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Editora: Assírio & Alvim
Data de publicação: Maio de 2017N.º de páginas: 256 |
Um médico ateu, psicanalista conceituado e alvo da inveja dos seus pares, aceita tratar, sob absoluto sigilo, um homem singularíssimo que ocupa um elevadíssimo cargo na Igreja. Os sintomas que o paciente relata são inquietantes: «sinto um extremo cansaço, uma sensação de tristeza, de desamparo»; «tenho vontade de dormir muito, sem ver ninguém». A sensação de pânico assaltava-o «sem aviso, sem regra, sem motivo». Devido à extrema confidencialidade exigida pelo analisando, figura pública de enorme relevo, as sessões de terapia decorrem à noite, uma vez por mês, obedecendo sempre ao mesmo ritual. Três minutos antes da meia-noite, toda a iluminação interior e exterior dos arredores é desligada. Um carro preto estaciona à entrada do edifício; o paciente sobe pelo elevador — excecionalmente operacional, tal como todo o sistema elétrico do consultório — e inicia-se a consulta, cuja duração depende exclusivamente das necessidades do ilustre visitante. Terminada a sessão, o apagão é desativado e tudo regressa à normalidade.
Consulta após consulta, nessas noites que «deveriam parecer tão reais como um sonho», Z. — o paciente — instala-se num divã de veludo vermelho, réplica daquele que pertencera a Freud e idêntico ao utilizado por Wagner, o mestre que o psicanalista escolhera seguir. Através do processo catártico da análise, Z. vai trazendo à superfície a origem dos seus desejos inconscientes e dos seus traumas, como âncoras submersas num mar tumultuoso de emoções. Impaciente e obstinado, enfrenta os seus sofrimentos com denodo. Procura a verdade sobre si próprio, mas, acima de tudo, deseja curar a mente, não a alma.
Entre paciente e terapeuta erguem-se dois universos antagónicos, destinados ao choque. Contudo, a delicada fronteira que deveria separar médico e paciente acaba por ruir. Ao longo das treze sessões, o psicanalista reconhece nos sonhos de Z. e nas suas interpretações os reflexos da própria fragilidade existencial, bem como a origem dos seus apegos, das «máscaras» e das «muletas» que construiu para habitar um mundo à parte. À medida que a empatia e a franqueza se consolidam, ambos passam a conhecer-se mutuamente e, sobretudo, a conhecer-se a si próprios. Não é apenas o paciente que exorciza os seus recalques; também o médico encontra nas sessões um espaço de confronto e consolo, quem sabe até de autoterapia. O leitor permanece sem saber se deste processo terapêutico singular resultará uma cura, várias curas ou apenas mais um caso fracassado.
Quem escolher ler A Cura sentirá o mesmo impulso que move os leitores de romances policiais: a necessidade de avançar até às derradeiras e reveladoras páginas, onde se encontra a apoteose narrativa, o núcleo mais intenso e significativo da história.
Publicado pela Quidnovi em 2013 e agora reeditado pela Assírio & Alvim, este romance funde ficção, psicanálise e religião numa combinação particularmente feliz. Há mistério, estranheza e inquietação suficientes para manter vivo o interesse do leitor enquanto se desvendam as memórias do narrador omnisciente. Pedro Eiras explora com acuidade a mente de duas personagens e disseca, com rara eficácia, a complexidade das emoções humanas.
A Cura é um romance exemplarmente arquitetado, tanto pela densidade psicológica das suas figuras centrais como pela economia narrativa que o sustenta: nenhum acontecimento parece irrelevante ou gratuito. A revelação da identidade do paciente, constitui talvez a primeira grande força motriz do enredo, conferindo novo fôlego à leitura. Por sua vez, a decisão de ocultar a identidade do narrador até às páginas finais revela-se um recurso inteligente, que alimenta a curiosidade e demonstra a perícia do autor na gestão do suspense. Também a indefinição do espaço geográfico onde decorre a ação constitui uma escolha acertada, permitindo que a narrativa adquira uma dimensão mais universal.
O autor de Bach (2014) incorpora no romance múltiplas referências à obra de Freud e a outros textos fundamentais para a compreensão da psicanálise. É evidente o rigor da pesquisa realizada, mas mais impressionante ainda é a forma como os conceitos psicanalíticos são integrados organicamente na estrutura ficcional. O que mais surpreende em A Cura é a fluidez da escrita, rica em simbolismos, aliada a uma construção narrativa depurada, sem excessivas mudanças de plano ou dispersões. Tudo parece cuidadosamente pensado, articulado e necessário. Tudo é engendrado com inteligência.

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