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quinta-feira, 31 de março de 2016

Novidade Assírio & Alvim | «Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro», de Pedro Eiras

Depois de em 2014 publicar Bach, a Assírio & Alvim lança a 7 de Abril o mais recente livro de Pedro Eiras, Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro (160 pp.), uma obra cuja originalidade, atenção ao detalhe e verosimilhança vão deixar o leitor na dúvida.
Mário de Sá-Carneiro, cujo centenário da morte se assinala em Abril, enviou várias cartas a Fernando Pessoa. Essas cartas são conhecidas, mas das respostas de Pessoa, por sua vez, sabe-se muito pouco.

Sinopse
Ficção, realidade? Na abertura deste livro, Pedro Eiras explica como descobriu, no antigo Hôtel de Nice, em Paris, as cartas que Fernando Pessoa enviou a Mário de Sá-Carneiro entre Julho de 1915 e Abril de 1916. Estas cartas reencontradas deixam entrever o quotidiano de Pessoa, os seus projectos, entusiasmos e dúvidas, cem anos depois de Orpheu.
«Durante décadas, os leitores das cartas de Sá-Carneiro especularam, com fascínio, sobre o que conteriam as cartas de Pessoa: muitas vezes, Sá-Carneiro reage às informações do amigo; noutros passos, coloca questões e faz pedidos, a que Pessoa forçosamente se terá referido na correspondência seguinte» Pedro Eiras
A editora disponibiliza para leitura imediata, aqui, as primeiras páginas do livro.
O autor
Pedro Eiras nasceu em 1975. É Professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Desde 2001, publicou diversas obras de ficção (Bach, A Cura, Os Três Desejos de Octávio C.), teatro (Bela Dona, Um Punhado de Terra, Uma Carta a Cassandra, Um Forte Cheiro a Maçã) e ensaio (Platão no Rolls-Royce, Os Ícones de Andrei, Tentações, Esquecer Fausto). Os seus livros têm sido publicados e as peças de teatro apresentadas em mais de dez países.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

«Bach», de Pedro Eiras

Data de Publicação: 26/09/2014
N.º de Páginas: 160

Comecemos pelo fim. Na última página do último capítulo, intitulado “2002”, lê-se em Bach: «Penso que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach, ainda procurarei durante muitos anos.» (p. 151). Pedro Eiras (n. 1975) parece ter levado essa procura a sério, dedicando cerca de doze anos a tentar compreender como escrever sobre Johann Sebastian Bach (1685-1750). O resultado dessa investigação, simultaneamente constante e fragmentária, é uma obra que revisita a vida e a receção de um dos maiores compositores da História, o «árbitro supremo e legislador da música» (Baker’s Biographical Dictionary of Musicians, 1900), através de catorze capítulos interligados que cruzam ficção e realidade. Todas as figuras apresentadas existiram; os diálogos, porém, são imaginários.
A mulher representada na pintura de Emanuel de Witte, no frontispício, poderia bem ser a narradora do primeiro capítulo: Anna Magdalena Bach, recém-viúva, «uma mulher sozinha», que escreve uma carta a dirigentes da escola onde o marido lecionava.
No capítulo seguinte, o autor intervém na primeira pessoa e comenta a biografia The Little Chronicle of Anna Magdalena Bach (1925), de Esther Meynell, autora inglesa fascinada pelo compositor. Aí surge a interrogação central: «Não procuro uma biografia, nem um tratado, nem uma análise. O que procuro?» (p. 32).
Seguem-se outros momentos: uma conversa entre dois cineastas franceses nos anos 1960, ligados a um filme sobre Bach; uma carta de Gustav Leonhardt em 1973; e um pianista canadiano em gravação em estúdio em 1981. Em todos estes episódios, percebe-se como a obra de Bach atravessa épocas e linguagens, moldando diferentes modos de criação e receção musical.
Nas partes seguintes, o autor evidencia ainda a influência do compositor em áreas como a música contemporânea (John Cage) e o pensamento filosófico e matemático (Leibniz). O capítulo “Maria Gabriela Llansol – 1984” destaca-se pelo tom intimista e pelo tributo à escritora, cuja leitura de Bach marcou profundamente Eiras, tal como a de Fernando Pessoa, também aqui evocado.
A cantata BWV 82 ocupa um núcleo particularmente expressivo entre as páginas 129-134, sublinhando a centralidade da música na estrutura do livro. Escrever sobre Bach e sobre o alcance da sua música parece ter sido, para o autor de A Cura, um desafio decisivo na construção desta obra, onde a música não é elemento acessório, mas princípio estruturante.
De difícil classificação genológica, Bach revela um trabalho de pesquisa intenso e uma escrita de natureza quase musical. A linguagem, simultaneamente poética e analítica, cria atmosferas que fazem da leitura uma experiência contínua, próxima da audição de um prelúdio ou de uma fuga. No final, regressando ao início, pode dizer-se que Pedro Eiras enfrentou o seu desafio de doze anos — e fê-lo com evidente maturidade e sucesso.

Excerto
«Os apartamentos parecem maiores, agora. Os cravos, a espineta, o alaúde já não estão connosco, nem os violinos e as violas da gamba: o meu falecido esposo ofereceu três instrumentos de tecla a Johann Christian, que os levou; quanto aos restantes instrumentos, foram partilhados pelos irmãos, logo depois de se lavrar o inventário. Um dia vieram dois homens buscar a espineta, e na parede onde ela esteve encostada tantos anos ficou uma sombra mais clara, por o sol nunca bater ali, e um risco de tinta vermelha, raspada na parede. Sigo o risco vermelho com os dedos, esforço-me por me lembrar do som.»

sábado, 23 de maio de 2026

Pedro Eiras regressa ao romance e revisita o imaginário de Fernando Pessoa

Pedro Eiras (n. 1975) é Professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A sua produção literária distingue-se pela diversidade de géneros e pela profundidade reflexiva, abrangendo a ficção, a poesia, o ensaio e o teatro. Ao longo da sua carreira, tem desenvolvido uma obra vasta e multifacetada, na qual se destacam títulos como Bach, Os Três Desejos de Octávio C., Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa, Constelações, A Cura, bem como a trilogia, publicada pela Assírio & Alvim, Inferno, Purgatório e Paraíso.
Nevoeiro - uma investigação é o título do seu novo livro, que acaba de ser publicado.

Excerto
«Começa por uma tremura ao rés do Tejo. O ar baço confunde as imagens, apaga os contornos de mastros, velas e cordames. Bocados de tela parda pousam sobre a ondulação morosa, arremetidas de vapor infiltram-se nas pedras, esgarçam os ancoradouros. Do rio espesso sobe um manto fantasmagórico, que lentamente galga a terra e embebe as pedras, os pilares.»

Texto de apresentação
Decido escrever um livro para investigar as relações entre a escrita e o poder.
De regresso ao romance e ao universo de Fernando Pessoa, Pedro Eiras segue o poeta português, qual detective no seu encalço, pelos cerrados anos de António Ferro e Salazar nos primeiros avanços do Estado Novo. Tempos de metafórico e espesso nevoeiro, em que talvez se possam reconhecer outras nuvens, bastante mais recentes: «Que resta dizer? Talvez apenas isto: que não se escreve uma investigação sobre o passado sem se ser movido pelo presente. E que não há uma única página desta narrativa – ambientada nos primeiros anos do Estado Novo – que não seja tingida pela sombra dos dias de hoje.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

«Bach» é o título do livro de Pedro Eiras que está quase a chegar às livrarias

A Assírio & Alvim é a editora que a 26 deste mês publica Bach, o mais recente livro de Pedro Eiras (n. 1975), autor versátil que tem nos últimos anos se dedicado a produzir obras de géneros literários como ensaio, teatro, poesia, conto e novela, que encontram-se catalogadas em diversas editoras portuguesas. Bach é o primeiro título do escritor de A Cura (Quidnovi, 2013) com o selo da chancela pertencente ao Grupo Porto Editora.



Bach
de Pedro Eiras

Data publicação: 26/09/2014
Páginas: 160
Editora: Assírio & Alvim

Sinopse
Este é um livro sobre Bach, assente em catorze tentativas de aproximação à sua música. Uma carta de Anna Magdalena, uma cena de montagem de um filme, as conversas de técnicos de som em Nova Iorque, os pensamentos de Etty a caminho do campo de concentração, o silêncio. Intérpretes, biógrafos, romancistas, ouvintes - regra geral, nunca se encontraram e apenas a presença da música, em séculos diferentes, os aproxima, e a eles de nós. Mas qual música, qual linguagem, beleza, angústia e desespero, se ela é a pesquisa para o intérprete, pretexto para o guerreiro, última companhia para aqueles que vão morrer?


Excertos
«Leio estas páginas, sites, fac-similes com os meus olhos extemporâneos; leio, interrogo, comparo, trezentos anos depois. Ignoro tanto sobre estes nomes; mas sei o que eles não souberam: que o mundo deles acabou, tudo quanto parecia eterno se revelou perecível, a ordem da sociedade e das nações mudou mil vezes, o que era proibido tornou-se corrente e necessário escusado, crime e inocência confundiram-se, mas nessa violenta desordem das coisas — a que devagar fomos habituando, quase inconscientemente, no ciclo das gerações — música do Kantor, irascível, enveljhecido e fora de moda, sobreviveu.»
«Os apartamentos parecem maiores, agora. Os cravos, a espineta, o alaúde já não estão connosco, nem os violinos e as violas da gamba: o meu falecido esposo ofereceu três instrumentos de tecla a Johann Christian, que os levou; quanto aos restantes instrumentos, foram partilhados pelos irmãos, logo depois de se lavrar o inventário. Um dia vieram dois homens buscar a espineta, e na parede onde ela esteve encostada tantos anos ficou uma sombra mais clara, por o sol nunca bater ali, e um risco de tinta vermelha, raspada na parede. Sigo o risco vermelho com os dedos, esforço-me por me lembrar do som.»

Outras novidades do mês lançadas pela mesma editora:
A Palavra Imediata — Livro de Horas IV, de Maria Gabriela Llansol
Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa (nova edição)
Longe de Veracruz, de Enrique Vila-Matas


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

«A Cura», de Pedro Eiras

Editora: Quidnovi
Ano de Publicação: 2013
Nº de Páginas: 232

Um médico ateu, psicanalista conceituado e invejado, aceita tratar sob total sigilo um homem mui sui generis, que desempenha um ínclito cargo na Igreja. Os sintomas que o paciente afirma ter: «sinto um extremo cansaço, uma sensação de tristeza, de desamparo», «Tenho vontade de dormir muito, sem ver ninguém»; a sensação de pânico surgia-lhe «sem aviso, sem regra, sem motivo.»
Dada a extrema confidencialidade que o analisando requerera, devido a ser uma figura pública, as sessões de terapia teriam de ocorrer à noite, uma vez por mês e sob o mesmo ritual: quando faltava três minutos para a meia-noite a iluminação exterior e interior dos arredores ia abaixo, parava um carro preto na entrada do prédio do consultório, ele subia no elevador (que, excepcionalmente, estaria operacional, tal como toda a parte eléctrica do espaço onde o terapeuta exercia a sua profissão), decorria a consulta que tinha sempre o tempo que o egrégio paciente considerava necessário, e depois o «apagão» era «desarmado». De consulta em consulta, nessas noites que «deveriam parecer tão reais como um sonho», Z. — o paciente —, instalado no divã de veludo vermelho (uma réplica do mesmo que utilizara Freud, e também o mesmo que Wagner, o professor que tivera sido, ou melhor, o mestre que este psicanalista escolhera seguir) ia, sob processo catártico, transpondo a origem dos seus desejos inconscientes e traumas — quais «âncoras» submersas num tumultuoso mar de emoções. Este impaciente paciente, através de sofrimentos que enfrenta com denodo, quer saber a verdade sobre si mesmo, mas acima de tudo quer ver curada a sua mente, não a sua alma.
Entre o analisando e o analista existe dois universos antípodas, que chocam. Todavia, a delicada fronteira que deveria existir entre médico-paciente é derrubada, por o psicanalista, ao longo das treze consultas, ter revisto nos sonhos de Z. e suas interpretações, a sua própria fraqueza existencial e origem dos apegos, «máscaras» e «muletas» que criou num mundo à parte. Criada a empatia e franqueza mútua, vão conhecer-se um ao outro e, fundamentalmente, conhecer-se a si próprios. Assim, não é apenas o paciente que exorciza os seus recalques, também o Doutor encontra conforto nas sessões e, quem sabe, cura a si próprio. Deste processo terapêutico inusual o leitor está longe de saber se resultará cura, curas ou se será um caso fracassado. 
Quem escolher ler A Cura terá o ímpeto, como o que um leitor de policiais tem, de chegar até às últimas e reveladoras páginas do romance, onde aguarda-nos a apoteose, o «sumo» da história.
Este romance publicado pela Quidnovi funde conceitos de Psicanálise e Religião com ficção. Tem doses de mistério e aturdimento, para desvendar as memórias do narrador (omnisciente). Pedro Eiras explora a mente de dois homens e disseca a complexidade das emoções humanas, com sucesso. A Cura é um romance bem delineado, quer na veste psicológica e complexa dos dois personagens centrais, quer por nenhum acontecimento narrado ser irrelevante. A revelação de quem é o paciente do Doutor acontece na página 33 do romance, e é, talvez, a primeira força motriz que nos dá maior alento para a conclusão da leitura. Ter revelado o nome do narrador só nas últimas páginas do romance, favorece a curiosidade do leitor e revela-se como um trunfo de escritor perspicaz. A não descrição do local geográfico onde decorre a trama é um outro pró do livro. O autor de Bela Dona e outros monólogos (Companhia das Ilhas, 2012) inclui no romance referências a várias obras bibliográficas de Freud e remete-nos para livros que abordam o tema principal do livro, Psicanálise. Nota-se por parte do escritor um elaborado trabalho de pesquisa sobre o assunto, mas essencialmente é revelador o modo como ele entrelaçou com mestria os conceitos psicanalíticos neste seu trabalho literário. O que mais surpreende em A Cura é o fluir desenvolto, repleto de simbolismos, da narração e por haver poucas alternâncias dos planos em que a história se desenrola. Tudo é engendrado. E com inteligência.
Pedro Eiras (n. 1975), professor de Literatura, com obra publicada desde 2001 (na sua maioria teatro e ensaio) é com certeza um nome da nova literatura portuguesa a seguir.

Excerto:
«Talvez por pena de si, ou pena de mim, para eu não sair daquele quarto a pensar que ela era frígida ou tímida ou conservadora, talvez me quisesse conquistar para conquistar a sua própria estima ameaçada. E fazia amor comigo, não por amor, mas para mostrar que sabia fazer amor como as outras mulheres: também tinha um corpo e um gozo, um corpo magro e pálido, mas vivo e feroz na sua fome. Fazia amor como quem sustém as lágrimas. E eu deixava-me ir.» (p. 134)

terça-feira, 1 de novembro de 2022

«A Cura», de Pedro Eiras

Data de publicação: Maio de 2017
N.º de páginas: 256

Um médico ateu, psicanalista conceituado e alvo da inveja dos seus pares, aceita tratar, sob absoluto sigilo, um homem singularíssimo que ocupa um elevadíssimo cargo na Igreja. Os sintomas que o paciente relata são inquietantes: «sinto um extremo cansaço, uma sensação de tristeza, de desamparo»; «tenho vontade de dormir muito, sem ver ninguém». A sensação de pânico assaltava-o «sem aviso, sem regra, sem motivo». Devido à extrema confidencialidade exigida pelo analisando, figura pública de enorme relevo, as sessões de terapia decorrem à noite, uma vez por mês, obedecendo sempre ao mesmo ritual. Três minutos antes da meia-noite, toda a iluminação interior e exterior dos arredores é desligada. Um carro preto estaciona à entrada do edifício; o paciente sobe pelo elevador — excecionalmente operacional, tal como todo o sistema elétrico do consultório — e inicia-se a consulta, cuja duração depende exclusivamente das necessidades do ilustre visitante. Terminada a sessão, o apagão é desativado e tudo regressa à normalidade. 
Consulta após consulta, nessas noites que «deveriam parecer tão reais como um sonho», Z. — o paciente — instala-se num divã de veludo vermelho, réplica daquele que pertencera a Freud e idêntico ao utilizado por Wagner, o mestre que o psicanalista escolhera seguir. Através do processo catártico da análise, Z. vai trazendo à superfície a origem dos seus desejos inconscientes e dos seus traumas, como âncoras submersas num mar tumultuoso de emoções. Impaciente e obstinado, enfrenta os seus sofrimentos com denodo. Procura a verdade sobre si próprio, mas, acima de tudo, deseja curar a mente, não a alma. 
Entre paciente e terapeuta erguem-se dois universos antagónicos, destinados ao choque. Contudo, a delicada fronteira que deveria separar médico e paciente acaba por ruir. Ao longo das treze sessões, o psicanalista reconhece nos sonhos de Z. e nas suas interpretações os reflexos da própria fragilidade existencial, bem como a origem dos seus apegos, das «máscaras» e das «muletas» que construiu para habitar um mundo à parte. À medida que a empatia e a franqueza se consolidam, ambos passam a conhecer-se mutuamente e, sobretudo, a conhecer-se a si próprios. Não é apenas o paciente que exorciza os seus recalques; também o médico encontra nas sessões um espaço de confronto e consolo, quem sabe até de autoterapia. O leitor permanece sem saber se deste processo terapêutico singular resultará uma cura, várias curas ou apenas mais um caso fracassado. 
Quem escolher ler A Cura sentirá o mesmo impulso que move os leitores de romances policiais: a necessidade de avançar até às derradeiras e reveladoras páginas, onde se encontra a apoteose narrativa, o núcleo mais intenso e significativo da história. 
Publicado pela Quidnovi em 2013 e agora reeditado pela Assírio & Alvim, este romance funde ficção, psicanálise e religião numa combinação particularmente feliz. Há mistério, estranheza e inquietação suficientes para manter vivo o interesse do leitor enquanto se desvendam as memórias do narrador omnisciente. Pedro Eiras explora com acuidade a mente de duas personagens e disseca, com rara eficácia, a complexidade das emoções humanas. 
A Cura é um romance exemplarmente arquitetado, tanto pela densidade psicológica das suas figuras centrais como pela economia narrativa que o sustenta: nenhum acontecimento parece irrelevante ou gratuito. A revelação da identidade do paciente, constitui talvez a primeira grande força motriz do enredo, conferindo novo fôlego à leitura. Por sua vez, a decisão de ocultar a identidade do narrador até às páginas finais revela-se um recurso inteligente, que alimenta a curiosidade e demonstra a perícia do autor na gestão do suspense. Também a indefinição do espaço geográfico onde decorre a ação constitui uma escolha acertada, permitindo que a narrativa adquira uma dimensão mais universal. 
O autor de Bach (2014) incorpora no romance múltiplas referências à obra de Freud e a outros textos fundamentais para a compreensão da psicanálise. É evidente o rigor da pesquisa realizada, mas mais impressionante ainda é a forma como os conceitos psicanalíticos são integrados organicamente na estrutura ficcional. O que mais surpreende em A Cura é a fluidez da escrita, rica em simbolismos, aliada a uma construção narrativa depurada, sem excessivas mudanças de plano ou dispersões. Tudo parece cuidadosamente pensado, articulado e necessário. Tudo é engendrado com inteligência. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Apresentação do mais recente livro de Pedro Eiras, «Bach», em Lisboa

Depois da apresentação no Porto, a 24 de Outubro, o livro Bach, de Pedro Eiras, tem mais duas apresentações marcadas: a 4 de Novembro, às 18h, na Livraria Bulhosa (Campo Grande) e no dia seguinte, na Fnac Chiado.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Novidades da Assírio & Alvim: «Livro do Desassossego» (nova edição) e «A Palavra Imediata»

Hoje, 19 de Setembro, a Assírio & Alvim faz chegar às livrarias uma nova edição, aprimorada, «a mais apurada de todas as edições feitas até hoje», de Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa (1888-1935), e o quarto Livro de Horas, que reune quase 1.000 papéis avulsos dispersos do espólio de Maria Gabriela Llansol (1931-2008).


A Palavra Imediata — Livro de Horas IV
de Maria Gabriela Llansol

Organização: João Barrento
N.º de Páginas: 224

Sinopse
Os avulsos de Llansol, na sua grande diversidade, são, como ela própria sugere, uma espécie de terreno inculto onde «todo o escrito está plantado», ou talvez, mais propriamente, um terreno de sementeira onde começa a germinar o pensamento ou se vê já desabrochar a escrita, de forma mais ou menos desordenada, em alguns casos pequenas narrativas autónomas ou mesmo toda a estrutura de um livro, como no exemplo das fichas de formato A5 e várias folhas A4 (provavelmente de 1972-73, em Lovaina), que contêm o que pode ter sido o nascimento de «O Livro das Comunidades». Nesses papéis vai caindo, desde os anos de Lovaina, nas décadas de sessenta e setenta do século passado, até à penúltima jornada desta vida, a palavra imediata de Llansol, a que ela um dia se referiu como «essa palavra que agora brilhava como um vidro sob a oscilação do luar». 


Livro do Desassossego
de Fernando Pessoa

Organização: Richard Zenith
N.º de Páginas: 464

Sinopse
Publicado pela primeira vez em 1982, quase meio século após a morte de Fernando Pessoa, o Livro do Desassossego é uma obra-prima pouco convencional, resistente às habituais classificações literárias. A palavra desassossego refere-se à angústia existencial do narrador, sim, mas também à sua recusa em ficar quieto, parado. Sem sair de Lisboa, este viaja constantemente na sua maneira de ver, sentir e dizer. Ler este livro, repleto de emoção e observações penetrantes, é uma experiência estranhamente libertadora.

A edição
A presente edição procura, na medida possível, respeitar a visão que o próprio autor do Livro nutria para a sua publicação. Inclui todo o material explicitamente destinado à obra e alguns textos adicionais que com quase toda a certeza lhe pertencem e cujo estatuto conjetural é, de qualquer modo, assinalado. A transcrição dos originais, constantemente melhorada ao longo dos anos, é a mais apurada de todas as edições feitas até à data. A introdução do organizador traça a evolução do Livro que ocupou Pessoa durante mais de vinte anos, propondo-nos novas linhas de leitura.

Outra das novidades da editora que chega de hoje a uma semana: Bach, de Pedro Eiras.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Novidades Sistema Solar | Documenta

Preceptores
Grabielle de Bergerac seguido de O Discípulo
de Henry James
Texto sinóptico
Em tempos que não exigiam aos mundos do trabalho e do êxito social um certificado comprovador de estudos académicos, de bom-tom era mostrar que se dispensavam as más convivências do ensino público, fazendo tudo passar-se em ambientes domésticos e com mestres privativos. Nasceu assim o preceptor.

O preceptor dos antigos gregos e latinos era em geral um escravo liberto com conhecimentos suficientes para aproximar os jovens das suas letras e da sua erudição. A Idade Média, cheia de homens religiosos, preferiu neste papel os capelães. Mas a Idade de Ouro do preceptor foi a época do Renascimento. Havia, quanto a artes e a ciências, uma vontade colectiva de chegar mais alto, dando a estes mestres de casa rica um imprescindível papel. Começam depois as opiniões a dividir-se. Rousseau, que se estendeu sobre este tema no seu Émile ou de l’éducation de 1762, preconizou que era preferível o mestre «de cabeça bem formada ao de cabeça bem cheia» e, a exigirem-se ambas as coisas, houvesse mais sobre costumes e entendimento do que ciência. Mas seria preferível tudo isto sem um preceptor.
[…]
«Gabrielle de Bergerac» conta uma história escrita por um Henry James com vinte e seis anos de idade; ou seja, da época em que ele se resolvia, perturbado por algumas hesitações, a dar à escrita um papel que a faria surgir como sua ocupação central. […] Não obstante este lugar muito do início da sua carreira literária, «Gabrielle de Bergerac» surge com uma característica que viria a tornar-se persistente ao longo de toda a sua obra, ou seja, a narrativa contada a partir de um ponto de vista associado a uma das suas personagens.
[…]
Esta história dos começos do autor Henry James também nos mostra a sua preferida criança complexa (muitas vezes mais complexa do que os adultos da sua convivência) a primeira entre as que ele viria a criar em The Turn of the Screw, What Maisie knew ou no conto «O Discípulo» que integra este volume; crianças abandonadas pela indiferença paterna e que a outros distribuem o papel de personagens centrais da sua vida – aquelas que muitos estudiosos da obra de James reconhecem como uma inequívoca referência autobiográfica. […]
[Aníbal Fernandes]

Outros títulos de Henry James já publicados pela Sistema Solar: O Mentiroso, O Aperto do Parafuso e Os Manuscritos de Aspern.


O Cântico dos Cânticos
de Ernest Renan
Texto sinóptico
O mais antigo grito da literatura que em voz feminina reivindica a liberdade sexual da mulher.

A meio do Velho Testamento, entre a sabedoria perplexa do «Eclesiastes» e a boa nova aos pobres derramada no «Livro de Isaías», a autoridade de um versículo faz deste Salomão erótico o poeta da grande surpresa profana – pese embora esta evidência às retóricas da interpretação aconselhada; do «Cântico dos Cânticos», chamado assim porque talvez melhor momento entre os hinos ao amor físico saídos da velha literatura hebraica, e que é o incómodo, o indisfarçável embaraço cristão nas águas da espiritualidade bíblica; colecção de metáforas sobre a gramática dos sentidos e com potencialidades de interpretação que chegam a uma inesperada licença. Na verdade, até onde pode levar a redução a realismo das palavras de uma apaixonada que acha o fruto do seu amado «doce ao paladar», o incita a «penetrar no seu jardim e comer dos seus belos frutos», a «beber o mosto das suas romãs», ou vê os dedos da sua própria mão molhados pela «mirra líquida que banha o ferrolho»?
[…]
A relação de Ernest Renan com o «Cântico» não prolonga a veia destas intenções poéticas. Para as palavras bíblicas do «Cântico» Renan quer um palco; quer actores; quer um libelo contra a escravatura dos haréns e recuperar o mais antigo grito da literatura que em voz feminina reivindica a liberdade sexual da mulher.
[Aníbal Fernandes]
Novidades da Editora Documenta:
Um Rio à Beira do Rio, de Mário Cesariny
Ensaio Sobre os Mestres, de Pedro Eiras
A Ética e os Limites da Filosofia, de Bernard Williams

www.sistemasolar.pt
Para ler excertos dos livros, basta clicar em https://issuu.com/sistemasolar

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Os melhores livros de 2013 são...

O término de 2013 está mesmo quase a ser atingido. Este ano foi de longe o ano em que mais me dediquei à leitura, por motivos e oportunidades várias. Li muito papel, é verdade. Aqui no blogue elaborei 86 textos opinativos sobre alguns desses livros que li; todavia, muitos foram os que apenas li sem redigir nenhuma crítica. Como é obvio, li muitos livros publicados em 2013, e muitos publicados em anos anteriores. De todos os géneros literários existentes, só de literatura fantástica é que não sou apologista, portanto, leio desde ensaio, romance, poesia, biografia, policial, desenvolvimento pessoal, etc. Dos livros que as editoras portuguesas publicaram em 2013, e dos que li (obviamente), escolhi 13 que se destacaram (para mim) e que tive como os que mais me marcaram, enquanto leitor, neste ano. A seguinte lista está elaborada por ordem de preferência:
O Que é a Arte?, de Lev Tolstói (Gradiva)
A Conferência Dos Pássaros, de Farid Ud-Din Attar (Marcador)
A Cura, de Pedro Eiras (Quidnovi)
O Segredo de Compostela, de Alberto S. Santos (Porto Editora)
Conspiração Kennedy, de Bill O'Reilly e Martin Dugard (Marcador)
Inferno, de Dan Brown (Bertrand)
A Herdade, de Jane Smiley (Civilização)
Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer, de David Foster Wallace (Quetzal)


A Noite Inteira Já Não Chega - Poesia 1983-2010, de Rosa Lobato de Faria (Guimarães)
Em Defesa de Jacob, de William Landay (A Esfera dos Livros)
Hei-de Amar-te Mais, de Tiago Salazar (Oficina do LIvro)
Seja o Autor da Sua Vida, de Michelle Noel (Nascente)
Contos Capitais, de Vários (Parsifal)

Quero agradecer a todas as editoras que continuam, gentilmente, colaborando comigo e com este blogue, fazendo com que o Silêncios que Falam seja um dos blogues literários com maior destaque no panorama nacional (salvaguardando a modéstia), e dando também a oportunidade de muitos seguidores do blogue poderem ganhar gratuitamente livros, através dos passatempos que estão constantemente a ser dinamizados cá. Boas leituras para 2014.