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Data 5.ª edição: Abril 2014
N.º de Páginas: 186 |
Sobre cancro. É sobre esta doença que André Fernandes (n. 1991) fala neste livro. Tia Guida é um testemunho narrado na primeira pessoa sobre o último ano de vida de Margarida, a tia que ajudara a criar André, filho de pais separados. No Verão de 2011 fora diagnosticado à cinquentenária um tumor já em estado avançado. O marido da tia e André foram os primeiros a saber da notícia tão devastadora. Os médicos prorrogaram-lhe três meses de existência, apenas. A dor de perder alguém que marcou positivamente o seu crescimento e adolescência inteiras antecipou-se na hora que soube do malogrado veredicto: «Achamos, de certa forma, que quem amamos nos pertence.»
A tia Guida lidou com a grave doença à sua maneira, encarou-a de frente e vestiu os seus pensamentos de cores alegres; para ela o cancro que lhe devastava o organismo, alma e o corpo, iria se desvanecer aos poucos, com a ajuda da quimioterapia; tal como se lhe invadira, o carcinoma, sem pedir autorização, ele iria sair também. Por isso a tia de André dispensou aconselhamento psicológico e medicamentos ansiolíticos, para enfrentar a doença. Já o autor, na altura com vinte anos, conta que para superar e dar ânimo à sua querida tia, lhe valeu muitos as suas ideias e crenças mais espirituais, mais adeptas do mundo Oriental. De certa forma, a doença da tia também lhe tocara: «Mas não será o cancro uma doença tanto para aqueles que o têm como para aqueles que os vêem sofrer com ela?», diz-nos o autor no início do livro. Os efeitos da quimioterapia, seu impacto físico e psicológico, não só atingiu a tia como todos em seu redor, amigos, familiares. André conta no livro que durante todo este período doloroso, foi partilhando as suas emoções nas redes sociais e que fora a partir daí que lhe surgira o impulso de escrever este livro. Ele contou também com o apoio de amigos — «As grandes amizades fazem a diferença nas grandes crises.» (p. 115) —, mas, por estranho que pareça ao lermos o seu relato, ele revela que a sua namorada lhe abandonara, logo nessa altura, «num dos piores momentos da minha vida», confessa. «A vida tem, dentro da sua aparente falta de organização, uma ordem meticulosa e tantas vezes irónica e difícil de perceber.» — Esta é apenas uma das inspiradoras reflexões que André Fernandes partilha neste livro. Aliais, o autor revela uma maturidade pouco reconhecida em jovens da sua idade. O crescimento pessoal e espiritual resultado desta luta, sim, que também ele travara, é notório ao longo de todo o relato, que divide-se em mais de trinta capítulos breves. Um dos capítulos intitula-se ‘Porquê? vs Para quê?’, e é um dos textos que confirmam maturidade, sensibilidade e inteligência emocional no jovem escritor.
Se há testemunho que valha a pena ser partilhado em livro, este é, definitivamente, um deles. Tia Guida (que vai já na 5.ª edição) revela o dom nato de André Fernandes para comunicar. Está bem escrito, sem falhas linguísticas e técnicas, e dentro do género literário que se insere, é uma obra bem conseguida e de leitura compulsiva, que por vezes, para os leitores mais sensíveis, torna-se em leitura dolorosa. É sobretudo um livro despretensioso a nível literário, todavia, tem o potencial de chegar a um público extenso: não só aos leitores que vivenciaram de perto com o cancro, mas aos leitores que poderão colher conselhos importantes de quem lidou de perto com a doença oncológica. Só há a salientar que o desfecho do relato poderia ter sido mais esclarecedor, mas compreende-se que nem todos os detalhes do que aconteceu tenha de ser partilhado.
«Há gente que fica na história da História da gente» e há livros que falam sobre essas pessoas.
Excerto:
«Quando o amor que nos liga a alguém é assim tão genuíno, perante a chance de não mais vermos a materialização física da pessoa que amamos à nossa frente, sofremos num vazio difícil de descrever (…)» (p. 33)