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Editora: Assírio & Alvim
Data de Publicação: 26/09/2014N.º de Páginas: 160 |
Comecemos pelo fim. Na última página do último capítulo, intitulado “2002”, lê-se em Bach: «Penso que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach, ainda procurarei durante muitos anos.» (p. 151). Pedro Eiras (n. 1975) parece ter levado essa procura a sério, dedicando cerca de doze anos a tentar compreender como escrever sobre Johann Sebastian Bach (1685-1750). O resultado dessa investigação, simultaneamente constante e fragmentária, é uma obra que revisita a vida e a receção de um dos maiores compositores da História, o «árbitro supremo e legislador da música» (Baker’s Biographical Dictionary of Musicians, 1900), através de catorze capítulos interligados que cruzam ficção e realidade. Todas as figuras apresentadas existiram; os diálogos, porém, são imaginários.
A mulher representada na pintura de Emanuel de Witte, no frontispício, poderia bem ser a narradora do primeiro capítulo: Anna Magdalena Bach, recém-viúva, «uma mulher sozinha», que escreve uma carta a dirigentes da escola onde o marido lecionava.
No capítulo seguinte, o autor intervém na primeira pessoa e comenta a biografia The Little Chronicle of Anna Magdalena Bach (1925), de Esther Meynell, autora inglesa fascinada pelo compositor. Aí surge a interrogação central: «Não procuro uma biografia, nem um tratado, nem uma análise. O que procuro?» (p. 32).
Seguem-se outros momentos: uma conversa entre dois cineastas franceses nos anos 1960, ligados a um filme sobre Bach; uma carta de Gustav Leonhardt em 1973; e um pianista canadiano em gravação em estúdio em 1981. Em todos estes episódios, percebe-se como a obra de Bach atravessa épocas e linguagens, moldando diferentes modos de criação e receção musical.
Nas partes seguintes, o autor evidencia ainda a influência do compositor em áreas como a música contemporânea (John Cage) e o pensamento filosófico e matemático (Leibniz). O capítulo “Maria Gabriela Llansol – 1984” destaca-se pelo tom intimista e pelo tributo à escritora, cuja leitura de Bach marcou profundamente Eiras, tal como a de Fernando Pessoa, também aqui evocado.
A cantata BWV 82 ocupa um núcleo particularmente expressivo entre as páginas 129-134, sublinhando a centralidade da música na estrutura do livro. Escrever sobre Bach e sobre o alcance da sua música parece ter sido, para o autor de A Cura, um desafio decisivo na construção desta obra, onde a música não é elemento acessório, mas princípio estruturante.
De difícil classificação genológica, Bach revela um trabalho de pesquisa intenso e uma escrita de natureza quase musical. A linguagem, simultaneamente poética e analítica, cria atmosferas que fazem da leitura uma experiência contínua, próxima da audição de um prelúdio ou de uma fuga. No final, regressando ao início, pode dizer-se que Pedro Eiras enfrentou o seu desafio de doze anos — e fê-lo com evidente maturidade e sucesso.
Excerto
«Os apartamentos parecem maiores, agora. Os cravos, a espineta, o alaúde já não estão connosco, nem os violinos e as violas da gamba: o meu falecido esposo ofereceu três instrumentos de tecla a Johann Christian, que os levou; quanto aos restantes instrumentos, foram partilhados pelos irmãos, logo depois de se lavrar o inventário. Um dia vieram dois homens buscar a espineta, e na parede onde ela esteve encostada tantos anos ficou uma sombra mais clara, por o sol nunca bater ali, e um risco de tinta vermelha, raspada na parede. Sigo o risco vermelho com os dedos, esforço-me por me lembrar do som.»

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