colecção Livros Amarelos, clica aqui.

domingo, 9 de novembro de 2014

Várias obras de Oscar Wilde para ler em 672 páginas


Obras Escolhidas I
de Oscar Wilde

Data publicação: 2014
Páginas: 672
Encadernação: Capa dura 
Editora: Relógio d'Água

Sinopse
Este primeiro volume das Obras Escolhidas de Oscar Wilde inclui O Retrato de Dorian Gray e os contos O Crime de Lord Arthur Savile, O Fantasma dos Canterville, A Esfinge sem Segredo e O Milionário Modelo.

Integra ainda as suas principais peças de teatro, entre as quais Vera ou os Niilistas, pela primeira vez traduzida em Portugal.

Pesquisa e lê textos publicados neste blogue sobre livros de Oscar Wilde, aqui.
 

sábado, 5 de abril de 2014

«O Leque de Lady Windermere», de Oscar Wilde

Editora: Europa-América
Ano de Publicação: 1997
N.º de Páginas: 108

Esta peça, dividida em quatro actos e que decorre em 24 horas, reporta à sociedade burguesa da Londres dos anos finais do século XIX, onde Mrs. Erlynne, uma mulher na casa dos quarenta é marginalizada pela sociedade nova-iorquina, por ser gananciosa, promíscua e por se envolver com homens ricos e casados, e ser sustentada por eles. Será necessário recuar vinte anos na vida desta mulher para termos conhecimento do incidente que a fez tomar caminhos desonrosos, e também por perceber o porquê do seu retorno a Londres. O casal de aristocratas Windermere são um dos mais ricos da cidade. Para festejar o 21.º aniversário da sua recém-mulher Lord Windermere convoca uma festa na sua casa e convida a nata da elite londrina, e oferece-lhe como prenda uma luxuoso leque. Mas quando Lady Windermere vê que Mrs. Erlynne fora uma das convidadas do seu recém-marido, os problemas conjugais entre ambos iniciam-se. Numa sociedade carente de escândalos, esta mulher de más rés será o alvo dos rumores e coscuvilhices suportadas pelas aparências e suposições. O último acto da peça retoma o mesmo cenário do primeiro, a sala de estar da casa dos Windermer, e também Mrs. Erlynne volta a visitar o casal, mas desta vez a sua presença não causará repulsa a Lady Windermere. A sua prenda de aniversário, o leque, tornara-se um instrumento fatal, mas também salvador, e evitara que uma história se voltasse a repetir muitos anos depois.
Uma peça de teatro de leitura imperdível para os amantes deste género, tão bem traduzida por Isabel Sequeira e que faz parte da colecção que a Europa-América tem publicada referente aos «Grandes Clássicos do Teatro». A obra, Lady Windermere’s Fan (título original), foi transposta para filme em 2004, por Mike Barker, sob o título A Good Woman, Uma Boa Mulher em Portugal, A Farsária no Brasil, e nos principais papeis contou com as actuações de Scarlett Johansson (como Lady Windermere) e Helen Hunt (como Mrs. Erylenne).


Excerto:
«há momentos em que é preciso escolher entre viver a nossa própria vida, vivê-la plena, inteira, totalmente… e continuar a levar a existência falsa, vazia, degradante que o mundo, na sua hipocrisia, exige.» (p. 52)


sexta-feira, 4 de abril de 2014

«O Aniversário da Infanta», de Oscar Wilde

Editora: Colares
Data de Publicação: 2007
N.º de Páginas: 114

Além de escritor de peças de teatro Oscar Wilde dedicou muito do seu tempo a escrever histórias onde se cruzam figuras do imaginário infantil, como princesas, reis, fadas, anões, etc. Os três contos selecionados neste livro permite ao leitor redescobrir uma das facetas literárias mais originais e características do autor de De profundis.
O primeiro conto, que dá título à obra, foi publicado em 1888 e tem como incipit: «Era o dia de aniversário da Infanta: completava doze anos, e o sol brilhava magnífico nos jardins do palácio. Embora ela fosse princesa real e infanta de Espanha, fazia anos apenas uma vez em doze meses, como os filhos dos pobres». A festa da aniversariante, órfã de mãe, é comemorada no jardim do palácio e, sendo um dia especial, o rei convidara todas as crianças pobres da cidade, e pagara a um anão que vivia na floresta, para animar as crianças, com os seus jogos e gestos engraçados. O anão, uma criatura de aspecto horripilante, «corcunda», «selvático», em vez de fazer rir a assistência infantil com os seus jogos, reparou que era dele próprio, da sua aparência, que elas gozavam. Ele só tinha consciência do seu eu interior, e portanto, a bondade que demonstrava para com os animais da floresta, a amizade que estabelecia com as aves, os lagartos, não era visível para quem o criticava, pelo seu aspecto exterior. Quando o anão recebe uma rosa branca da infanta, que embora achara graça às suas brincadeiras, também ficara fascinada com a sua figura, ele se enamora por ela. Somente quando o anão entra numa das salas espelhadas do palácio é que a sua verdade alvorece, horripilantemente. Em frente à sua própria imagem, o anão sente o desgosto a se lhe invadir pela alma. Será este o momento do despertar, para ele e para a infanta.
Esta bela narrativa, que o autor de A Alma Humana escreveu para os seus dois filhos, faz-nos refletir sobre o que é a nossa percepção do belo. Temas habituais nos escritos do autor são facilmente encontrados em O Aniversário da Infanta: a discriminação física, intelectual e social, a vaidade, a arrogância, a paixão desmesurada, a generosidade, o egoísmo, a imortalidade, etc. Tal como era apanágio de Wilde, neste conto ele crítica a sociedade dos seus tempos.
Ainda neste livro encontramos os contos O Foguete de Lágrimas e O Pescador e a Alma. Ambos são narrativas breves, simples e encantadoras.


Citação:
«O verdadeiro amor sofre em silêncio.» (p. 42) [O Foguete de Lágrimas]


«A Alma Humana», um dos mais bem conseguidos ensaios de Oscar Wilde



de Oscar Wilde


Páginas: 80
Editora: Colares Editora
 
«A primeira reacção do leitor dos nossos dias ao ver Oscar Wilde debruçar-se sobre os benefícios que os homens retirariam de uma sociedade regida pelo socialismo é o espanto: não é Wilde um dândi, um esteta, um provocador nato, numa palavra, um individualista? De facto assim é, para Wilde “O socialismo em si será precioso simplesmente porque desenvolverá o individualismo”, Eis um postulado que deve tudo ao paradoxo, senão mesmo à provocação, muito à maneira de Wilde… Esqueçamos então os nossos a priori sobre Wilde e os nossos a posteriori sobre o socialismo e as suas imperfeitíssimas tentativas de encarnar no século XX, e acompanhemos Oscar Wilde na sua demonstração, Oscar Wilde, demasiadas vezes reduzido ao escritor mundano ou ao homossexual vítima da repressiva moral vitoriana, era um homem do seu tempo, com múltiplos centros de interesse, entre os quais se encontravam a política e as questões sociais, E estas questões, ele aborda-as não apenas com a sua grande cultura, sensibilidade e liberdade de artista, mas também com o recuo e o acume daquele cuja homossexualidade o colocou à margem da sociedade do seu tempo, Sob a máscara do artista celebrado, existe o homem só (e que sabe que é vulnerável), sob a máscara do mundano, o crítico da hipocrisia, sob a superficialidade do paradoxo, a arma da dialéctica e sob a provocação ou a insolência, a intrepidez de pensamento, A Alma Humana reflecte todas estas facetas. (…)»
Danièlle  Birck (in prefácio) 


Excertos:
«A maioria das pessoas malbaratam a existência em virtude de um altruísmo doentio e exagerado» (p. 17)

«A verdadeira perfeição do homem consiste não no que ele tem, mas no que ele é.» (p. 26)

«O que um homem verdadeiramente possui está em si mesmo. O que está no seu exterior não deveria ter a mínima importância» (p. 27)

«Quão admirável será para nós a verdadeira personalidade de um homem quando depararmos com uma! Simples e naturalmente, ela desabrochará como uma flor ou desenvolver-se-á como uma árvore. Não tomará parte em conflitos, não contestará nem discutirá. Não quererá provar nada. Saberá tudo, mas não estará agrilhoada ao conhecimento. Terá o dom da sabedoria e a sua virtude não se medirá pela bitola dos bens materiais. Não possuirá nada, porém, terá tudo e, independentemente do que lhe tirar, não perderá nada, de tão rica que será. Não se imiscuirá continuamente nos assuntos alheios, nem pedirá aos outros que se lhe assemelhem. Amá-los-á. Justamente porque são diferentes.» (p. 29)



quinta-feira, 6 de março de 2014

«O Crime de Lorde Arthur Savile e outros contos», de Oscar Wilde

Ano de Publicação: 2011
N.º de Páginas: 156

O título em epígrafe é o 16.º volume, e último, por enquanto, da colecção de literatura fantástica composta por 30 títulos de autores célebres como Franz Kafka, Henry James, Edgar Allan Poe e Jack London, de que Jorge Luis Borges foi editor e organizador, e que a Editorial Presença tem vindo a publicar: «A Biblioteca de Babel». Lord Arthur Savile’s Crime and other tales reúne cinco dos mais fantásticos (no género e literalmente) contos escritos por um dos mais versáteis inventores de histórias: Oscar Wilde.
Além das curtas histórias O Príncipe Feliz, O Rouxinol e a Rosa e O Gigante Egoísta, podemos encontrar neste livro o conto que dá título ao livro, O Crime de Lorde Arthur Savile, um relato pleno de suspense sobre uma profecia lançada por Septimus Podgers, um quiromante profissional, a Artur Saville, um jovem aristocrata londrino do final do século XIX, quando este convivia numa das pomposas festas de Lady Windermere. O fim, esse, só pode ser trágico.
Por fim, em O Fantasma de Canterville Wilde narra-nos a história de um atormentado fantasma que há mais de trezentos anos aterroriza sucessivas gerações da família Canterville, em sua mansão, numa Londres mil-oitocentista. Os últimos descendentes dos Canterville decidem pôr a casa à venda e assim, passarem o testemunho fantasmagórico a outros hóspedes. Os Otis, uma família americana compra a mansão mesmo advertida das histórias de assombrações. Mr. e Mrs Otis são republicanos e educaram os quatro filhos baseando-se no dogma de um mundo materialista, maquinal e sem floreados líricos nem sentimentalistas. Portanto, o medo desenfreado que os antigos habitantes sentiam em relação ao fantasma para esta família é inexistente e isso comprova-se logo na primeira noite, em que o fantasma se revela aos novos inquilinos, mas nenhum membro da família se sente abalado pela sua aparição e até ridicularizam-no. O fantasma passa, então, a temer os vivos quando todas as suas tentativas de assustá-los passam incólumes. Virgínia é a única dos filhos que deixa o seu sangue-frio de lado e aborda-o, tentando compreender o seu historial de vida e sentimentos. Sim, sentimentos.
Em O Crime de Lorde Arthur Savile e outros contos podemos encontrar histórias escritas com inteligência, ironia e humor, bem ao estilo do autor de De Profundis.


Excertos:

[O Príncipe Feliz] «— Querida Andorinha — Disse o Príncipe —, falas-me de coisas maravilhosas, mas mais maravilhoso do que tudo o que existe é o sofrimento dos homens e das mulheres. Não há Mistério tão grande como o da Miséria.» (p. 134)

[O Rouxinol e a Rosa] «O Amor é uma coisa tão tola (…) É várias vezes menos útil do que a Lógica, pois não serve para provar nada e está sempre convencer-nos de coisas que não vão acontecer ou a fazer-nos crer noutras que não são verdade.» (p. 147)


domingo, 23 de fevereiro de 2014

«O Crime de Lorde Arthur Savile e outras histórias», de Oscar Wilde

Editora: Europa-América
Ano de Publicação: 2007
N.º de Páginas: 128

O Fantasma de Canterville é um dos cinco contos coligidos neste livro. Nele, Oscar Wilde narra-nos a história de um atormentado fantasma que há mais de trezentos anos aterroriza sucessivas gerações da família Canterville, em sua mansão, numa Londres mil-oitocentista. Os últimos descendentes dos Canterville decidem pôr a casa à venda e assim, passarem o testemunho fantasmagórico a outros hóspedes. Os Otis, uma família americana compra a mansão mesmo advertida das histórias de assombrações. Mr. e Mrs Otis são republicanos e educaram os quatro filhos baseando-se no dogma de um mundo materialista, maquinal e sem floreados líricos nem sentimentalistas. Portanto, o medo desenfreado que os antigos habitantes sentiam em relação ao fantasma («(…) um velho com um aspecto terrível. Os olhos de carvão em brasa, o cabelo grisalho; as roupas, de corte antigo, sujas e rasgadas (…)») para esta família é inexistente e isso comprova-se logo na primeira noite, em que o fantasma se revela aos novos inquilinos, mas nenhum membro da família se sente abalado pela sua aparição e até ridicularizam-no. O fantasma — que até aprecia a poesia — passa, então, a temer os vivos quando todas as suas tentativas de assustá-los passam incólumes. Virgínia é a única dos filhos que deixa o seu sangue-frio de lado e aborda-o, tentando compreender o seu historial de vida e sentimentos. Sim, sentimentos. A temática gótica do conto está dispersa quanto baste, tornando O Fantasma de Canterville uma leitura prazerosa, regada de ironia e sátira entre as sociedades americana versus britânica.
As outras histórias de mistério, comicidade e sagacidade aqui incluídas são: O Crime de Lorde Arthur Savile, A Esfinge sem Segredos, O Milionário Modelo e O Retrato do Sr. W.H.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

domingo, 12 de janeiro de 2014

«Um Marido Ideal», de Oscar Wilde

Editora: Europa-América
Ano de Publicação: 1999
N.º de Páginas: 232


A peça Um Marido Ideal foi levada à cena pela primeira vez em 1895, no Haymarket Theatre, em Westminster, Londres. Várias vezes encenada nos mais diversos palcos do mundo, esta peça do genial escritor Oscar Wilde, teve várias adaptações para o cinema, sendo a mais recente em 1999, pela direcção de Oliver Parker (que transpôs posteriormente outras duas obras de Wilde para filme, em 2002 e 2009, respectivamente: The Importance of Being Earnest e Dorian Gray) e contou com um elenco do qual constam nomes como o de Julianne Moore, que representa a vilã da peça. Figurando ao lado das peças Uma Mulher Sem Importância e A Importância de se Chamar Ernesto, Um Marido Ideal forma a trilogia que marca o ex-libris literário da carreira de dramaturgo de Wilde. Em An Ideal Husband (de seu título original) podemos nos esbarrar com os melhores e acutilantes paradoxos tão característicos da linguagem wildiana, dados a conhecer ao longo de uma acção distribuída por quatro actos, com a duração de vinte e quatro, e cujo desenrolar da história tem lugar em Londres, na última década do séc. XIX.
Um político íntegro e em ascenção no Parlamento, Sir Robert Chiltern, aos olhos da mulher e da sociedade londrina, jamais cometeu um deslize de qualquer ordem. Ele é o protótipo perfeito de um homem ideal. Essa máscara, no entanto, fica a ponto de desabar quando entra em cena Laura Cheveley, uma mulher ambiciosa e oportunista, que tem em seu poder a prova de um erro crasso cometido há dezoito anos pelo marido de Gertrude Chiltern. Nessa altura Robert era um jovem que auspiciava um lugar de topo na política, e deixou-se cair nos meandros da «mais baixa desonestidade», e assim, como o próprio revela: «comprei o sucesso por um preço muito alto.» A origem da fortuna de Robert é um segredo que só Laura tem conhecimento e é por isso que ela o chantageia, pedindo em troca do seu silêncio algo que põe, novamente, em jogo os escrúpulos de Robert. Mantido num pedestal, como objeto de adoração, pela mulher, Robert Chiltern não quer ver a sua reputação, enquanto político e esposo, cair por terra ao ser revelado um episódio obscuro do seu passado, e desabafa ao seu melhor amigo, Lord Arthur Goring, o seu segredo. Goring é um amigo fiel, mas também um mordaz crítico dos (bons) costumes, sendo as suas elações quase sempre politicamente incorrectas. É por isso que este levanta a moral do seu amigo e ajuda-o a sair dessa situação, até porque Laura Cheveley fora sua amante em tempos idos, e o bon vivant bem sabe com que tipo de índole contar. Sobre como se desenlaça esta peça, duas questões são pertinentes lançar: Será que teremos que ser totalmente julgados pelo nosso passado? Todos teremos de pagar por aquilo que fizemos?
Em Um Marido Ideal há um ataque à falsa moralidade e à hipocrisia social e política do final da era vitoriana. A riqueza desta obra resulta essencialmente do teor sem escrúpulos da personagem vilã que lança intriga e chantagem a vários personagens, criando uma trama invulgarmente inesperada. Um efeito cómico frequentemente empregado por Oscar Wilde é afirmar o contrário do que se espera, e muitos são os belos exemplos encontrados ao longo desta obra de edição bilíngue, traduzida para português por Carmo Vasconcelos Romão. No seu estilo subversivo, ora profundo, ora subtil, ora superficial, o autor de Salomé mostra-nos o seu invencível desejo de se revelar contra todos os sistemas de ideais, e dá exemplos de como a ambição, corrupção e perdão podem estar bem interligados. A vida é imperfeita, e talvez por este facto «nunca é justa (…) E talvez seja bom para alguns de nós que nunca o seja.»


Citações de alguns personagens:

Mrs. Marchmont: «Gosto de olhar para os génios e de ouvir pessoas belas.» (p. 28)

Lorde Goring: «As mulheres têm um instinto maravilhoso. Descobrem tudo, menos o óbvio.» (p. 49); «rouge a mais e roupa a menos. Numa mulher é sempre sinal de desespero.» (p. 58)

Mrs. Cheveley: «quando um homem ama uma mulher, fará tudo por ela, menos continuar a amá-la.» (p. 99)

Sir Robert Chiltern: «Os casamentos sem amor são horríveis. Mas há ainda uma coisa pior do que um casamento completamente sem amor. Um casamento onde há amor apenas de uma das partes.» (p. 128)


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

«Salomé», de Oscar Wilde

Ano de Publicação: 2000
N.º de Páginas: 112

Salomé, a peça mais trágica que o irlandês Oscar Wilde escreveu, — em francês, e de ‘assentada’, numa só noite (segundo testemunhos da época) —, foi publicada em 1893, e teve a sua estreia nos palcos do Théâtre de L’Oeuvre, em Paris, três anos depois, período em que Wilde esteve preso e que escreveu De Profundis.
A peça, de um acto, faz reminiscência ao Antigo Testamento (Evangelho segundo S. Marcos), e tem como personagem-título uma jovem princesa de beleza imensurável, uma verdadeira femme fatale, e intensa e pervertidamente apaixonada por Jokanaan, um profeta que tece profecias sombrias a Herodias, sua mãe, e a Herodes, seu padastro e tetrarca da Judeia.
O autor caracteriza Salomé com uma princesa caprichosa, na veste de um ego sobrelevado e não dotada de escrúpulos: as suas pulsões e fobias agem por si. A sua paixão é desmesurada e oculta uma vingança sangrenta, devido a um não-correspondido desejo de união. Como resultado uma cabeça será servida numa bandeja de prata, num terraço sob a negra luz que uma lua ofusca em sua direcção. Esta decapitação é uma recompensa por a princesa ter assentido dançar uma sensual dança para o seu padrasto. Nesta versão, composta de forma inédita alguns personagens desse episódio bíblico, o autor de O Fantasma de Canterville cria personagens que são desejadas umas pelas outras, que falam ao mesmo tempo, requerendo atenção dos seus objectos de amor, exercendo assim, Oscar Wilde, um forte fascínio sobre o leitor.
Num registo que vai e entrecruza goticismo, tragédia, loucura, promiscuidade e sensualidade, várias máscaras (eus dos personagens) vão sendo conhecidos ao mesmo tempo que Wilde aumenta a tensão dramática e a apoteose é descortinada, seca, cru e densa. Uma história plena de possíveis chaves interpretativas, tal o seu carácter simbólico. Salomé é uma obra magistral, digna do génio de Wilde, falecido em 1900.