domingo, 26 de julho de 2026

Colecção de Literatura de Viagens da Tinta da China ganha novo formato

Patrick Leigh Fermor (1915-2011) consagrou-se como um dos mais importantes autores de literatura de viagens do século XX, graças a um estilo erudito, elegante e profundamente imersivo. São exemplos as obras Tempo de Silêncio (2018) e Tempo de Dádivas (2020). A estes, junta-se agora, um novo livro de viagens, o primeiro volume do novo formato da icónica Colecção de Literatura de Viagens da editora Tinta da China. Entre os Bosques e a Água (traduzido por Alda Rodrigues a partir de Between the Woods and the Water) foi originalmente publicado em 1986 e acompanha a segunda etapa da viagem a pé que Patrick Leigh Fermor realizou pela Europa. O autor combina relato de viagem, história e reflexão, criando um retrato evocativo de um mundo em transformação.

A partir de 6 de Agosto, chegam também às livrarias novas reimpressões de títulos da mesma colecção - coordenada por Carlos Vaz Marques - lançados em 2009, 2011, 2012, 2013 e 2022, respectivamente. São eles Disse-me um AdivinhoCaminhar no GeloHistórias de LondresUm Gentleman na Ásia e O Africano da Gronelândia.


Em 1933, com 18 anos, Patrick Leigh Fermor decidiu atravessar a Europa a pé, rumo a Constantinopla. Uma viagem que só terminou em 1935 e que nunca poderia caber num só livro.

Aqui encontramos o viajante no ponto onde tinha sido interrompido em Tempo de Dádivas, o primeiro volume — uma ponte sobre o Danúbio. De novo com os leitores, desce o rio até Budapeste, atravessa a cavalo a Grande Planície Húngara, transpõe a fronteira da Roménia para visitar a Transilvânia, descobre a beleza selvagem dos Cárpatos a caminho das Portas de Ferro e dos Balcãs, onde este segundo volume termina. 
Pelo caminho, vê castelos e lobos, convive com condes e ciganos, confronta-se com línguas, facções religiosas e uma Europa em transformação, e constrói a obra-prima de uma vida. 

Excerto
«Na década de 1930, na Europa Central, abundavam animais selvagens, ursos, raposas e gatos‑bravos, poupas e papa‑figos, e ele adorava tê‑los por perto. Quando um rebanho de ovelhas passa por ele de noite, ouve um "ondular líquido" vindo de "centenas de cascos fendidos [que] trotavam". Quando vê um veado à sua frente, os dois ficam ali, paralisados por um momento, até o animal arremeter "de cabeça por um ecrã de ramos dentro, como um cavalo a saltar através de um arco".»



«Durante vinte e três dias, Somerset Maugham percorre em condições precárias o território birmanês, nesse tempo sob colonização britânica. Dirige-se para Banguecoque, a capital do Reino do Sião, actual Tailândia, onde passa algumas semanas. Conclui a deambulação na Indochina francesa. Maugham confessa, nestas páginas, que era um mau viajante. Tinha dificuldade em surpreender-se com aquilo que se lhe deparava ao longo da viagem. Habituava-se com demasiada rapidez ao que ia encontrando pelo caminho. Interessava-lhe acima de tudo ‘andar de um lado para o outro’ e escapar de si próprio: ‘Nunca regresso de uma viagem com o mesmo eu que levei comigo.’ É esse carácter subjectivo, intrinsecamente pessoal, que torna Um Gentleman na Ásia um relato de viagens admirável. Maugham não quer descobrir nem dar a conhecer, quer contar histórias. e quando não as encontra pelo caminho, inventa-as.» Carlos Vaz Marques, prefácio 

Excerto
«Depois de me instalar no barco que subiria o rio Irauádi até Pagan, tirei o livrinho verde do meu saco para ler na viagem. O barco ia cheio de habitantes nativos, que espalhavam camas por todo o lado e faziam a viagem rodeados de mil e uma mali‑nhas, e comiam e coscuvilhavam o dia inteiro. Entre eles havia alguns monges de hábito amarelo e cabeça rapada que fuma‑vam charutos finos em silêncio. De vez em quando, passava‑se por uma jangada de troncos de teca, com uma casinha de colmo, que descia o rio em direcção a Rangum, e entrevia‑se por breves momentos a família que lá vivia, atarefada com os preparativos de uma refeição ou então a comer confortavelmente. Pareciam levar uma vida tranquila, com longas horas de descanso e bastante tempo de lazer para exercitar uma curiosidade ociosa.»





«Disse-me um Adivinho foi o livro com que Tiziano Terzani se reinventou. Depois de décadas a cobrir inúmeras guerras, tragédias e desgraças a Oriente, o escritor tomou o lugar do repórter. Terzani, voluntariamente impedido de viajar de avião durante um ano, restitui-nos um mundo infinitamente mais complexo do que o de uma modernidade em que nos deslocamos a grande velocidade, pensamos com enorme rapidez e morremos velozmente. Durante um ano percorreu o Extremo Oriente por terra, lentamente, em busca de um tempo perdido, numa viagem de sentido duplo: aquele que correspondia ao trajecto geográfico, ligando os pontos de um mapa, e o que o fez levar a cabo um percurso íntimo e de autodescoberta. Numa viagem assim, quem chega nunca é quem partiu.» Carlos Vaz Marques, prefácio 

Excerto
«Assim que decidimos passar sem os aviões, apercebemo‑nos logo de como eles nos impõem a sua limitada percepção da existência; e de como, sendo um cómodo meio para encurtar distâncias, acabam por encurtar tudo, até a compreensão do mundo. Sai‑se de Roma ao pôr‑do‑sol, janta‑se, dorme‑se um bocado e, ao alvorecer, já estamos na Índia. Mas um país é também toda a diversidade que lhe é intrínseca, e uma pessoa deve ter tempo para se preparar para o encontro, deve fazer um certo esforço para depois saborear a conquista. Hoje em dia tornou‑se tudo tão fácil que já nada nos dá prazer. Compreender qualquer coisa constitui uma satisfação, mas só se isso estiver associado a um esforço.»

Do mesmo autor: O Fim é o meu Início.

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