sábado, 2 de julho de 2016

«A Metamorfose», de Franz Kafka

Editora: Alêtheia
Data de publicação: Março de 2016
N.º de páginas: 120

«Certa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.» Assim, de modo no mínimo peculiar, tem início a obra que Kafka escreveu em 1912 e dada à estampa três anos depois.
A Metamorfose é, talvez, a mais conhecida, estudada e citada de todas as suas obras. O escritor checo foi um homem que viveu em profunda misantropia. Este jovem tímido fora oprimido pelo pai, Hermonn Kafka, e incapaz de lidar com a própria fragilidade, encontrou na escrita uma escapatória para transpor a sua dor, de filho não compreendido e rejeitado (Kafka confessou em Carta ao Pai que na literatura se consegue libertar da pesada tutela paterna.) Os estudiosos crêem que muitos dos protagonistas dos livros de Kafka sejam seus alter-egos, e em A Metamorfose, tida como a sua mais célebre novela, muitos dos temas abordados (a solidão, o conflito familiar, a angústia existencial, a desesperação) coincidem com o percurso de vida do autor nesses 29 anos (idade que Kafka tinha quando escreveu a obra).
Quando Gregor Samsa acorda nessa manhã de sonhos conturbados vê-se na veste de um insecto horripilante e asqueroso, cheio de perninhas. O caixeiro-viajante acorda tarde para o trabalho, com o qual garantia o sustento da família — o pai, a mãe e a irmã (que se entregavam descaradamente à ociosidade) — desde há muito, e sente-se condicionalmente incapacitado de se locomover. Para somar à desgraça, ele sente dificuldade em se acostumar com sua nova estrutura de corpo. Após a sua condição de insecto ser descoberta pela família a verdadeira surpresa não parte desta, mas do próprio, por ver-se desprezado e rejeitado pelos pais, tendo apenas comiseração por parte de Grete, a sua irmã de dezassete anos. Ela será quem tratará de pôr e retirar a sua comida do chão do seu quarto, diariamente, mesmo insegura e com medo. Gregor ganha o hábito de rastejar em todas as direcções pelas paredes e pelo tecto do seu quarto e passa a analisar a rotina familiar com a atenção que antes, estando fora de casa a maior parte do tempo, não lhe era possível. Mesmo tendo amealhado dinheiro ao longo da vida, os pais voltam a trabalhar e a irmã também arranja uma forma de ganhar dinheiro; afinal Gregor, o sustento da família, não pode trabalhar mais. A família aluga um quarto da casa a três hóspedes e fazem de conta que o seu quotidiano em nada foi abalado. A falta de diálogo humano na família, esse, continua o mesmo, constata Gregor, ao mesmo tempo que uma ferida lhe vai infectando na carne, deixando-o moribundo. Mesmo afastado do mundo real, por ser ele uma aberração humana, é-lhe mais fácil observar esse outro mundo do qual fizera parte, e assim dá-se conta que alguns dos comportamentos e sentimentos mais baixos da condição humana estão em vigência no seu habitat. Assim, Gregor reflete que há piores metamorfoses além da que é física, aquela que nasce um dia e que corrói por dentro e que atinge os outros por meio de palavras e acções.
Die Verwandlung (título original) é sobretudo uma história de alerta à sociedade e aos comportamentos humanos. A escrita de Kafka é marcada por um estilo simples e directo para transmitir o que povoa no interior da estranha mas bem elaborada galeria de personagens que o autor criou e que são espelhos do mundo não-ficcional. Narrativa breve (de 120 páginas) e de saliente qualidade literária, A Metamorfose é um daqueles livros que provam que um bom livro não tem de ter muito texto. É um clássico instigante que vale a pena ler, guardar e passar testemunho a gerações vindouras.
Já passou mais de um século desde que Kafka escreveu esta obra, mas a mensagem desta continua actual. Afinal, o ser humano continua a apontar o dedo ao que e a quem se difere do padrão estereotipado pela sociedade.

1 comentário:

helena frontini disse...

Um clássico imperdível. Nunca esquecerei as emoções provocadas por esta obra.