domingo, 25 de setembro de 2016

«A Espia», de Paulo Coelho

Editora: Pergaminho
Data de publicação: 16/09/2016
N.º de páginas: 184

Margareth Zelle nasce em 1876 na Holanda. Em Paris, com 41 anos, é condenada à morte, por espionagem. É a trajectória de Mata Hari (o seu pseudónimo) que o escritor Paulo Coelho decidiu contar neste livro, uma espécie de biografia romanceada. A premissa de A Espia, baseada em factos reais, é o conteúdo de uma carta-testamento que a dançarina exótica escreveu na última semana do seu cárcere, enquanto esperava pela sua derradeira execução. O prólogo do livro leva-nos para o dia factídico de 15 de Outubro de 1917, e, sem dúvida, espicaça a nossa curiosidade em conhecer a vida desta mulher que diz que o seu maior crime foi ser «uma mulher emancipada e independente num mundo governado por homens.» (p. 24)
Nas duas primeiras partes do livro, é através de cartas escritas na primeira pessoa que o leitor vai se inteirando da índole de Mata Hari: uma mulher bela e ousada, ambiciosa e sem escrúpulos. Ficou conhecida mundialmente pelas suas danças exuberantes nos salões da elite parisiense, que deixou a capital francesa do início da década de 1910 em alvoriço, mas também por ter sido amante de homens poderosos como militares e políticos, que lhe renegaram ajuda quando foi condenada. «Quase todos os homens que conheci me deram alegrias, joias, um lugar na sociedade».
Esta que foi uma das primeiras feministas da História, que auspiciava dinheiro e poder, sempre foi invejada, embora nunca respeitada pelas mulheres e pelos média do seu tempo. «Sou uma mulher que nasceu na época errada e nada poderá corrigir isso.» (p. 26)
Ao objectivar sempre a liberdade que o dinheiro lhe podia oferecer, nunca teve tempo para amar, nem o oficial do exército holandês com quem casou, Rudolf MacLeod, nem os dois filhos.
Para esta femme fatale, a escrita foi uma forma de catarse, de se desprender dos demónios que possuiam os seus remorsos: «Pensava que se falasse a respeito das minhas feridas isso as tornaria mais reais e, no entanto, estava a acontecer exatamente o oposto: estava a ser cicatrizadas pelas minhas lágrimas.» (p. 85)
Na última parte deste breve retrato que Paulo Coelho faz de Mata Hari, o leitor conhece um outro ponto de vista do trajecto da dançarina, visto pelo ângulo de um dos seus inúmeros amantes, o advogado Edouard Clunet, que a defendeu «sem grande convicção».
Foi esta holandesa com traços indianos acusada justamente? Era uma espia cheia de segredos? Ou a morte foi o preço que teve de pagar porque decidiu ser quem sempre sonhou?
A Espia é um livro que lê-se com interesse, mas que não arrebata, não pela história verídica da figura retratada, que é cativante, mas por o autor ter optado apresentar a obra em forma de carta. Este meio, por vezes limita a apresentação de detalhes da vida familiar e profissional de Mata Hari: o leitor fica desconhecendo que tipo de relacção ela mantinha com os filhos, com os amigos, e de que forma a dança apareceu na sua vida e se realmente a dança era importante para ela ou apenas mais um detalhe para obter dinheiro.
A vida da biografada podia ter sido mais esmiuçada, mas para isso o livro teria de contar com mais páginas. Não posso dizer que com a leitura findada eu fiquei a conhecer a vida completa da protagonista, até porque depois, para ajudar a compor esta resenha eu li muita matéria sobre Mata Hari que neste livro ficou de fora.
Como é apanágio de Coelho, também neste livro ele insere frases que fazem reflectir; é uma forma de adornar as suas obras, o que agrada aos seus leitores (abaixo transcrevo algumas).
A Espia é um livro que vem se juntar aos muitos que já foram publicados sobre esta figura ímpar e controversa da História, que inspirou várias histórias para o cinema (o primeiro filme data de 1922; vestiram também o papel de Mata Hari as actrizes Greta Garbo (em 1931), Marlene Dietrich (em 1931) e Sylvia Kristel (em 1985)). De referir que em 2014 iniciaram em Lisboa as filmagens de uma minissérie russo-portuguesa sobre a vida de Mata Hari, produzida pela Star Media, da Rússia, e Filmes do Tejo, de Portugal. Está previsto que a série de doze episódios, que contará com interpretações de actores portugueses, entre os quais Nuno Lopes, Margarida Marinho e Rogério Samora, seja distribuida a nível internacional em breve.

Citações
«Sou uma mulher que nasceu na época errada e nada poderá corrigir isso. Não sei se o futuro se lembrará de mim, mas, caso isso acorra, que nunca me vejam como uma vítima, e sim como alguém que deu passos com coragem e pagou sem medo o preço que precisava de pagar.» (p. 26)

«As flores ensinam-nos que nada é permanente; nem a beleza, nem o facto de murcharem, porque darão origem a novas sementes. Lembra-te disso quando sentires alegria, dor ou tristeza. Tudo passa, envelhece, morre e renasce.» (p. 29)

«A dança é um poema e cada movimento representa uma palavra.» (p.41)

«Só o amor pode dar sentido àquilo que não tem nenhum.» (p. 43)

«Toda a gente flirta com o perigo, desde que o perigo não exista.» (p. 64)