sábado, 17 de maio de 2014

«Tia Guida», de André Fernandes

Editora: Chiado
Data 5.ª edição: Abril 2014
N.º de Páginas: 186

Sobre cancro. É sobre esta doença que André Fernandes (n. 1991) fala neste livro. Tia Guida é um testemunho narrado na primeira pessoa sobre o último ano de vida de Margarida, a tia que ajudara a criar André, filho de pais separados. No Verão de 2011 fora diagnosticado à cinquentenária um tumor já em estado avançado. O marido da tia e André foram os primeiros a saber da notícia tão devastadora. Os médicos prorrogaram-lhe três meses de existência, apenas. A dor de perder alguém que marcou positivamente o seu crescimento e adolescência inteiras antecipou-se na hora que soube do malogrado veredicto: «Achamos, de certa forma, que quem amamos nos pertence.»
A tia Guida lidou com a grave doença à sua maneira, encarou-a de frente e vestiu os seus pensamentos de cores alegres; para ela o cancro que lhe devastava o organismo, alma e o corpo, iria se desvanecer aos poucos, com a ajuda da quimioterapia; tal como se lhe invadira, o carcinoma, sem pedir autorização, ele iria sair também. Por isso a tia de André dispensou aconselhamento psicológico e medicamentos ansiolíticos, para enfrentar a doença. Já o autor, na altura com vinte anos, conta que para superar e dar ânimo à sua querida tia, lhe valeu muitos as suas ideias e crenças mais espirituais, mais adeptas do mundo Oriental. De certa forma, a doença da tia também lhe tocara: «Mas não será o cancro uma doença tanto para aqueles que o têm como para aqueles que os vêem sofrer com ela?», diz-nos o autor no início do livro. Os efeitos da quimioterapia, seu impacto físico e psicológico, não só atingiu a tia como todos em seu redor, amigos, familiares. André conta no livro que durante todo este período doloroso, foi partilhando as suas emoções nas redes sociais e que fora a partir daí que lhe surgira o impulso de escrever este livro. Ele contou também com o apoio de amigos — «As grandes amizades fazem a diferença nas grandes crises.» (p. 115) —, mas, por estranho que pareça ao lermos o seu relato, ele revela que a sua namorada lhe abandonara, logo nessa altura, «num dos piores momentos da minha vida», confessa. «A vida tem, dentro da sua aparente falta de organização, uma ordem meticulosa e tantas vezes irónica e difícil de perceber.» — Esta é apenas uma das inspiradoras reflexões que André Fernandes partilha neste livro. Aliais, o autor revela uma maturidade pouco reconhecida em jovens da sua idade. O crescimento pessoal e espiritual resultado desta luta, sim, que também ele travara, é notório ao longo de todo o relato, que divide-se em mais de trinta capítulos breves. Um dos capítulos intitula-se ‘Porquê? vs Para quê?’, e é um dos textos que confirmam maturidade, sensibilidade e inteligência emocional no jovem escritor.
Se há testemunho que valha a pena ser partilhado em livro, este é, definitivamente, um deles. Tia Guida (que vai já na 5.ª edição) revela o dom nato de André Fernandes para comunicar. Está bem escrito, sem falhas linguísticas e técnicas, e dentro do género literário que se insere, é uma obra bem conseguida e de leitura compulsiva, que por vezes, para os leitores mais sensíveis, torna-se em leitura dolorosa. É sobretudo um livro despretensioso a nível literário, todavia, tem o potencial de chegar a um público extenso: não só aos leitores que vivenciaram de perto com o cancro, mas aos leitores que poderão colher conselhos importantes de quem lidou de perto com a doença oncológica. Só há a salientar que o desfecho do relato poderia ter sido mais esclarecedor, mas compreende-se que nem todos os detalhes do que aconteceu tenha de ser partilhado.
«Há gente que fica na história da História da gente» e há livros que falam sobre essas pessoas.


Excerto:
«Quando o amor que nos liga a alguém é assim tão genuíno, perante a chance de não mais vermos a materialização física da pessoa que amamos à nossa frente, sofremos num vazio difícil de descrever (…)» (p. 33)

9 comentários:

Maria Cunha disse...

Adorava ler este livro, parece ser uma história linda!

Severino Moreira disse...

Um excelente testemunho sobre um flagelo que atinge muitos de nós!
A não perder!

Counting Stars disse...

Adorava ler este livro,tenho uma grande curiosidade..

Sara Mondim disse...

identifico-me com o André, porque tive uma tia que passou pelo cancro e, infelizmente, também faleceu. é o próximo livro que pretendo comprar!

Angelina Violante disse...

Parece ser uma história muito forte, gostaria de ler.
Há certas coisas na vida que só quem passa por elas sabe aquilo que custa.
Sou muito sensível a história deste género.

Daniela Alves disse...

Testemunho certamente tocante sobre aquela a que chamo "a maldita doença do século"...

WuantFã Numero1 disse...

Pelo que me apraz saber, o auto é pessoa de valores e exemplo. Inteligente, sensato e, HUMANO.
Muito bom orador. Um exemplo de "luta".

Chrisinconcert disse...

preciosíssimo!!!!!!!belíssimo!!!!!bravo, bravo!!!!!!
Andre, por onde andas, me mande um email, christinip@hotmail.com

Chrisinconcert disse...

andre, bravissimo livro