[Na actualidade] Dois franceses são assassinados em França por não terem revelado a localização de um DVD, que contém indícios e provas ocultas sobre os principais responsáveis pela situação económico-financeira actual. Num Portugal que atravessa a maior crise de que há memória – só comparada com a Grande Depressão de 1929 –, com uma taxa de desemprego com tendência a escalar nos gráficos e uma dívida pública dantesca – no encalço de países como a Islândia, Grécia e Espanha –, sucedem-se duras medidas de corte na despesa e aumento da receita do Estado que tem como efeito colateral a diminuição do poder de compra. Mas não só. Tomás Noronha, o protagonista desta trama, é também afectado pela crise. Quando trata da papelada para usufruir do subsídio de desemprego o historiador português revê um amigo de infância que anda sendo perseguido por uma organização satânica que fará de tudo para que o DVD seja destruído. Filipe Madureira antes de ter o mesmo fim que os franceses, deixa a Tomás um envelope com o resultado da investigação que levou a cabo a mando da chefe-adjunta do Tribunal Penal Internacional, para detectar a fonte de fugas de informação, na política europeia. Mas, há um pormenor que o historiador não contava encontrar: a informação da localização do DVD «bombástico» apenas pode ser revelada após ele decifrar um criptograma enigmático, deixado pelo amigo.
De Espanha a Florença, contando com a colaboração de uma agente da Interpol espanhola, Tomás ver-se-á confrontado com a falta de inércia da polícia internacional, alvo de prevaricação por parte de políticos de topo. Não obstante, o recém-desempregado não se deixa enganar com as rasteiras informáticas que a seita vai preparando, e é instaurado testemunha num processo judicial que decorre em Uffizi, Florença, cidade onde se encontra os sepulcros de Leonardo da Vinci e de Dante Alighieri. Este último conhecido também como Il Diavolo. (abro parêntesis para salientar um pormenor deveras curioso. Em Fevereiro deste ano foi conhecido o título e sinopse do futuro romance de Dan Brown, que sairá em Maio, nos EUA: Inferno, com acção a decorrer em Itália, baseado no clássico da literatura, O Inferno, de Dante Alighieri. Isto para realçar que José Rodrigues dos Santos (JRS) publicou A Mão do Diabo em Outubro de 2012. Verdade, todos sabem, é que algumas pessoas que escrevem para jornais criticam JRS pela copiosidade estilística com Dan Brown. Também não estou afirmando que o autor de Anjos e Demónios copia o autor de O Codex 632. Apenas saliento que coincidências, elas existem.)
Um dos momentos mais decisivos da história passa-se, precisamente, no folhear das últimas páginas deste romance, o 10º do autor que mais vende em Portugal, distinguido, pelo segundo ano consecutivo, com a marca Escritor de Confiança das Selecções do Reader’s Digest.
O que dizer deste romance? Que é um romance semi-ficcional. Que nele, o conteúdo sobre a crise é claro, rigoroso e esclarecedor («Toda a informação histórica, financeira e económica incluída neste romance é verdadeira.» - da nota inicial do autor). A Mão do Diabo é um livro indispensável ao leitor mais leigo (e até ao mais sapiente) em matéria de crise, sobre a sua origem e consequências, e que descodificará alguns dos responsáveis pelos tempos conturbados em que vivemos. Que excertos da obra como os seguintes, não carecem de comentários:
«A moeda única, tal como está a ser concebida, não se vai aguentar. À primeira crise poderá desmoronar-se como um baralho de cartas (…) os países da moeda única irão saltitar de crise em crise (…)» (p. 527)
«Manipularam os relatórios para que apresentassem uma imagem cor-de-rosa da viabilidade e do futuro do euro.» (p. 529)
«A responsabilidade pela crise não se limita aos governos dos últimos anos (…) é preciso processar também muitos antigos governantes por crimes contra a humanidade.» (p. 560)
Com simplicidade, JRS analisa a crise. Com simplicidade, o leitor fica esclarecido, efeito esse que nenhum programa de televisão ou jornal executa com sucesso. Submarinos, TGV, PPP, obras de autoestradas, estádios, hospitais (bens não-transicionáveis), são abordados directamente neste livro com o rigor, talvez, que só um grande comunicador possui.
Uma das desvantagens desta leitura, por ser rotulado de romance, relaciona-se com muita informação sobre a crise, e um início (ida à Grécia) e término (profuso) de romance com pontas soltas, desnecessárias.
Em nota final JRS afirma ter consultado para a génese de A Mão do Diabo «opiniões de economistas eminentes. Nada é minha opinião, tudo o que está escrito resulta do diagnóstico feito por profissionais. O livro inclui por isso informação económica e financeira genuína.» (p. 585)
Nesta nota final JRS assenta ter consultado várias obras como O Fim da Ilusão, de Medina Carreira (antigo ministro das Finanças; aliais, um dos apresentadores do livro no lançamento em Outubro), Olhos nos Olhos, de Medina Carreira e Judite Sousa.
A Mão do Diabo encontra-se já na sua 13ª edição com 126.000 exemplares vendidos, dados revelados hoje pela Gradiva.