![]() |
Editora: Casa das Letras
Data de publicação: 21-07-2020 N.º de páginas: 696 |
Todos os anos, centenas de mulheres e homens sofrem em silêncio por não denunciarem a violência doméstica de que são alvo, seja ela física, psicológica ou sexual. Enquanto não veem reunidas as condições necessárias para se libertarem dessas situações opressoras, os anos passam e as cicatrizes do corpo e da alma tornam-se cada vez mais visíveis. Quando há filhos envolvidos, tudo se complica e ganha uma dimensão ainda mais dolorosa. Em consequência de divórcios litigiosos, emerge um outro flagelo da sociedade contemporânea: a alienação parental, capaz de provocar danos psicológicos profundos nas crianças.
No seu mais recente romance, a escritora Tânia Ganho (n. 1973) dá voz às vítimas de violência doméstica e de abusos sexuais em Portugal, em particular às «crianças à deriva nos tribunais de família e menores», a quem dedica este seu quinto livro.
Adriana e Alessandro conheceram-se em Itália. Casaram, tiveram um filho e mudaram-se para Inglaterra. Ele é director financeiro numa multinacional e viaja constantemente pelo mundo; ela é uma artista plástica em ascensão. Mais tarde, decidem construir uma casa em Lisboa e regressar a Portugal. Contudo, essa moradia com piscina nunca chega a acolher a felicidade que ambos imaginaram. Há muito que a desdita se instalara na vida de Adriana. O homem por quem se apaixonara lia-lhe os e-mails, as mensagens de telemóvel e invadia as suas redes sociais (p. 68). Mais do que isso, reduzia-a «até restar apenas o defeito, a imperfeição, o medo.» (p. 103).
Num dia de Setembro de 2009, Adriana decide abandonar a relação. Alessandro reage com uma ameaça devastadora: vai tirar-lhe tudo — «o dinheiro, a carreira, a família, o teu filho.» (p. 54). Tem então início uma longa batalha judicial, envolvendo o divórcio e a guarda partilhada de Edoardo, o filho do casal, que, com apenas seis anos, é ouvido pela primeira vez em tribunal.
Começa assim uma jornada marcada pelo desgaste emocional e pela dependência de instituições que deveriam proteger mãe e filho. Porém, Adriana cedo percebe que tribunal e hospital raramente comunicam entre si, vítimas de burocracias, falhas profissionais e da própria inércia do sistema. Entre consultas de psicologia e pedopsiquiatria, assiste à crescente perturbação do filho, que regressa da casa do pai cada vez mais agressivo. «Para o tribunal, a mudança semanal de hábitos e de modo de vida era uma questão de somenos importância; “as crianças adaptam-se”, insistiam os magistrados.» (p. 204).
Na natação — «era uma criatura aquática» — e na pintura, Adriana procura refúgio. «O auto-retrato era um caminho para regressar a si mesma.» São espaços de resistência e sobrevivência emocional. Também uma ilha se torna abrigo temporário contra o peso de uma realidade asfixiante. Contudo, nem esses momentos conseguem atenuar o stresse permanente que a acompanha: «As crises de ansiedade foram a maneira de o seu corpo a obrigar a tomar consciência disso.» (p. 536).
Uma das passagens mais perturbadoras do romance gira em torno de um incidente determinante e das suas consequências. É também aí que se encontra uma das frases mais marcantes da obra: «O dia em que deixou de sentir tristeza pelo fim do seu casamento.» (p. 512).
Até onde será capaz de ir esta mãe para proteger o filho das manipulações de um pai negligente e perverso, que o expõe a conteúdos violentos e sexualizados, enquanto procura desacreditar constantemente a ex-companheira aos olhos da criança?
Com uma escrita elegante, segura e dotada de um vocabulário rico, Tânia Ganho traz para o centro da narrativa uma reflexão urgente sobre a incapacidade do sistema português para responder adequadamente a processos desta natureza, nos quais deveria prevalecer sempre «o superior interesse da criança». Como afirmou o Prof.º Dr.º Carlos Alberto Poiares na apresentação do livro: «Enquanto não tivermos avaliações psicológicas forenses obrigatórias [a cada um dos pais] nos tribunais, andamos a brincar.»
Este romance sucede a A Mulher-Casa (Porto Editora, 2012) e confirma uma autora particularmente atenta às fragilidades humanas. A arte, a literatura e a observação das relações interpessoais voltam a marcar presença numa narrativa construída com notável rigor. Para quem acompanha o percurso da autora, é impossível não reconhecer o amadurecimento da sua escrita. Tudo em Apneia parece cuidadosamente calculado; cada revelação surge no momento certo, cada peça encontra o seu lugar na engrenagem narrativa.
Tânia Ganho continua a exercer tradução literária, mas possui uma voz ficcional que mereceria maior projecção nacional. Apneia, em particular, reúne qualidades para conquistar leitores muito para além das fronteiras portuguesas, graças à relevância e universalidade dos temas que aborda.
Intensa, angustiante e emocionalmente exigente, esta é uma leitura que por vezes obriga o leitor a interromper a marcha dos acontecimentos para recuperar o fôlego. Não por acaso, o título revela-se particularmente feliz. Ao mesmo tempo, a forte componente visual da narrativa torna fácil imaginar uma futura adaptação cinematográfica, sobretudo nas cenas passadas na ilha onde Adriana procura algum alívio para a sua dor.
Por detrás da trama está ainda um impressionante trabalho de pesquisa. Importa referir que Apneia foi inspirado em testemunhos reais de mulheres que partilharam com a autora de A Lucidez do Amor (Porto Editora, 2010) experiências de violência doméstica e divórcios litigiosos vividas em instituições como o Ministério Público ou o Tribunal de Família e Menores de Lisboa. Talvez por isso a narrativa se revele tão autêntica, tão dolorosa e tão necessária.Excertos«Enroscavam-se nos braços um do outro e Adriana tinha vontade de lhe falar de futuro, mas não o fazia. Existiam naquele farol, naquela ilha. Não sabia se teriam lugar no mundo lá fora. Não queria pensar nisso enquanto ali estava. Cabiam naquela cama estreita, no tempo presente.» (p. 220)
«A vida não nos prepara, enquanto filhos, para encontrarmos o vazio onde deveria existir a empatia, o amor, no coração de um pai ou de uma mãe.» (p. 512)
«Quantas mulheres já estiveram em esquadras da polícia a dizer que têm medo, que os filhos estão em perigo, e as mandaram para casa “descansar e pensar positivo”? E, no dia, seguinte, estavam nas capas dos jornais?» (p. 577)

8 comentários:
Muito obrigada, Miguel, por mais esta leitura tão generosa.
Tenho lido opiniões muito positivas sobre a autora e sobre este livro. Espero ter a oportunidade de ler esta obra que me despertou imensa curiosidade.
Tema recorrente e nem por isso a melhorar, os silêncios são profundos!!
Estou muito curiosa com este livro, parece-me uma boa leitura com um tema forte.
Estou com muita vontade de ler este livro, as críticas são boas e infelizmente é um tema tão atual...
Nunca li nada desta autora, mas gostava de ler.
Quero tanto ler este livro:)
Quero muito ler este livro
Enviar um comentário