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quarta-feira, 2 de março de 2022

«Ele e o Outro», de Hermann Hesse

Editora: Dom Quixote
Data de publicação: Fevereiro de 2022
N.º de páginas: 112

Até ter sido galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1946, Hermann Hesse já tinha escrito a maioria da sua obra. Os seus livros eram muito pouco conhecidos pelos leitores europeus e americanos. Foi só após esta atribuição, a mais prestigiada do meio literário mundial, que o autor alemão viu os seus livros serem difundidos para vários idiomas.
Manuela de Sousa Marques (1924-2015) foi quem traduziu, pela primeira vez, um livro deste autor para português. Estávamos em 1952, quando foi dada à estampa, pela Guimarães Editores, um dos títulos, aparentemente, menos marcantes de Hesse: Ele e o Outro (Klein und Wagner, 1919).
Esta obra, que a Dom Quixote recupera da “obscuridade” (há muitos anos que estava esgotada), mantém, com revisão, a primeira e única tradução. Constatar que Manuela de Sousa Marques, num texto que escreveu em 1987, afirmou «com mágoa, que Hesse não foi ainda descoberto em Portugal e que a hora da sua influência em grande escala ainda não soou para nós».
Após a leitura desta curta narrativa, há uma pergunta que se levanta: porque permaneceu esta obra tanto tempo fora do alcance dos leitores portugueses que têm Hermann Hesse como uma referência indiscutível da Literatura Germânica e Internacional?

Friedrich Klein é um homem perto dos 40 anos conhecido como honesto funcionário; «era tido por culto, estudioso, dado aos livros e às letras.» Há muitos anos que levava uma vida falhada e angustiada: «Não havia dentro de si nada que não sangrasse, que não estivesse podre e doente.» Num dia, revolta-se contra a existência vazia, degradante, que o mundo na sua hipocrisia exige, e abandona a mulher e os filhos. Chegado a um país diferente, as coisas melhoram: «respirar era mais fácil, a vida mais possível, o revólver mais dispensável…» Era possível uma esperança para o protagonista e talvez a sua vida pudesse vir a ser suportável.
Quando conhece uma bailarina, logo sente um desejo profundo por ela. Mas quando Teresina, que o acha esquisito e pergunta quem é ele, Klein responde: «Sou quem está vendo diante de si, nada mais. Não tenho nome, nem título, nem profissão. Tive de abandonar tudo…»
Ao longo da narrativa, Klein vai tendo oscilações de pensamentos sombrios sobre identidade, lutando com demónios internos (Klein não consegue tirar da cabeça um episódio drástico acontecido anos antes, por um homem chamado Wagner).

Ele e o Outro é um drama psicológico cheio de intensidade e complexidade, uma narrativa notável escrita num período de plena maturidade do escritor (nesta altura, a primeira parte de Siddhartha já estava concluída, e estava na feitura de O Último Verão de Klingsor).
Esta história revela muitos paralelismos com a vida do próprio escritor, que ao escrevê-la cumpriu um claro propósito terapêutico, como ele próprio afirmou. Em 1919, este grande escritor e humanista, que já tinha publicado obras como Peter Camenzind e Demian, instalou-se em Itália, após ter deixado a sua esposa (por causa da doença que ela padecia) e três filhos.

Esta obra mantém, na íntegra, o prefácio da primeira edição, da autoria de Delfim Santos (1907-1966), professor universitário que manteve contacto pessoal com Hermann Hesse e que foi por sua iniciativa que Ele e o Outro foi publicado por cá. Por curiosidade: Manuela de Sousa Marques viria a ser sua esposa. Referir que este prefácio contém um spoiler dantesco, que podia muito bem ter sido omisso desta edição revista.

Excertos
«E assim se realizara o mais radioso desejo da sua juventude, daquela juventude de que perdera e apagara as recordações na longa e árida caminhada que fora a sua vida sem sentido.»

«Nunca, desde a juventude, estivera Klein tão só e tão diretamente abandonado aos seus sentimentos…. Nunca tão exposto aos raios verticais do sol do seu destino. Sempre vivera ocupado com qualquer outra coisa que não ele próprio.»

«Caí do ninho… e agora ou soçobro ou aprendo a voar. O mundo já não me interessa, estou completamente só.»

«Como tinha vivido só, tão só, tanto tempo só! Abismos e infernos chamejantes se tinham aberto entre ele e o mundo.»

«Sofria da angústia, do medo de muitas coisas, da loucura, da polícia, da insónia e também do medo da morte. Mas, ao mesmo tempo, ansiava por tudo aquilo a que tinha medo.»

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Romance «Knulp», de Hermann Hesse, entre as apostas da LeYa para Abril

Além dos policiais A Extinção de Irena Rey (de Jennifer Croft) e Estigma (de Jørn Lier Horst & Thomas Enger), a editar a 15 deste mês, as Publicações Dom Quixote lançam, a 29 de Abril, um magnífico livro de um dos nomes maiores das letras germânicas, Hermann Hesse, o romance de estreia do italiano Davide Coppo e a obra finalista do Prémio do Livro Alemão em 2018, da autoria do escritor Maxim Biller.

Knulp (Tradução de Paulo Rêgo)
O próprio Hesse veio em 1954, numa carta enviada a um amigo, a escrever: «[Knulp] conta-se entre os poucos dos meus escritos em relação aos quais […] sempre mantive proximidade e afeição.»

Em três breves relatos, Hermann Hesse apresenta-nos diferentes momentos da vida de Karl Eberhard Knulp, eterno caminhante que percorre sem parar uma parte da Alemanha rural de finais do século XIX.
Indivíduo alegre e conversador, Knulp vive na margem da sociedade, mas não é um marginal. Prescinde dos confortos e da segurança de uma vida estabelecida, tem uma existência incerta, mas em compensação só tem de prestar contas a si mesmo.
Assume a sua condição de errante, preferindo arriscar uma vida nos limites do socialmente aceitável a abdicar da sua independência. Não obstante, Knulp é acolhido de bom grado por quase todas as pessoas, e a maioria delas preza o tempo que com ele passa, antes de este, uma vez mais, sentir a necessidade de liberdade e as deixar entregues ao seu quotidiano.
Ao longo do tempo, Knulp vai-se interrogando sobre o sentido da existência, sobre as virtudes do sedentarismo e da vida em eterno movimento, sobre a amizade e o amor, mas chega uma altura em que, por fim, regressado à terra natal, contempla o passado e se interroga sobre o que poderia ter sido.

Alguns outros livros de Hermann Hesse: Peter Camezind, Ele e os Outros, Demian.


O Lado Errado (Tradução de J. Teixeira de Aguilar)
O que leva um jovem de boas famílias, sem nenhum trauma digno de nota, a escolher o caminho do extremismo político? Porque é que uma pessoa se torna fascista?
Estamos nos anos dois mil, e não nos anos setenta: Ettore, um adolescente de catorze anos que, após deixar a periferia, chegou à cidade para se matricular num grande liceu do centro, vê-se sem pontos de referência, perdido, sobretudo humanamente, num território e numa comunidade onde não sabe encontrar modelos a seguir nem novas amizades. Encontrá‑los-á rapidamente num grupo neofascista, primeiro por acaso e depois cultivando sozinho a sua própria radicalização, o afastamento da família e dos amigos, rumo a um inevitável e trágico final.
Este é um romance de formação errada, um clímax não tanto – não só – de violência, mas também de ligações que se estreitam, de outras que se desfazem, e sobretudo de construção de uma identidade.
Ao mesmo tempo, é uma confissão íntima, ora terna, ora dolorosa, da desambientação emotiva com que nos vemos confrontados durante a adolescência, e uma viagem pela atração que o mal sabe sempre exercer.



Seis Malas (Tradução de Paulo Rêgo)
A história de um enigma suficientemente grande para encher seis malas.
Todas as famílias têm segredos que passam de geração em geração e chegam a ser casos de vida ou de morte.
No presente romance, Maxim Biller escreve sobre um desses enigmas, cujas repercussões negativas continuam a afetar até hoje a sua família.
Quando o patriarca é denunciado por tráfico de divisas (que, ao que se sabe, escondia numa mala) e executado na União Soviética em 1960, todos os membros da família passam a ser suspeitos de traição, a lealdade entre eles é posta à prova e um bom número de segredos obscuros acabam por ser desvendados.
Mas, afinal, quem traiu Shmil Grigorevitch? Terá sido algum dos seus encantadores e talentosos filhos – Dima, por exemplo, que tentou fugir de Praga para Berlim Ocidental? Terá sido a sua nora, ambiciosa e triste? Ou foi ele próprio que se deixou apanhar pelo KGB, que depois o condenaria à morte?
Contada por um neto de Shmil, este romance – que alterna entre Praga, Zurique, Moscovo e Hamburgo – narra as perspetivas de seis membros desta família de judeus russos sobre o verdadeiro culpado, e entrelaça a diáspora judaica, o antissemitismo comunista e até o cinema checo do pós-guerra com os mitos soviéticos, deixando aos leitores uma questão existencial: como se comportariam se tivessem de salvar a própria vida – como heróis ou traidores?

Outra novidade a editar pela chancela Casa das Letras:
A Marca da Vingança, de Emelie Schepp.

domingo, 26 de julho de 2026

Quarto romance de Hermann Hesse regressa às livrarias


Depois de Hans – Sob o Peso das Rodas e Knulp, a Dom Quixote prossegue a publicação da obra de Hermann Hesse com Rosshalde, livro originalmente publicado em 1914 e marcado por uma forte dimensão autobiográfica. Este título do Nobel de Literatura foi traduzido para o nosso idioma, pela primeira vez, em 1999, numa edição com o selo da Difel.
Escrito num período conturbado da vida do autor, pouco depois de uma viagem ao Oriente e enquanto enfrentava uma profunda crise conjugal com a sua primeira mulher, Rosshalde acompanha um pintor que vê o seu casamento desmoronar-se e se confronta com a solidão, o fracasso afectivo e a necessidade de reencontrar um sentido para a existência. 
Mais do que um romance sobre o amor ou a vida familiar, a obra retoma um dos grandes temas da escrita de Hesse: a busca interior do artista por um propósito que transcenda a criação estética e a simples contemplação da beleza.
Num registo intimista e profundamente reflexivo, Rosshalde (tradução de Paulo Rêgo e nas livrarias desde 23 de Junho) antecipa muitas das inquietações existenciais que viriam a tornar Hermann Hesse um dos escritores mais influentes do século XX.

Sinopse
Johann Veraguth é um pintor mundialmente famoso que vive numa propriedade luxuosa, chamada Rosshalde, juntamente com a sua esposa, Adele, e o seu filho mais novo, Pierre.
Apesar do sucesso profissional e da riqueza de que dispõe, a sua vida pessoal, marcada pela frieza emocional, por uma profunda fissura conjugal e por uma má relação com o filho mais velho, Albert, não corre de feição há muito tempo. Por essa razão, Veraguth passa a maior parte do tempo refugiado no seu atelier e nas pinturas que produz, isolado da família, chegando a tornar-se um estranho na sua própria casa.
A visita de um velho amigo, Otto Burkhardt - que questiona o estilo de vida de Johann e o convida a viajar -, acentua ainda mais a crise pessoal em que o artista se encontra. Dividido entre o seu apego ao filho Pierre, o único elemento que mantém a família unida, e o desejo de partir para alcançar a verdadeira liberdade criativa e pessoal, Veraguth tem de tomar decisões, mesmo quando tudo se começa a desmoronar.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Cavalo de Ferro reedita «Uma Biblioteca da Literatura Universal» de Hermann Hesse

Com tradução para português de Virgílio Tenreiro Viseu, Uma Biblioteca da Literatura Universal é uma das reedições que a Editora Cavalo de Ferro guardou para disponibilizar novamente nas livrarias durante este mês (Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson, e Emigrantes (Seguido de Pequena História de Emigrantes), de Ferreira de Castro, são os outros títulos que serão lançados também no decorrer de Fevereiro).

Este livro de Hermann Hesse, escritor alemão amado por gerações de leitores, autor de obras-primas como Narciso e Goldmund, é, segundo a editora: «Um livro fundamental, inédito em português, para todos os leitores que pretendam iniciar ou aprofundar o seu conhecimento na arte subtil da leitura.»

Texto sinóptico
Os livros são fonte de satisfação, de alegrias e de conhecimento, enriquecendo a nossa vida e aumentando o valor da nossa existência. Mas quantos de nós já não nos sentimos perdidos nessa floresta densa e por vezes hostil que é o mundo dos livros e da literatura? O que ler? Como encontrar o livro que secretamente procuramos?

Hermann Hesse guia-nos neste conjunto de textos fundamentais pela floresta de papel da literatura, introduzindo-nos à «magia do livro»: explica e ilustra com clareza o que significa encontrar um livro — acontecimento que pode ser tão ou mais importante do que o encontro com outra pessoa; ajuda-nos de forma simples e precisa no passo mais delicado e fundamental: a criação da nossa própria biblioteca; sugere-nos livros incontornáveis e explica-nos porque devemos travar conhecimento com eles; reflete de forma atualíssima sobre o universo da leitura e da escrita.

Excerto
«Uma pessoa irá descobrir dentro de si o amor pelos belos versos desde os primeiros anos da escola, outra descobrirá o amor pela história ou pelas lendas da sua pátria, outra, talvez o gosto pelos cantos populares, e outra ainda achará atraente e deliciosa a leitura daquelas obras nas quais ela vê serem observados com exactidão e interpretados com uma inteligência superior os nossos sentimentos mais íntimos. As vias são inumeráveis. É possível começar pelo livro de leitura escolar ou pelo almanaque, para acabar em Shakespeare, em Goethe ou em Dante.» (p. 12)
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Outro título publicado recentemente pela editora: Confissão de um Assassino, de Joseph Roth

quarta-feira, 14 de março de 2018

«Uma Biblioteca da Literatura Universal», de Hermann Hesse

Editora: Cavalo de Ferro
Data 2.ª edição: Fevereiro 2018
N.º de páginas: 112
«"Diz-me o que lês e eu dir-te-ei quem és" é verdade; mas conhecer-te-ia melhor se me dissesses o que relês.» Esta frase de François Charles Mauriac (1885-1970), Nobel de Literatura de 1952, vem à tona assim de terminada a leitura de Uma Biblioteca da Literatura Universal, obra ensaística de Hermann Hesse (1887-1962) inédita em Portugal até 2010, altura em que a Editora Cavalo de Ferro, numa tradução de Virgilio Tenreiro Viseu, a publicou.
Este livro com pouco mais de 100 páginas encantará todos os apaixonados pela leitura e pelos livros, porque, nas palavras do autor, quem «lê os livros como se ouvem os amigos, verá como esses revelarão os seus tesouros e se tornarão para ele uma posse íntima.»
Dos onze textos compilados neste livro, escritos entre 1907 e 1945, o primeiro, que dá título ao livro, é o mais sumarento a nível de abordagem ao mundo mágico dos livros. Nele, o Nobel de Literatura de 1946, seguindo a sua experiência de homem e de leitor, de forma despretensiosa, tenta descrever os títulos e autores que na sua óptica não devem faltar numa pequena biblioteca ideial da literatura universal.
Ressalvando que a escolha dos clássicos imorredouros será diferente de leitor para leitor, o autor de Viagem ao país da manhã, enumera títulos da literatura oriental, francesa, inglesa, espanhola, nórdica, russa e alemã, que para ele são de extrema importância para que os leitores possam entender o mundo e enriquecer as suas vidas: «(…) da mais remota antiguidade até à véspera dos nossos dias [1929], remexemos na literatura de vários povos, encontrando uma quantidade de obras dignas de serem admiradas e amadas.»
Para Hermann Hesse, as obras mais velhas são as que envelhecem menos. Pare ele, são indispensáveis na nossa biblioteca, por exemplo: Tao Te Ching, de Lao Tzu («um dos livros máximos da humanidade»), Confissões, de Santo Agostinho, A Divina Comédia, de Dante Alighieri, de Cervantes Dom Quixote («um dos livros mais grandiosos e, ao mesmo tempo, mais encantadores de todos os tempos»), de Goethe Werther, de Tolstoi Guerra e Paz («talvez o mais belo dos romances russos»).
Livros de autores como Confúcio, Shakespeare, Charles Dickens e Oscar Wilde, estão entre a tábua de clássicos aconselhados para leitura, grandes livros e escritores essenciais de todos os tempos.
Uma Biblioteca da Literatura Universal é um livro recheado de conselhos e afirmações inteligentes, ponderadas e refinadas, de um leitor que teve «muitos amores no mundo dos livros» e que ao viver entre os livros, viciou-se nestes desde muito cedo. O seu amor aos livros é contagiante — o autor de Siddhartha e Narciso e Goldmund afirma no último ensaio, datado de 1945 — ele tinha 68 anos — ter lido cerca de 10 mil livros, muitos dos quais alvo de releituras.


Excertos
«A leitura não deve, de modo algum, “distrair-nos”, mas sim concentrar-nos (…) contribuir para dar à nossa vida um significado sempre mais elevado e mais pleno.» (p. 10)

«O facto de nos obrigarmos a ler uma obra-prima só porque é celebérrima e nos envergonharmos de ainda não a conhecermos seria um grave erro.» (p. 12)

«Que cada um comece por aquilo que é capaz de compreender e de amar. Aprender a ler, no sentido mais elevado da palavra, nunca poderá ser feito por intermédio de jornais nem da literatura contemporânea, que nos aparece à mão, mas somente através das obras-primas.» (p. 46)

«Para determinar o valor que um livro pode ter para mim, o facto de o mesmo ser famoso ou de estar na moda não tem praticamente nenhum relevo.» (p. 48)

«Quem lê apenas por passatempo, por muito numerosas e belas que sejam as suas leituras irá esquecê-las rapidamente e dará por si pobre com dantes.» (p. 54)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

HERMANN HESSE, uma homenagem

Hermann Hesse nasceu a 2 de Julho de 1877 e morreu a 9 de Agosto de 1962.























O escritor foi laureado com o Prémio Nobel de Literatura em 1946 e deixou uma obra vasta.

Eis uma lista de algumas dessas obras publicadas em Portugal:

A única obra que li de Hermann Hesse foi Siddhartha, o seu livro mais conhecido.



«A maior parte das pessoas são como uma folha que cai, que flutua ao vento, que hesita e que caí no chão. Mas há outros, poucos, que são como estrelas, que seguem um rumo firme, nenhum vento os afecta, têm dentro de si as suas leis e o seu rumo





A hiperligação para a minha opinião sobre o livro.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Narrativas de Thomas Mann e Hermann Hesse são publicadas este mês

Publicada em 1930, Mario e o Mágico é uma das narrativas mais marcadamente políticas de Thomas Mann.
O narrador descreve uma viagem familiar à cidade costeira italiana de Torre di Venere. A família espera umas férias calmas, mas vai ser confrontada com os problemas políticos da Itália de Mussolini e, em particular, com os numerosos turistas de classe média que, nos meses de agosto e setembro, afluem a Torre di Venere.
Após diversos incidentes, a família assiste ao espetáculo do mágico Cipolla. Mas, mais do que um mágico, Cipolla revela-se um poderoso hipnotizador. Durante a sua representação, o narrador experimenta sentimentos desencontrados de receio e admiração, curiosidade e raiva perante alguém que se mostra capaz de tornar o público dócil, um pouco como Mussolini e outros ditadores europeus da época foram capazes de fazer.
Mario e o Mágico foi adaptado a ópera e ao cinema.

Escrito pouco depois do fim da Grande Guerra, O Último Verão de Klingsor relata a história de um famoso pintor, Klingsor, que experiencia uma explosão final de criatividade no último verão da sua vida. Agarra vigorosamente, com ambas as mãos, a taça da vida e bebe até não mais poder. Pintor expressionista orientado pela emoção, a entrega de Klingsor à arte é total pois considera que esta corporiza seu conceito de essência da vida. Amante dos extremos, como pessoa opõe-se violentamente à moderação e à mediocridade. Não gosta de planear nada com antecedência pois não acredita no amanhã e vive cada dia como se fosse o último.
Na vida tem apenas dois pontos centrais de interesse em que é bem-sucedido: criar arte e amar. Como Demian, Siddhartha, Goldmund e Joseph Knecht, Klingsor não é uma personagem vulgar. Atingiu um patamar de sucesso fora do comum na arte que escolheu e trabalha intensamente para manter esse nível. E, tal como outros heróis dos livros de Hermann Hesse, luta por trilhar o seu percurso individual e único para atingir o fim que se propõe na vida.
A história tem laivos autobiográficos, pois Hesse começou a pintar por volta de 1917 e O Último Verão de Klingsor foi escrito no verão de 1919. O livro é um auto-retrato da vida de Hesse durante esse ano, quando se instalou em Montagnola, uma aldeia nas montanhas de Ticino, para começar uma nova fase da sua vida, sem a mulher e os filhos.

terça-feira, 23 de abril de 2024

Leya publica romance de estreia de Alice Winn e o 2.º livro de Hermann Hesse


In Memoriam
é uma história de amor arrebatadora entre dois soldados na Primeira Guerra Mundial. Esta obra de Alice Winn, autora licenciada em Literatura Inglesa pela Universidade de Oxford, venceu o Prémio Waterstones de Primeiro Romance 2023. Edição Casa das Letras.


Texto sinóptico

Estamos em 1914 e falar de guerra parece algo distante para Henry Gaunt, Sidney Ellwood e os restantes colegas de turma, instalados em segurança no seu idílico colégio interno no campo inglês. Aos dezassete anos, são demasiado jovens para se alistarem e, de qualquer modo, Gaunt trava a sua própria batalha privada - uma paixão que o consome pelo seu melhor amigo, o sonhador e poético Ellwood - sem fazer ideia de que Ellwood está apaixonado por ele, e sempre esteve. Quando a mãe alemã de Gaunt lhe pede para se alistar como oficial no exército britânico para proteger a família dos ataques anti-alemães, Gaunt alista-se imediatamente, aliviado por poder escapar aos seus sentimentos avassaladores por Ellwood.
A frente é terrível e, embora Gaunt tente dissuadir Ellwood de se juntar a ele no campo de batalha, este depressa se apressa a juntar-se a ele, estimulado pelo seu amor pelos heróis gregos e pela poesia romântica. Em pouco tempo, os seus colegas de turma seguem-lhe o exemplo. Uma vez nas trincheiras, Ellwood e Gaunt encontram momentos fugazes de consolo um no outro, mas os seus amigos estão todos a morrer, mesmo à sua frente, e a qualquer momento podem ser os próximos.


Dom Quixote publica, agora numa nova edição revista, o segundo romance de Hermann Hesse.
Tendo despertado acesa polémica aquando da sua publicação, Hans - Sob o Peso das Rodas foi em 1906 recebida por Arthur Koestler - escritor e activista político judeu húngaro - como «um manual de instruções para pais, tutores e professores, que ensina, de um modo pragmático, a arruinar a vida de uma jovem criatura dotada».
Num tom mais optimista, após a leitura deste livro, Peter Handke - Nobel de Literatura 2019 - anotou no seu diário: «Através da escrita, conferir à juventude a dignidade que lhe foi negada em vida.»

Texto sinóptico
Narrativa em boa parte autobiográfica, segue a vida do jovem Hans, um rapaz inteligente e promissor que tenta corresponder às exigências e ambições que pai e professores nele projetam constantemente.
Levado a pôr de parte tudo o que lhe dava prazer nos tempos de infância — passada numa pequena cidade, algures entre o rural e o urbano, que em tudo se assemelha à Calw natal de Hesse —, Hans ingressa no seminário, para cumprir o que lhe é estabelecido. Aí torna-se amigo de um jovem rebelde que aspira a ser poeta, começa a imaginar outras possibilidades, mas acabará por ser conduzido ao esgotamento. Regressa a casa, envereda por outro caminho, o da vida prática, ainda conhece alguns dos seus prazeres, mas virá a sucumbir, esmagado sob o peso das rodas.
Crítica a um sistema de ensino repressivo, que uniformiza mentalidades e as liberta de quaisquer traços de individualidade, Hans é um ajuste de contas que Hesse faz com o seu próprio passado: muito do que aqui se lê foi experimentado pelo próprio autor no seu período de formação.

Do mesmo autor, encontram-se publicados títulos como Narciso e Goldmund, Ele e o Outro, DemianPeter Camenzind.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O romance de Hermann Hesse «Ele e o Outro» ganha nova edição


Na primeira semana do próximo mês é publicado pelas Edições Dom Quixote uma das primeiras narrativas do escritor galardoado com o Nobel de Literatura de 1946, Hermann Hesse. Segundo o biógrafo Joseph Mileck, Ele e o Outro é "a mais implacável das várias exposições autobiográficas de Hesse."
Klein und Wagner, de seu título original, foi publicado pela primeira vez, na Alemanha, em 1919. Em 1952, este título foi traduzido para o nosso idioma e publicado pela Guimarães Editores. Há muitos anos que se encontrava esgotado.


Texto sinóptico
Ele e o Outro conta a história de Friedrich Klein, um escriturário de meia-idade que desvia dinheiro ao patrão e foge para Itália. No entanto, Klein não é um criminoso comum, mas um burguês auto-alienado e atormentado, que apenas procura paz e realização pessoal. Enquanto reflete sobre o seu destino, Klein reconhece que a sua principal motivação foi a compulsão e o desejo de matar a mulher e os filhos, e que tal só poderá ser evitado se abandonar totalmente a sua antiga vida. Esta viagem sombria está associada ao nome de Wagner, o famoso compositor, e igualmente a um professor alemão que, em 1913, assassinou a mulher e os filhos.
Apesar da sua fuga, Klein não consegue ultrapassar a sua dor. Em vez de se sentir liberto, sente-se uma vítima dos seus próprios pensamentos e vê o seu cérebro como um caleidoscópio no qual as diversas imagens que rodam são orientadas pela mão de outra pessoa. Ao longo da história, Klein pondera várias vezes suicidar-se. Quando se encontra já em situação de desespero, conhece Teresina, uma jovem loura por quem se sente atraído, ainda que tenha sentimentos ambivalentes. Para Klein, algo em Teresina simboliza a vitalidade mas também uma ligação com o eterno feminino. Mas quando Teresina o questiona sobre o seu passado, ele recusa dar uma resposta clara e direta.

Do mesmo autor, encontram-se publicados pela Dom Quixote títulos como DemianPeter Camenzind.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Nova edição do romance de Hermann Hesse «O Jogo das Contas de Vidro»

Uma nova edição de O Jogo das Contas de Vidro, um clássico da literatura contemporânea, obra que valeu a Herman Hesse o prémio Nobel de Literatura em 1946, aterra nos escaparates livreiros amanhã. Esta obra do romancista e poeta alemão, fala sobre a complexidade da vida moderna. É uma publicação a cargo da Dom Quixote.

Texto sinóptico
Utopia situada no século XXIII, O Jogo das Contas de Vidro descreve uma comunidade mítica em que uma elite intelectual condensa todo o conhecimento disponível da matemática, música, ciência e arte num jogo elaboradamente codificado que define os valores da sociedade: o Jogo das Contas de Vidro.

Joseph Knecht, chefe supremo desta Ordem espiritual dedicada à procura do saber e do conhecimento absolutos, leva uma vida de constante autoconhecimento e de boas ações baseadas na negação dos excessos. Ao fim de anos, no entanto, acabará por notar a contradição existente entre a imobilidade do mundo que conhece e a fluidez do universo exterior. E a contradição resolver-se-á mediante uma decisão em que ele joga, de forma radical, a sua própria vida.

Hermann Hesse é autor, entre outros, de Narciso e Goldmund, O Lobo das Estepes e Siddartha, todos já publicados pelas Edições Dom Quixote.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

As mais recentes novidades da Nova Vega Editora

Chegaram recentemente às livrarias novos títulos (incluindo algumas reedições) de literatura estrangeira com o cunho da Nova Vega.
Contos de Amor
de Hermann Hesse

Tradução de Maria Adélia Silva Melo
Colectânea das mais belas histórias de amor escritas por Hermann Hesse em várias fazes da sua vida, algumas delas com fundo autobiográfico do próprio autor. O volume foi organizado cronologicamente de forma a que o leitor acompanhe a evolução dos sentimentos em diferentes idades. Começa no encantamento idealístico da juventude, passa pela união e compromisso, representados pelo casamento, e aborda outras formas de explanar o afecto maior, quer a um nível platónico quer ao abrigo do amor abnegado do próximo, sem parceiro definido. A intemporalidade dos contos, a atmosfera e ambiente retratados, a clareza de cada enredo, a profundidade e o rigor na observação psicológica e a elegância da escrita, fazem desta obra um marco da moderna literatura alemã. Segundo Thomas Mann, a obra de Hesse «eleva o familiar a um novo nível espiritual, que pode ser denominado de revolucionário, não em termos políticos e sociais, mas num sentido psicológico e poético; é verdadeira e autenticamente aberta e sensível ao futuro.»
«O dia Julho meridional caiu resplandecente, as montanhas nadavam em fantasmagorias de Verão com cumes rosados, nos campos crescia abafada a vegetação rasteira, o milho gordo e alto erguia-se pujante, muitas searas já tinham sido ceifadas, no barulho da poeira tépida e farinhenta da estrada corriam, doces e maduros, vindos dos campos e dos jardins, muitos aromas de flores. No verde espesso a terra ainda guardava o calor do dia, as aldeias irradiavam dos frontões dourados um reflexo quente para a escuridão que tombava.» Primeiro parágrafo do conto O que o poeta viu à noite.


Um Quarto que Seja Seu
de Virginia Woolf

Tradução de Maria Emília Ferros Moura
«Uma mulher tem de dispor de dinheiro e de um cantinho seu, para poder escrever ficção – Virginia Woolf». Um Quarto Que Seja Seu nasceu de duas dissertações subordinadas à temática «A Mulher e a Ficção», proferidas pela autora nas universidades femininas de Newnham e Girton, em Cambridge. Nelas Woolf reflecte sobre os efeitos que as condições de vida das mulheres têm sobre o que escrevem — a sua sujeição intelectual. Contudo, esta obra, plena de subtileza e espírito, é muito mais do que um ensaio sobre as mulheres e a ficção; trata-se de uma construção arquitectónica de ideias de todo o género, habilidosamente dispostas como ilustração do tema central.
«Virginia Woolf mergulha numa visão negra, duma época fascista, totalmente masculina. Mas apressa-se a acrescentar que a "culpa" é de um e de outro sexo. Dozendo que Shakespeare é andrógino porque o génio é andrógino, Virginia Woolf volta a sublinhar que, pelo menos no que respeita a sexo, não existe literatura da boa, da autêntica, e que seja simultaneamente contestatária ou panfletária. (...) Virginia Woolf conseguiu evitar os alienantes sentimentos de ódio e medo, conseguiu o seu ideal de escrita íntegra sem contestações. Mas o preço foi o desespero, a morte.» Maria Isabel Barreno, in prefácio


A Voz do Silêncio
de Helena Blavatsky

Tradução de Fernando Pessoa
(…) As páginas seguintes são extraídas do Livro dos Preceitos Áureos, uma das obras lidas pelos estudiosos do misticismo no Oriente. (…) O Livro dos Preceitos Áureos (…) contém noventa pequenos tratados distintos. Destes aprendi de cor (…) trinta e nove. Para traduzir os outros, teria de me referir a apontamentos dispersos entre um número de papéis e notas, representando um estudo de 20 anos e nunca postos em ordem, demasiado grande para que a tarefa fosse fácil. Nem poderiam eles ser, todos, traduzidos e dados a um mundo por demais egoísta e atado aos objectos dos sentidos, para que pudesse estar preparado a receber, com a devida atitude de espírito, uma moral tão elevada. Porque, a não ser que um homem se entregue perseverantemente ao culto do conhecimento de si próprio, nunca poderá de bom grado dar ouvidos a conselhos desta natureza. (…) Nesta tradução esforcei-me por conservar a beleza poética da expressão e das imagens, que caracteriza o original. Compete ao leitor avaliar até que ponto o consegui. (Da tradução inglesa - Helena Blavatsky)


Tao Te Ching
de Lao Zi

Tradução de António Graça de Abreu
O Tao Te Ching será, depois da Bíblia, o texto mais traduzido em todo o mundo. É uma afirmação que há muitos anos corre meio planeta. Porquê? O que levará qualquer simples, obtuso ou rebuscado cidadão da Terra a interessar-se pela obra de Lao Zi, a tentar caminhar por dentro dos oitentas e um capítulos do Tao Te Ching, em busca de todos os encantamentos e magias? Exactamente isso, o deslumbramento por dentro das palavras, a serenidade complexa, os conceitos e imagens a fluir por entendimentos capazes de tudo abarcar, e que são sempre parcelares e limitados. Os capítulos do Tao Te Ching formam um todo, um desafio constante à inteligência e sensibilidade de cada um, uma proposta para caminharmos por vias nunca e sempre percorridas. Constituirão uma companhia sagaz e exaltante para nos desdobrarmos, nos perdermos e nos reencontrarmos, no inefável, antigo e eternamente novo da, três vezes milenar, sabedoria chinesa.
Outras novidades editoriais da Nova Vega:
O Esoterismo de Dante Seguido de São Bernardo, de René Guénon
A Pedra e a Nuvem, de Raul Brandão
Sob o Signo de um Deus Menor, de Assírio Bacelar
A Maçonaria Portuguesa e a Grande Guerra (1914-1918), de António Ventura
Confluências - Estudos de literatura Portuguesa, de Manuel Simões

quarta-feira, 30 de março de 2016

Em Abril sai nova edição de «Narciso e Goldmund», de Hermann Hesse

Narciso e Goldmund
de Hermann Hesse

Data de publicação: 26/04/2016 | Páginas: 360 | Editora: Dom Quixote
Sinopse
Narciso é professor em Mariabronn, um convento emblemático da Alemanha medieval, e Goldmund o seu discípulo favorito. Enquanto Narciso permanece isolado do mundo, em voto de devoção, levando uma vida de oração e meditação, Goldmund decide sair do convento a fim de explorar a vida mundana e o amor. Após percorrer um caminho pícaro e errante de andarilho, cheio de venturas e amores pelas mais variadas mulheres que resultaram ora em dor ora em paixão, o seu regresso e derradeiro reencontro com Narciso traz à tona as diferenças entre ambos - um o artista, o outro o pensador.
Narciso e Goldmund, como a maioria das obras de Hesse, centra-se na busca do conhecimento interior dos seus protagonistas, assim como na procura da união dos opostos.
Narciso representa a ciência, a lógica e Deus (o lado masculino), e Goldmund representa a arte e a natureza (o lado feminino).
Outras novidades editoriais da Dom Quixote para o mês de Abril:
O Amor em Lobito Bay, de Lídia Jorge
Vida de Ramon, de Luísa Costa Gomes
Gramática do Medo, de Maria Manuel Viana e Patrícia Reis
Trilogia da Mão, de Mário Cláudio
Prosa, de Mário de Sá-Carneiro
Sobre a Finitude, de Günter Grass
O Gerente da Noite, de John le Carré

sábado, 24 de julho de 2021

«Peter Camenzind», de Hermann Hesse

Editora: Dom Quixote
Data de publicação (4.ª edição): Maio de 2021
N.º de páginas: 208

«No princípio, era o mito. E assim como o grande Deus fazia poesia na alma dos hindus, gregos e germanos, procurando expressar-se, assim de novo ele faz poesia, dia após dia, na alma de cada criança.» Este é o incipit do primeiro romance, publicado há 117 anos, do alemão Hermann Hesse. Nesta obra, traduzida para o nosso idioma por Isabel de Almeida e Sousa, o autor aborda alguns dos temas que estariam presentes nos seus romances posteriores (como Demian, Siddartha e O Lobo das Estepes).
O protagonista da história, que é também o narrador da mesma, é um jovem camponês que cresce numa pequena povoação alpina, onde «montanhas, lago, tempestade e sol» eram os seus únicos amigos, que lhe falavam e educavam – pois a mãe morre cedo e o pai deixa-o por sua conta. É na observação dos pequenos detalhes e esplendores da natureza, que Peter se sente em paz: «não conhecia nada de mais belo que vaguear ociosamente por sobre as rochas e veigas, ou junto ao mar.» Todavia, com o findar dos anos de maturação juvenil, uma ânsia incomensurável começa a brotar no íntimo deste rapaz solitário, forte e sensível.

«... o dia chegou e eu parti…»

Assim tem início a primeira das suas jornadas intelectuais, físicas e espirituais. No decurso dessas viagens e experiências mundanas, o protagonista conhece artistas, literatos, músicos, pintores, percorre maus caminhos e no entremeio, aprende o que significa amar outros seres humanos e depara-se com vicissitudes e adversidades. Muitos anos volvidos, o protagonista diz que «o sofrimento, as desilusões e a melancolia não existem para nos deixar contrariados e fazer-nos perder o valor e a dignidade, mas para amadurecer e transformar.»
Peter Camenzind é um romance escrito de uma forma poética, rico em vocabulário esmerado e cujo enredo está pleno de dualidades e antagonismos. Impressiona saber que num primeiro trabalho, Hesse, então com 27 anos, já apresentava uma compreensão madura sobre a complexidade do ser humano.
Há alguns anos esgotado, a Dom Quixote teve a excelente decisão de reeditar Peter Camenzind, uma obra que mantêm-se, mais de 100 anos depois, intemporal.

Excertos
«Mais severa e profundamente, impressionava-me a visão das árvores. Via cada uma delas fazer a sua vida, criar a sua forma e copa particulares, e lançar a sua sombra própria. Pareciam-me eremitas e combatentes… tratava a sua silenciosa e tenaz batalha pela existência e crescimento, contra ventos, tempestades e rochas.»

«O espelho alegre e límpido da minha alma era de vez em quando ensombrado por uma espécie de melancolia.»

«…eu olhava sempre com maior avidez a profundeza das coisas. Escutava o vento a ressoar em acordes nas copas das árvores, ouvia ribeiros bramando nas gargantas e correntes plácidas e silenciosas espraiarem-se por planícies, e sabia que estes sons eram a voz de Deus e que compreender esta linguagem obscura e primordialmente bela seria reencontrar o paraíso.»

sábado, 14 de setembro de 2019

«Demian», de Hermann Hesse

Editora: Dom Quixote
Data de publicação (4.ª edição): Agosto de 2019
N.º de páginas: 192
Edição comemorativa dos 30 anos de lançamento em Portugal, pelas Publicações Dom Quixote, de Demian, um dos romances mais icónicos de Hermann Hesse (1877-1962). 2019 é simultaneamente o ano em que se assinala 100 anos desde que esta obra foi publicada pela primeira vez na Alemanha. Curiosamente, só anos mais tarde é que Hesse revelou ser ele o autor da obra, visto que a mesma foi assinada sob o pseudónimo de Emil Sinclair, o nome do protagonista e narrador da história.
Desde a infância até ao início da vida adulta é apresentado ao leitor o processo incessante de busca de respostas, de um jovem atormentado pela falta de explicação às suas questões sobre tudo quanto existe.
Sinclair nasce numa família extremamente religiosa e com ideologias sobre o mundo muito «límpidas». Desde cedo mostra-se incapaz de perceber e coadunar com esse pensamento unicamente benfazejo sobre as pessoas e suas acções. «No meio da paz e da ordem da nossa casa, eu vivia como um fantasma, assustado e torturado.»
O seu ensejo de realização interior e pelo autoconhecimento, e de vivenciar os lados opostos e duais (o bem e o mal), é começado a ser trilhado, assim que ele se vê livre das perseguições e ameaças (100 anos depois de escrito, a palavra mais apropriada é bullying) de Franz Kromer, um perverso e maléfico rapaz, um pouco mais velho que Sinclair: «o demónio tinha tomado a minha mão e eu era, agora, perseguido pelo inimigo».
A agonia e desespero deste jovem apenas termina quando conhece Max Demian, um novo colega de classe, perspicaz, inteligente, empático, de olhar «pétreo», que tinha o dom de ler o pensamento dos outros através da observação: «Observa bem uma pessoa e passarás a conhecer a sua personalidade melhor do que ela própria.» Assim nasce uma amizade entre estas duas almas novas solitárias, sedentas de respostas sobre assuntos como a fé, a moral e a sexualidade.
Mesmo quando Sinclair ingressa noutra escola e pela primeira vez sai de casa, a influência deste seu grande amigo - Demian era uma espécie de mensageiro de aguçada maturidade, que instigava-o a pensar por moto próprio – não deixa de ser sentida nos anos seguintes, quando o protagonista encalça por uma fase boémia, mas também de profunda alienação: «O meu objectivo não era já a libertinagem, mas a pureza, não o sucesso e sim a beleza e a espiritualidade».
Outro amigo, o esotérico e organista Pistórius, aparecerá também no caminho de Emil Sinclair, para influir os seus pensamentos filosóficos e gnósticos (sobre Abraxas) na curta e simultaneamente densa jornada de descoberta interior do narrador, que «não fora fadado para respirar na abundância e no conforto, necessitava dos tormentos». Com 18 anos «era um jovem diferente do comum, precocemente amadurecido».
Com uma excelente tradução de Isabel de Almeida e Sousa (introduz várias notas de rodapé muito pertinentes e de valiosa ajuda ao leitor), Demian é uma obra de carácter faustiano, onde o escritor alemão, através de uma escrita rica e elíptica, foca-se no tema da busca pelo autoconhecimento dentro dos limites impostos pela família, religião e sociedade em geral. É um romance onde estão tácitos os pensamentos de Nietzsche e Carl Jung, de quem o autor de Narciso e Goldmund era partidário.
A existência do bem e do mal, e de que todo o ser humano tem imbuídas em suas veias as características de ambos estes polos, é o grande tema e reflexão deste belo romance, que reúne algumas frases bem ilustrativas da profundidade do pensamento do seu autor.
Como em outros livros do vencedor do Nobel de Literatura de 1946, em Demian o protagonista precisa sair do seu ninho, da sua ilha, para ver a ilha: «não nos vemos se não saímos de nós.» (José Saramago)

Excertos
«As pessoas decididas e de carácter surgem, aos olhos das outras, como assustadoras.» (p. 37)

«Não há necessidade de ter receio de ninguém e, se o temos, é porque alguém conseguiu alcançar poder sobre nós.» (p. 45)

«… dentro de nós, há um ser que tudo sabe, tudo quer, tudo realiza melhor do que nós próprios» (p. 96)

«Há que não recear, nada considerar proibido de entre aquilo por que a alma apela.» (p. 125)

«Ao odiar uma pessoa, detestamos, na sua imagem, algo oculto em nós próprios. O que em nós se não encontra, não nos incomoda.» (p. 125)