segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

«Quartos Separados», de Pier Vittorio Tondelli

Editora: Clube do Autor
Data de publicação: 27-08-2025
N.º de páginas: 240

Depois de várias décadas fora de catálogo, o livro mais icónico de Pier Vittorio Tondelli (1955-1991), regressou às livrarias. Publicado originalmente em 1989, sob o título Camere separate, o romance foi editado em inglês em 1992 e publicado em Portugal em 1993 pela Dom Quixote. O relançamento internacional em 2025 veio reafirmar o estatuto da obra como referência central da literatura gay, em diálogo evidente com títulos como O Quarto de Giovanni, Deixa-te de Mentiras e Maurice. O romance abre com a deslocação de Leo, escritor italiano, a Munique, para se despedir de Thomas, jovem músico alemão e seu companheiro durante três anos. No presente narrativo, Leo tem 32 anos e vive só desde a morte de Thomas, ocorrida dois anos antes; a narrativa oscila continuamente entre este tempo de luto e as analepses que revisitam a relação, quando Leo tinha 29 anos e Thomas 25. Esta estrutura fragmentária, assente no vaivém entre passado e presente, substitui a progressão narrativa por um movimento reflexivo e memorial. 
Com um ritmo deliberadamente lento, Quartos Separados constrói-se como uma elegia do luto, onde o amor é concebido como força absoluta e incontornável — «O amor é absoluto, não é possível comandá-lo, evitá-lo, guiá-lo. O amor é totalidade e plenitude.» — e, por isso mesmo, como experiência inevitavelmente dolorosa. 
A prosa de Tondelli revela grande sensibilidade poética e lucidez emocional, mas o romance não está isento de fragilidades. A insistência introspectiva, por vezes, conduz à redundância, e há parágrafos — mesmo páginas — que poderiam ser purgados sem prejuízo do núcleo temático, enfraquecendo momentaneamente a tensão literária. 
A leitura do romance ganha um peso adicional à luz da biografia do autor, que morreria apenas dois anos após a publicação do livro, vítima de SIDA. Sem reduzir a obra a um documento autobiográfico, esse dado confere-lhe uma ressonância trágica suplementar, tornando particularmente incisivas as reflexões sobre a morte, a solidão e a precariedade do amor. 
Quartos Separados afirma-se, assim, como um romance exigente e profundamente pessoal, cuja importância reside menos na construção narrativa do que na clareza com que transforma o luto e a marginalidade numa meditação literária sobre a condição humana. Uma obra marcante, que continua a desafiar o leitor pela sua honestidade emocional e ambição reflexiva.

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