sábado, 26 de maio de 2012

A Mulher-Casa, de Tânia Ganho

Editora: Porto Editora
Ano de Publicação: 2012
Nº de Páginas: 376
Em A Lucidez do Amor (Porto Editora, 2009) Tânia Ganho apresentou-nos a história de Michael e Paula, um casal separado por uma guerra. Neste seu mais recente trabalho literário A Mulher-Casa, a escritora e tradutora - que escreve «apenas aquilo que lhe apetece, quando lhe apetece» - dá-nos a conhecer outro par, Mara e Thomas. Eles mudam-se duma pacata comuna francesa para a sumptuosa Paris. Ela é modista de chapéus e ambiciona cambiar o seu leque de clientela, agora que chega à capital, cidade de onde emergiu o conceito da haute couture. O marido é o escritor oficial de discursos do Ministro, e Mara acredita que o estatuto profissional de Thomas seja o passaporte directo para a ascensão da sua carreira.
A priori, a sua nova casa enche-a de prazer. A imagem de um vulto imponente, cartaz da cidade, é vislumbrado por Mara através dos vãos das águas-furtadas, de dia, de noite, e esses momentos apenas são corrompidos quando ouve o choro de um bebé de um ano. Por vezes, nos momentos de retracção emocional, Mara esquece-se de que também é mãe. Desde o nascimento de Raphaël, o seu quotidiano rege-se em prol de assuntos relacionados com o bem-estar do filho: idas ao pediatra, contratação de baby-sitters, conversas de mães-galinha e, para ela esse novo mundo é-lhe constrangedor e sufocante. Mara vê o seu pundonor desfalecer-se a cada dia e, para mais, o marido está constantemente ausente de casa, do país e sobretudo, dela. Thomas num curto espaço de tempo torna-se num servo isento de horários e homem-máquina indispensável ao Ministro, homem-omnipotente.
Aproveitando o tempo livre que sobra-lhe, quando o filho dorme ou está na creche, Mara enche a sua imaginação e confecciona chapéus. Todavia, o seu entusiamo por criar é, cada vez mais escasso. Na nova vida desta mulher falta-lhe faísca, tempero, adrenalina. Com o marido em viagens constantes, sobra-lhe ninguém para a acompanhar às exposições de arte, aos museus parisienses, aos jardins e monumentos que fragmentam História de Arte. Esse é o outro mundo de Mara, o de mulher que emociona-se ao ler um bom livro ou degustando uma bela obra de arte.
Matthéo é o cozinheiro da Residência onde o Ministro vive, e é numa festa a que Thomas e Mara são convidados que, ela vislumbra o jovem chef - e qual arritmia, o seu coração palpita celeremente, bombeando o seu cérebro com imagens promíscuas, vis. Mara perde o autodomínio e transgredindo os seus votos de fidelidade, pula a cerca o mais possível, pois o seu desejo enseja ser saciado. De súbito, a sua vida íntima toma uma concupiscência nunca-vista, ora sacia-se com o amante, ora com o marido, ora sozinha. Se Mara fosse uma pintora, o medo, a raiva e a frustração seriam as tintas e estas atiradas ferozmente para uma tela em branco, virgem. Louise Bourgeois seria a sua artista de culto.
Depois de momentos de euforia, a consciência desta personagem pondera a sua vida. Dois homens antípodas em intelectualidade e em maturidade; um filho; um só destino. Uma escolha é peremptória e um duelo de “afinidades” sobrevoa o seu pensamento: «afinidade de carne» versus «afinidade intelectual». Mara decide-se.
Num passeio à cidade de Versallhes, com o filho e de mãos coladas às do homem por quem se decidiu, Mara depara-se com uma grandiosa obra - de uma artista portuguesa – em exibição. Será coincidência a forma e significado que essa “peça” transmite-lhe? Será que Mara ao vislumbrar essa “metáfora-física”, espelho da sua vida, a associará a um dos contos mais populares da humanidade (escrito por um francês)? Um dia as «muletas» deixam-lhe de servir, e coligir momentos felizes quiçá, com mais frequência.
Copy, paste: «Mandei gravar os nossos nomes num cadeado e prendi-o ao parapeito da Pont des Arts. Lancei a chave ao rio (…). No fundo do Sena, enferrujam os milhares de chaves que os amantes do mundo inteiro arremessam para o interior das suas águas.»

Este livro cativa o leitor em vários sentidos. O romance é parco em personagens, dando-nos o privilégio de familiarizarmos com a personagem central; os espaços, monumentos, museus, ruas parisienses descritas neste A Mulher-Casa são reais, com o acrescento de a autora guiar o leitor historicamente por esses lugares (revelando uma escritora conhecedora de Paris); A Torre Eiffel surge neste romance como uma personagem secundária, sem fala, mas falando.
Estruturalmente, o modo como os capítulos estão dispostos, sintácticos e concisos, dão alento à leitura, tornando-a célere, sem parcimónia. A escrita é rica e elegante - mesmo quando é incisiva sexualmente -, os vocábulos francófonos e anglófilos que constam ao longo do livro, são bem empregues, não sendo evasivos nem em excesso.
Depois de lidas as quase 400 páginas de A Mulher-Casa, de Tânia Ganho só posso formar elogios adjectivados e em catadupa. Talentosa. Letrada. Ímpar. Sensível. Atenta.

3 comentários:

helena frontini disse...

Apresenta-se bem.

Sónia Santos disse...

um livro a ler sem duvida

kassie disse...

Gostei mais ou menos... o livro está muito bem escrito mas não simpatizei particularmente com a personagem... achei-a, bem como a várias questões abordadas no livro, um pouco banal.
De qualquer forma, fiquei cativada pela escrita de Tânia Ganho e vou querer ler outros livros dela. Este foi o único que li...