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Editora: Dom Quixote
Data de publicação: 05-05-2026N.º de páginas: 320 |
«Estou viva. O meu marido, Paul Auster, está morto.» É com esta afirmação crua e abrupta que Siri Hustvedt inicia Fantasmas, o mais íntimo e autobiográfico dos seus livros, que centra-se na vida partilhada com Paul Auster, desde o encontro de ambos em Nova Iorque, em 1981, até à morte do escritor, em 2024, vítima de cancro.
Mais do que um simples relato memorialístico, a obra apresenta-se como um arquivo vivo do luto, onde se cruzam entradas de diário, cartas, e-mails, reflexões ensaísticas e o último livro, inacabado, do autor de A Trilogia de Nova Iorque.
A casa em Brooklyn, onde viveram mais de três décadas, surge como uma «arquitectura da memória», habitada por vestígios de uma presença ausente. Ao longo da doença prolongada do marido, Hustvedt assume o papel de cuidadora, acompanhando de perto o desgaste físico e emocional de quem sabe que a perda se aproxima.
No tempo presente da escrita, Siri interroga o próprio sentido do luto, recusando separá-lo da vida: «O luto e a depressão convergem muitas vezes.» O amor de mais de quatro décadas é descrito não apenas como memória, mas como incorporação: «o toque do Paul, a maneira de falar dele, as suas ideias, os seus livros e o seu sentido de humor fazem parte de mim agora (...)»
Marcado também por outras tragédias familiares, o livro expõe de forma transparente o quotidiano da doença e da perda, convocando simultaneamente a filosofia e a reflexão psicológica para refletir sobre a forma como a ausência continua a fazer-se sentir, nomeadamente através da metáfora do «membro-fantasma».
Em suma, Fantasmas (com tradução assinada por Tânia Ganho) é uma obra íntima e reflexiva que, entre o testemunho autobiográfico e o ensaio, transforma o luto numa meditação sobre o amor, a memória e a perda, explorando a reconstrução da identidade após a ausência e aquilo que permanece depois da morte de alguém importante.
Excertos
«Embora eu tivesse pensado muitas vezes em como seria viver sem o Paul, comecei a imaginá-lo com mais frequência. Imaginava-me a andar pela casa sozinha. Imaginava-me a fazer o luto.»
«Todos morremos, mas apenas alguns de nós vivem com a consciência de que a vida pode terminar a qualquer instante. Embora tivesse, muitas vezes, imaginado como seria viver sem o Paul, passei a fazê-lo com uma frequência quase insistente. Via-me a percorrer a casa sozinha. Via-me mergulhada no luto.»
«Tenho dormido no meu lado da cama. Até ver, não dei por mim a ocupar mais espaço do que antes. Quando acordo, não espero que ele esteja ao meu lado. Não espero que ele entre no quarto, sequer. Já não o consigo conjurar, por muito que gostasse de o fazer. Temi a sua morte iminente durante demasiado tempo.»
«O meu corpo revolta-se, atormentado por maleita atrás de maleita: dores e descargas elétricas e aftas e pés desesperadamente gelados e dormentes, e cada sintoma me assusta. A minha própria fragilidade e morte, e também a vida sozinha.»
«Quando um escritor morre, os livros que deixa para trás contam como “restos mortais”».

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