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Editora: Sistema Solar
Data de Publicação: Jan. 2014N.º de Páginas: 544 |
Da bibliografia do escritor austríaco Thomas Bernhard (1931–1989) constam romances, peças de teatro e ensaios. Cinco dessas obras — A Causa (Die Ursache, 1975), A Cave (Der Keller, 1976), A Respiração (Der Atem, 1978), O Frio (Die Kälte, 1981) e Uma Criança (Ein Kind, 1982) — são de carácter autobiográfico e foram reunidas num único volume, Autobiografia. Com mais de quinhentas páginas, esta edição recentemente publicada pela Sistema Solar traça os primeiros vinte anos da vida de um dos mais importantes escritores de língua alemã da segunda metade do século XX.
As origens familiares e uma infância e adolescência marcadas pela adversidade moldaram profundamente o carácter e a visão do mundo de Bernhard. Em A Causa, dividido em duas partes — Grünkranz e Tio Franz —, o narrador recorda a vida num internato nazi em Salzburgo, em 1943. Os bombardeamentos, as aulas de violino e a disciplina opressiva convivem com uma revelação perturbadora: aos treze anos, pensava constantemente no suicídio. Mais tarde, a substituição do director nacional-socialista por um sacerdote católico pouco altera a lógica de submissão ideológica: «cantávamos cânticos religiosos quando antes tínhamos cantado canções nazis». É também neste volume que surge a figura central da sua juventude: o avô, companheiro de longos passeios e responsável por despertar nele a atenção à Natureza e à complexidade humana.
Em A Cave, Bernhard relata a experiência como aprendiz numa mercearia do bairro de Scherzhauserfeld, um dos mais pobres de Salzburgo. Aos dezasseis anos, em vez de prosseguir os estudos, escolhe esse ambiente marginal, que descreve como o seu único «refúgio». Se o avô lhe ensinara a observar as pessoas à distância, o comerciante Podlaha obrigava-o a confrontar-se directamente com elas. É também nesta fase que retoma a música, uma das suas paixões duradouras.
A Respiração acompanha a sua permanência no hospital de Salzburgo após o diagnóstico de pleurisia. Aos dezassete anos, enfrenta simultaneamente a doença e as mortes do avô, em 1949, e da mãe, em 1950. A perda do avô foi particularmente devastadora: após a sua morte, afirma ter iniciado uma segunda existência. Transferido para um sanatório destinado aos casos mais graves, descobre então a leitura como força salvadora: «Com a leitura venci eu também os abismos que aí se abriam a todo o momento».
Em O Frio, Bernhard descreve minuciosamente a vida no sanatório para tuberculosos, relatando com ironia episódios clínicos absurdos e o gradual «despertar para a vida» que o afasta da atração persistente pela morte.
Por fim, em Uma Criança, regressa aos primeiros anos da infância para refletir sobre a ausência da figura paterna e a relação difícil com a mãe, que frequentemente o rejeitava.
Autobiografia é um livro de não-ficção que se lê como um romance. Para quem desconhece a obra e a personalidade polémica de Thomas Bernhard, estas páginas constituem um confronto intenso com temas como a educação, a pátria, a política, a religião, a doença, a morte e o suicídio. Com uma escrita singular, simultaneamente irónica, provocadora, musical e brutal, Bernhard mantém o leitor permanentemente cativado. Os infortúnios que atravessou — guerra, doença, pobreza e luto — não apenas o marcaram profundamente, como alimentaram uma obra literária de rara força e originalidade. Merece ainda destaque a tradução rigorosa de José A. Palma Caetano.

1 comentário:
Não conhecia este autor. Muito interessante você escrever sobre a vida dele. Gostei.
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