domingo, 28 de agosto de 2016

«O Fio da Navalha», de Somerset Maugham

Editora: Asa
Data de publicação: Junho 2016
N.º de páginas: 332

Adaptado para o cinema em 1946 e 1984, O Fio da Navalha é, a par de Servidão Humana, um dos romances mais emblemáticos de Somerset Maugham (1874-1965). A 5.ª edição, nas Edições Asa, de The Razor's Edge (título original traduzido para língua portuguesa por Ana Maria Chaves), está à venda desde o transacto mês de Julho.
Esta obra datada de 1944, pode ser classificada como sendo um romance não-ficcionado, visto este livro ser um relato memorialistico que o autor faz, de uma determinada fase da sua vida. Somerset Maugham é o narrador e um dos personagens da história, mas o seu nome nunca é (por ele) referido ao longo das páginas.
Em nota introdutória, Somerset refere que este livro consiste nas lembranças que guarda de um homem com quem privou, «uma criatura notável», e que do conteúdo da obra ele não inventou nada, apenas atribuiu nomes fictícios.
Chicago, 1919. Elliott, é um marchant d’art, de sessenta e cinco anos, um homem dotado de grande cultura, um homem bom, mas fútil, que vive uma vida «fútil, inútil e trivial». Larry, de vinte anos, é o namorado misterioso da sua sobrinha Isabel, que após ter combatido dois anos na guerra, entrega-se ao ócio, recusando ir para a universidade e não procurando trabalho. A guerra provocou uma mudança neste jovem, pois ele não voltou a ser a mesma pessoa que era quando partiu: era alegre, tinha gosto de viver.
Larry, um ser estranho, solitário, indiferente e pouco comunicativo, por não seguir os padrões sociais, o estipulado pela sociedade de então, é olhado pelos amigos e familiares da namorada, principalmente por Elliott, de forma constrangedora. Ao decidir ir morar para Paris sozinho, «Não sei porquê, mas meti na cabeça que lá conseguiria esclarecer tudo o que está confuso na minha mente», em busca de um sentido para a sua vida, o seu namoro fica quase desfeito. Nos dois anos que passa na capital francesa, Larry, embora possuisse uma situação financeira estável, vive num quarto alugado minúsculo, sem condições, mas isso, a confortabilidade e a estabilidade que o dinheiro pode comprar, não lhe interessa. Enquanto a história vai sendo contada, este personagem vai sofrendo uma série de transformações de personalidade, sendo que a aquisição de conhecimentos que os livros lhe oferecem, é a primeira forma que ele encontra para moldar a sua personna.
Relatando a vida de Larry até meados da década 1930, o autor-narrador, que revelar possuir um grande poder de observação e uma memória exímia, nos faz refletir sobre vários aspectos importantes da vida. Ao narrar os percursos e fases de vida de pessoas com quem privou de perto, em O Fio da Navalha o autor consegue passar a mensagem de que não podemos controlar nem alterar o fio-condutor que, vagarosamente, dia-a-dia, nos vai guiando a existência.
Esta obra semi-autobiográfica revela todo o potencial literário de Somerset Maugham, um escritor dotado de uma rara, subtil e estimulante escrita.

Citações
«Os homens e as mulheres não são apenas eles próprios, são também o local onde nasceram, a casa (...) onde aprenderam a andar, as brincadeiras que fizeram na infância, as histórias que ouviram contar e recontar, a comida que comeram, as escolas que frequentaram, os desportos que praticaram, os poetas que leram e o Deus em que aprenderam a acreditar» (p. 9)

«É difícil não nos questionarmos sobre a essência da vida, sobre se faz algum sentido ou se tudo não passa do erro trágico dum destino cego.» (p. 55)

2 comentários:

Nuno Antunes disse...

adorava ler!

Sandra Drina Costa disse...

Um dos meus autores favoritos... A "Servidão Humana" é qualquer coisa de fabuloso!