domingo, 26 de julho de 2020

«O Quarto de Giovanni», de James Baldwin

Editora: Alfaguara
Data de publicação: 30-06-2020
N.º de páginas: 192
«A noite cai e eu estou à janela desta bela casa no sul de França, a noite que me conduz à mais terrível manhã da minha vida.» Este é o incipit do segundo romance, datado de 1956, de James Baldwin (1924-1987), uma obra com traços autobiográficos. O Quarto de Giovanni é considerado um clássico moderno da literatura gay e um dos livros mais emblemáticos deste escritor e activista negro norte-americano, cuja obra era totalmente desconhecida no nosso país até 2018, ano em que a Alfaguara publicou Se Esta Rua Falasse, o seu primeiro livro em língua portuguesa (e no passado Se o Disseres na Montanha).
David é o narrador desta história, ambientada na fervilhante e boémia Paris dos anos 1950. Este americano de quase 30 anos, não mudou-se para a França para encontrar melhores oportunidades financeiras. Ele deixou o seu pai e o seu país, e rumou a um destino onde calculou que seria mais fácil encontrar um sentido para a sua vida. Chegado a uma cidade totalmente diferente da que o viu nascer e tornar-se homem, David depara-se com um microcosmo onde a bebida, o sexo e o dinheiro são elos indissociáveis.
Enquanto vai descobrindo novas facetas da sua identidade, a cada dia que passa, David conhece Hella, e com ela inicia um relacionamento. Tempos depois, enquanto a namorada embarca para outro país durante alguns meses, o narrador, que por vontade própria nunca arranjou emprego - pois sustentava-se à custa do dinheiro que o pai mandava - conhece Giovanni, um charmoso barman italiano, por quem se apaixona de forma inesperada. Sem mais dinheiro para continuar a pagar o minúsculo quarto onde tem vindo a morar, o seu amante convida-o a morar com ele.
No quarto de Giovanni ambos entregam-se desgarradamente aos seus desejos. David consegue finalmente olhar para si e… ver-se, mas fica na defensiva e luta para não aceitar a sua identidade: «Nada é mais insuportável, assim que se obtém, do que a liberdade.» Existe nele um auto-preconceito, uma homofobia interna, que lhe é difícil demolir. Através dos seus diálogos, dá-nos a parecer que ele é até racista (o rapaz com quem teve a sua primeira relação homossexual era negro, e essa sua cor de pele é por David associada como sendo a de um lugar obscuro onde se perderia facilmente – Joey é o único personagem negro nesta história). David reconhece que para o italiano, ele não é apenas uma aventura, um affair, mesmo sabendo que ele é comprometido. Quando Hella regressa a Paris, ele é forçado a tomar uma decisão. Seja qual for a escolha do narrador, sabe o leitor, desde as primeiras páginas, que esta história irá acabar em desgraça.
A vergonha, a lascívia e a negação do amor numa sociedade repleta de preconceitos são os assuntos centrais de O Quarto de Giovanni, um romance extremamente triste e emocionante, que é narrado entre o presente (noite anterior à tragédia) e o passado. James Baldwin, um escritor avant-garde, abordou sem tabus questões delicadas e prementes até nos dias correntes, mais de sessenta anos volvidos da publicação do livro, que foi aconselhado ser destruído pelo seu editor na época, para não causar celeuma e manchar a sua ascensão enquanto escritor.
Inspirado na juventude do autor, O Quarto de Giovanni foi considerado pela BBC «um dos 100 romances que moldaram o nosso mundo».

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