Algo distingue a presente antologia da obra de Fernando Pessoa de outras
organizadas anteriormente: esta é a primeira antologia poética e musical - em
formato BOOK CD - que homenageia um dos nomes maiores da poesia portuguesa e
universal.
Alguns poemas de Pessoa e dos seus três mensageiros mais conhecidos
(A. Caeiro, A. Campos e R. Reis), ora são declamados, ora cantados por artistas
que falam e cantam em língua portuguesa.
A selecta de qualquer obra extensa é sempre um desafio exigente para quem a
antologia, além de que a composição final da obra em estudo é sempre diferente,
consoante o responsável que a antologiza.
Neste projecto, Os Mensageiros, a introdução e antologia é
da responsabilidade do jornalista e escritor Luís Filipe Sarmento. Na
introdução intitulada Ser tudo de todas
as maneiras é abordado o mundo pessoano, no seu todo enquanto pessoa,
minuciosamente focado a vertente pagã - que o próprio evocava nos seus poemas
(principalmente com a assinatura de Álvaro de Campos). O realce do tema do
paganismo serve também para metaforizar todo o conjunto de “eus” (conhece-se
setenta e dois) do poeta.
É humilde e
sensato por parte do autor deste projecto apresentar esta obra como: Edição especial Livro com oferta de CD.
Todavia, o ponto forte desta edição é o CD com música original. Portanto,
leia-se: Edição especial CD com oferta de
Livro, passo o menosprezo pela obra de Fernando Pessoa, mas a novidade
neste projecto ambicioso é inequivocamente as músicas de artistas portugueses e
brasileiros, como Dulce Pontes e Oswaldo Montenegro. O
alinhamento do álbum é o seguinte:
1.
Para ser grande, sê inteiro
As primeiras palavras escolhidas para dar início à viagem de poemas
musicados e declamados coube a Ricardo Reis. A voz que declama
«(…) Põe quanto és no mínimo que fazes (…)» é de Ruy de Carvalho.
2.
Às vezes em sonho triste
Não é a primeira vez que Dulce Pontes canta um poema de Pessoa. O Infante (1 dos 44 poemas que compõem o
livro Mensagem, 1934) foi
interpretado pela voz lusitana, cuja canção está inserida no seu álbum Caminhos. Nos primeiros acordes de Às vezes em sonho triste ouve-se
a guitarra portuguesa em todo o seu esplendor, para logo depois deixarmo-nos
sonhar, de olhos entreabertos, enquanto a voz de Dulce Pontes nos transporta para
os tempos de ilusão de viver.
Esta é a
canção mais surpreendente do disco, independentemente de ser o tema da cantora
mais conhecida do naipe de músicos que participam no projecto.
3.
Estendo os braços para ti
Uma boa descoberta musical para mim foi conhecer a voz de
Ana Laíns, uma cantora que tem já dez anos de carreira. A sonoridade deste tema
varia entre o fado, mas um fado com nuances actuais. A voz da cantora é suave e
doce, perfazendo uma canção agradável ao ouvido.
4. A
tua voz fala amorosa
«A tua voz fala amorosa… / Tão meiga que me esquece / Que
é falsa a sua branda prosa. / Meu coração desentristece.» A voz que canta
enternecedoramente esta primeira estância (e as restantes - obviamente) do poema é de Débora Rodrigues. A
acompanha-la, ouvimos umas notas leves de um piano. Quem o toca é Tiago
Machado. É um tema que dá muito prazer ouvi-lo.
5. Ó
Maria dos Prazeres
Fernanda Porto é uma das artistas brasileiras mais
talentosas e é com a sua voz com pronúncia alegre, alienada ao tom pesaroso
deste poema, que a tristeza e pensamentos infinitos surgem, quando a ouvimos,
uma vez, e outra, e outra…
6.
Eros e Psique
Este poema é dos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Já ouvi-o ser
declamado por vários actores, inclusive brasileiros – basta fazer uma pesquisa
no Youtube, para encontrar. Esta pertence a Ruy de Carvalho. Quando um
texto é bem escrito, em qualquer voz brilha.
7. O
amor, quando se revela
Ângela Maria, cantora de jazz, estreia a sua primeira
música em estúdio com este tema. Tenho uma palavra para descrever o que sinto ao
ouvir esta música: nostalgia.
8.
Lisbon revisited (1923)
Em clima de loucura excessiva e de negação, é-nos
apresentado o heterónimo Álvaro de Campos. É o melhor poema declamado, dos
cinco presentes no álbum. É um dos meus poemas de eleição, todavia nunca o
tinha lido em voz alta. O actor Joaquim de Almeida declama-o com os sentimentos
como a raiva, o desprezo, a mágoa, a revolta e a nostalgia. Esta faixa do álbum
não nos maça, podem ter a certeza.
9.
Cansa sentir quando se pensa
Segundo tema de Débora Rodrigues e a sua voz ouve-se
suave, tal como na faixa nº 4, embora o resultado musical não seja tão
brilhante.
10.
Segue o teu destino
O médico Ricardo Reis “empresta” as suas palavras à
cantora Ângela Maria. Seguir o destino e renunciar as sombras do dia-a-dia, é a
mensagem central deste poema. O tom melodioso é constante e a voz acompanha o
andamento quase em declamação. Canção ligeira, sem altos, nem baixos, mas bela
de se ouvir.
11.
O Quinto Império
Este é o segundo poema musicado e declamado na voz de Joaquim
de Almeida. Para ouvir e pensar. «Triste de quem é feliz!»
12.
Não sei quantas almas tenho
Já em recta-final ouvimos novamente Ana Laíns. A solidão
e a melancolia estão juntas e formam o padrão com que a música percorre do seu
ponto inicial ao término. Algumas pausas poderiam tornar o tema mais disperso e
beneficiá-lo. O texto cantado em catadupa não favorece à boa compreensão do
poema.
13.
Iniciação
Oswaldo Montenegro é o segundo convidado brasileiro a
“doar” a sua voz a este projecto musical. O som da flauta e do violão está bem
vincado neste tema, não resultando em fífia, mas em eufonia. Prova-se que
Fernando Pessoa pode ser bem declamado e cantado tanto por portugueses, como
por brasileiros.
14.
Antologia
Uma criança, um jovem, pode declamar poemas do grande poeta? Vários
excertos de poemas pessoanos na voz de Lia Lobato Lopes provam isso mesmo.