sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Entrevista a João Carlos Melo


É psiquiatra, psicoterapeuta e grupanalista, sendo considerado uma referência nacional na área da saúde mental. 
Assistente Graduado do Hospital Fernando Fonseca, onde coordena o Hospital de Dia do Serviço de Psiquiatria, João Carlos Melo é também autor de numerosos artigos científicos. Desde sempre manteve o
 fascínio por compreender o funcionamento mental, bem como os meandros da natureza humana.

Nesta entrevista, partilha a sua visão sobre os desafios atuais da psiquiatria e o papel de novas abordagens terapêuticas, como o uso de psicadélicos. Analisa também a forma como as doenças mentais são percecionadas e tratadas em Portugal; critica a abordagem frequentemente simplista e pouco rigorosa que o tema recebe nos meios de comunicação; reflete sobre a “ilusão de comunicação” gerada pelas redes sociais; e comenta a presença de indivíduos com traços psicopáticos em posições de chefia, que recorrem ao assédio moral no ambiente laboral, entre outros tópicos. 

Renascer das Cinzas, lançado em junho pela Bertrand Editora, é o mais recente livro de João Carlos Melo, escrito em coautoria com Maria C., sua paciente. A obra analisa três perturbações psicológicas complexas e estigmatizadas, com destaque para a Síndrome de Munchausen, uma grave doença, a de pior prognóstico de todas as doenças psiquiátricas, caracterizada pela simulação de sintomas para obter atenção médica. João Carlos Melo é um dos poucos psiquiatras no mundo com experiência no tratamento desta patologia. 

Miguel Pestana | Fotos: DR 
........................................................................................
 

Quando tomou a decisão de seguir a carreira de médico psiquiatra? 
A minha curiosidade sobre o comportamento das pessoas e o seu funcionamento mental remonta a um tempo em que ainda nem tinha decidido que queria ser médico. E quando entrei para Medicina já era claro que queria ser psiquiatra.  
Mas não me contentei em ser apenas psiquiatra. Quis também ser Psicoterapeuta e Grupanalista, e foi nesse sentido que fiz formações longas e rigorosas que me têm sido muito úteis, não só profissionalmente, mas também como pessoa. 

Em 2025, qual considera ser a doença mental mais prevalente em Portugal? 
As doenças mentais propriamente ditas não são mais frequentes em Portugal do que noutros países, mas neste campo há um pormenor de grande importância, como mostra um estudo concluído há dez anos e que ainda se mantém atual. 
Esse estudo, coordenado por Caldas de Almeida e Miguel Xavier, psiquiatras e professores universitários de renome, concluiu que, a par da Irlanda do Norte, Portugal é o país Europeu com mais alta prevalência de perturbações psiquiátricas (22,9 %). Por curiosidade: essa prevalência chegou aos 27 % nos Estados Unidos e a 29,6 no Brasil.  
Mas é importante referir que estas “perturbações mentais”, como lhes chamei, não correspondem a doenças propriamente ditas, como Esquizofrenia ou Doença Bipolar, mas antes a queixas emocionais e queixas físicas associadas a sintomas de ansiedade e depressão. 
Nos nossos dias fala-se mais de Perturbação Borderline e PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção), em parte porque são mais frequentes e em parte porque são mais diagnosticadas do que eram.  

O nosso país regista uma das maiores prevalências de doenças psiquiátricas na Europa, o que se traduz num consumo elevado de psicotrópicos. Qual é a sua opinião sobre esta situação?
Esta é uma questão da maior pertinência porque ela tem sido perturbada por pontos de vista que têm por detrás muita ignorância, preconceitos e estigma.  
É claro que o elevado consumo de psicotrópicos deriva diretamente da alta prevalência de situações clínicas em que predominam sintomas ansiosos e depressivos, mas a questão que podemos levantar é esta: a prescrição destes medicamentos é excessiva? Poderia ser menor se, em vez dessas prescrições, as pessoas fizessem psicoterapia? 
Aqui está um ponto fulcral, mas, ao mesmo tempo, aquele onde começam os problemas. Numa tentativa de clarificar a questão, há duas ideias importantes que, na minha opinião, são factuais.  Em primeiro lugar, os medicamentos que atuam nos sintomas ansiosos e depressivos são eficazes e seguros. Por outro lado, a maioria dos psiquiatras e psicólogos não tem uma formação psicoterapêutica idónea.  
Em função destes factos, muitos psiquiatras limitam-se a prescrever fármacos e muitos psicólogos fazem o que chamam psicoterapias sem possuírem formação específica para tal.  Outra consequência deste estado de coisas é a desinformação e os preconceitos em relação aos psicofármacos. Já houve quem me tivesse perguntado se eu era “a favor ou contra os medicamentos da psiquiatria”. E já me deparei com pais que recusaram que os filhos fossem medicados, com a alegação de “não concordarem” com os medicamentos. Seria como, perante a prescrição de um antibiótico para tratar uma pneumonia, uma pessoa o recusasse, com o argumento de ser “contra os antibióticos”.  
Diante de tudo isto, penso que deverão ser o conhecimento baseado na ciência e o bom senso a nortear-nos.  
Tem sido comprovado sem margem para quaisquer dúvidas que, na maioria das situações, não faz sentido considerar uma oposição entre a medicação e a psicoterapia, embora deva haver um maior predomínio de uma ou da outra conforme os casos.  
Há pessoas, entre as quais alguns técnicos de saúde mental, que são “contra” a medicação, sob a alegação de se estar a “tapar” ou “disfarçar” o problema em vez de o tratar - seria como um “penso rápido”, dizem, que impede de ir à “causa” do problema. Esta ideia, e os procedimentos em conformidade, levam a situações de sofrimento prolongado e inútil, impedindo as pessoas de verem os seus sintomas e a sua qualidade de vida melhorados. Nesses casos, aliviados esses sintomas e o consequente sofrimento, a pessoa estará mais livre e disponível para empreender uma psicoterapia.  
Na prática, para certos problemas mentais, o único técnico preparado para estabelecer se há indicação para prescrição medicamentosa deverá ser o psiquiatra - do mesmo modo que, perante  certos problemas de saúde, deverá ser um cirurgião, e não outro médico qualquer, a determinar a necessidade, ou não, de uma intervenção cirúrgica.  
Posto tudo isto, o que digo é: haja bom senso, defenda-se o conhecimento científico e acabe-se com os preconceitos, o estigma e a ignorância.  Bem sei que não é fácil, mas penso que é esse o caminho.  

Nos últimos anos, a saúde mental tem ganho maior visibilidade nos meios de comunicação. O Dr. João Carlos Melo considera que esta exposição é, maioritariamente, tratada de forma rigorosa ou simplista? 

Na minha opinião é tratada predominantemente de uma forma simplista e pouco rigorosa. Os meios de comunicação preferem passar a ideia de que, com força de vontade e querer, é fácil as pessoas superarem-se, transformarem-se nas suas melhores versões e seguirem estratégias e fazerem exercícios e levarem a cabo tarefas simples para se tornarem saudáveis.  
Não é popular falar de doenças graves. Não é popular falar de casos reais de uma forma realista e não espetacular. Não é popular falar da falta gritante de cuidados psiquiátricos nas prisões. Não é popular falar de forma clara (e não espetacular) de algumas das maiores pragas que afetam o nosso país: o bullying, a violência doméstica e os abusos sexuais.  

O Infarmed aprovou recentemente o primeiro psicadélico para depressão grave a ser utilizado em meio hospitalar. Acredita que estas substâncias poderão revolucionar a psiquiatria? 
Revolucionar, não digo, mas serão (e já estão a ser) um valioso contributo para o tratamento de depressões graves.  

O seu mais recente livro, Renascer das Cinzas, chegou às livrarias no início de Junho. O que o motivou a abordar, num livro, de forma tão aberta, três perturbações ainda pouco compreendidas e muito estigmatizadas — Transtorno de Perturbação Borderline, Síndrome de Munchausen e Mentira Patológica? 
Sobre a Perturbação Borderline já tinha escrito em Reféns das próprias emoções.  
A Mentira Patológica será, muito provavelmente em breve, considerada uma doença. É importante conhecê-la e não a confundir com a mentira levada a cabo pelos psicopatas. Creio que não há nenhum livro português sobre o tema.  
E a Perturbação Factícia (ainda mais conhecida como Síndrome de Munchausen), embora seja conhecida superficialmente pelos psiquiatras, porque já ouviram falar dela, é ainda muito mal conhecida. Estou convencido, pelo muito que estudei da doença, que sou dos únicos psiquiatras do mundo já com alguma experiência em tratar esta gravíssima doença, a de pior prognóstico de todas as doenças psiquiátricas. 
Estas são razões mais que suficientes para justificar a escrita deste livro. Mas Renascer das Cinzas não se limita a dar-lhes a conhecer. Ele fala do caso real de uma paciente vitimada por estas três doenças. E foi escrito em co-autoria com ela. 

A Síndrome de Munchausen é descrita por si como «a mais perturbadora, devastadora e intrigante das doenças [mentais]», mais difícil de tratar do que a esquizofrenia. Tendo em conta a sua experiência, o que a torna tão desafiante? 
Sabe-se muito pouco sobre esta doença. E a principal razão é a falta de colaboração dos próprios pacientes afetados por ela. Eles mentem, enganam e não admitem ter a doença. Quando percebem que estão a ser “apanhados”, desaparecem e mudam de médico, de hospital, de cidade, e, em alguns casos, até de país. 
Ainda que seja conhecida por basear-se em comportamentos que visam apenas enganar os médicos (fingindo que estão doentes e provocando doenças em si próprios, quando sabem muito bem que não estão doentes), o que leva a estes comportamentos é um sofrimento insuportável e incomunicável, ao ponto de, segundo alguns estudos, fazer com que até 70 % dos doentes acabe por se suicidar. 

No livro, Maria partilha: «inventava sintomas só para ter cuidados médicos e não me sentir tão sozinha». Como terapeuta, como se trabalha uma solidão tão enraizada que leva a este tipo de comportamento? 
A principal medida terapêutica é não abandonar o doente. E aceitar que, para o ajudar, é necessário aguentar as mentiras e os enganos.  
A questão é: como é possível confiar em alguém que nos mente e engana? E a resposta é: não abandonando o doente. Não há outra forma. Depois, é fundamental aguentar a solidão do doente e estar preparado para acolher e conter um vazio e um desamparo que são quase incompatíveis com a vida e angustiantes para o próprio terapeuta. 

Em que momentos percebeu que algo estava verdadeiramente a mudar na paciente — progredindo para aquilo que descreve como uma «extraordinária e inédita recuperação», um caso raro de superação da Síndrome de Munchausen? 
Não foi de um momento para o outro. Foi um processo. Os momentos decisivos foram quando começou a ser possível falarmos de “mentiras” e de “Munchausen”, porque de início eram palavras tabu e ela não só não admitia falar disso, como não admitia que mentia e que tinha comportamentos factícios.  
As mentiras não acabaram de um momento para o outro. Mas, desde o início, e sempre, a sua determinação em melhorar e a sua tenacidade em prosseguir a psicoterapia foram os fatores mais decisivos. Tal como a minha determinação, o meu empenho e a minha dedicação. 

No final do livro, Maria fala em «superação» e o Dr. João Carlos Melo refere que esta paciente «venceu» a doença, mas o próprio texto menciona um internamento recente, em março de 2025. Considera que é possível falar em cura antes de um período prolongado sem sintomas?
São palavras e conceitos muito delicados. Vejamos em concreto. O vazio, o desamparo, o sofrimento, a dificuldade em regular as emoções, a baixa autoestima e a excruciante angústia de abandono (próprios da Perturbação Borderline) melhoraram muito e continuam a melhorar, mas não desapareceram, como é próprio da doença.  
A Mentira Patológica e a Síndrome de Munchausen são doenças comportamentais, se assim se pode dizer. Os comportamentos que as caracterizam deixaram de existir há muitos meses. É discutível dizer que está curada. Mas não apresenta manifestações das doenças.  
Vejamos a seguinte situação. Imaginemos o caso de um indivíduo que esteve dependente do álcool e abusou do seu consumo, digamos, entre os 20 e os 40 anos. Depois deixou de beber. Hoje tem 80 anos e continua sem beber. Devemos considerar que, uma vez alcoólico, será alcoólico toda a vida, beba ou não beba? As suas fragilidades e a predisposição para beber não desapareceram, mas o consumo já não existe. Está curado ou não? 
Voltemos ao caso da Maria. Depois de muitos meses sem mentiras nem comportamentos factícios, ela foi vítima de circunstâncias muito adversas da sua vida, que lhe provocaram muito sofrimento e um episódio depressivo. 
Noutros tempos, em situações similares, a saída mais fácil seria voltar àqueles comportamentos. Mas desta vez não o fez. Como um alcoólico que renuncia à bebida ou um toxicodependente que renuncia à droga, a Maria aguentou tudo “a frio” e renunciou aos ditos comportamentos. Mostrou que tinha superado as duas doenças. Mas o preço a pagar foi uma depressão grave e uma tentativa de suicídio que requereram um internamento. 
Neste momento está bem e sem qualquer sintoma. Até quando? Ninguém pode dizer. Mas temos os dois uma crença e uma convicção muito fortes de que será para sempre. 

Na sua prática clínica, já se deparou com algum caso de Transtorno Factício Imposto a Outro, também conhecido como Síndrome de Munchausen por Procuração ou Síndrome de Munchausen by proxy? 
Não. Nunca aconteceu.  

A Mentira Patológica ainda não é reconhecida formalmente como doença. Quais implicações isto traz para o diagnóstico e o tratamento? 
Estou convencido de que quando for reconhecida formalmente como doença, ela será mais conhecida e o diagnóstico será mais fácil. Depois será necessária uma atitude mais tolerante e mais compassiva por parte dos terapeutas e de todas as pessoas que lidam com a pessoa afetada pela doença. 

Numa das passagens mais bonitas do livro, escreve que a escuta atenta e empática facilita a verbalização e proporciona ao paciente a oportunidade de ser efetivamente compreendido. Considera que esta é a base do trabalho em qualquer psicoterapia? 
Penso que essa é uma base fundamental. Mas também são requeridas outras atitudes: paciência, empenho, dedicação, empatia e compaixão. 

Carl Rogers (1902–1987) via a relação paciente–terapeuta como o elemento central e mais transformador no processo terapêutico. Na visão deste psicólogo humanista, o terapeuta não é «o especialista que cura o paciente», mas um facilitador do crescimento pessoal. Concorda?
Plenamente. Uma psicoterapia é um trabalho conjunto de duas pessoas, que cooperam, cada uma com as suas funções específicas, mas em que a responsabilidade deve ser sempre assumida pelo terapeuta.  



Como decorreu o processo de coautoria? Quais foram os maiores desafios na escrita conjunta?
 

Aquilo que viria a ser o embrião de um possível livro (antes ainda de pensarmos nisso) foram algumas mensagens e e-mails que íamos trocando. A Maria respondia a questões que eu lhe colocava e ia correspondendo aos pedidos que eu lhe fazia para colocar em palavras o que sentia. Da minha parte estudava as doenças e tomava notas para as compreender melhor.  
E quando começámos a perceber que podíamos dar corpo ao processo terapêutico através de um livro, falámos sobre isso e fomos amadurecendo a ideia. 
Houve depois uma altura em que percebemos que a própria existência de um livro poderia servir de incentivo para lutarmos ainda mais pela recuperação. E, assim, livro e psicoterapia passaram a funcionar como aliados, digamos assim, um do outro. 

Espera que o livro contribua para reduzir o estigma associado a doenças mentais particularmente graves, pouco conhecidas e compreendidas? 
Esse foi um dos objetivos. E, particularmente da parte da Maria, o seu grande objetivo foi ajudar outras pessoas que sofriam como ela, dar-lhes esperança e incentivá-las a não ter medo de pedir ajuda. 

Que tipo de comentários ou feedback tem recebido dos leitores e da comunidade clínica? 
Os comentários têm sido excelentes e muito gratificantes.  
Mas há um pormenor que lamento. Recebemos convites de programas televisivos de grande audiência para uma entrevista. Seria uma forma gratificante de darmos a conhecer o livro e o caso e de podermos ajudar muitas pessoas. Mas como a Maria, para preservar a sua privacidade e a da sua família, pediu para não aparecer e para a entrevista ser só comigo, não aceitaram. Resultado: desfizeram o convite! Este é um exemplo do que disse atrás: que não é popular falar de casos reais de uma forma realista e não espetacular. 
Há programas que preferem outras coisas. Por exemplo: casos falsos de falsas recuperações, mas que são mais espetaculares. Eu especifico melhor: as pessoas com Síndrome de Munchausen procuram apenas uma coisa: a atenção e os cuidados dos médicos e/ou de familiares e amigos; mais nada. Mas há outras que, apresentando casos parecidos, têm como objetivo ter algum tipo de ganho material: pensões, subsídios, donativos, venda de livros, divulgação da imagem nas redes sociais e parcerias com marcas e empresas. Isto corresponde a uma entidade clínica chamada “Simulação”. 
Estes casos, que por vezes divulgam falsas recuperações (porque nunca estiveram doentes), são mais apelativos; e, cá está, vendem mais e dão mais audiências. 

No seu livro Nascemos Frágeis e Recebemos Ordens para Sermos Fortes, escreve sobre o transtorno de personalidade narcisista. Quais são as principais causas e como se procede ao tratamento? 
Temos de ter em conta uma componente genética na génese das doenças mentais. Nesse sentido alguns estudos têm sugerido a importância desse fator em várias características narcísicas. Mas os fatores interpessoais têm um peso grande, que devemos valorizar.  

Todos nós precisamos de ser investidos narcisicamente. Isto significa vivermos a experiência de sermos importantes e especiais para alguém (os nossos pais ou seus substitutos e, depois, as pessoas mais significativas da nossa vida), sermos elogiados e sentirmos que somos reconhecidos e valorizados por sermos como somos. 
Estas experiências contribuem para desenvolvermos uma boa autoestima. Quando as coisas acontecem ao contrário, a autoestima será frágil e, quando sujeita a ataques ou feridas, levará ao desenvolvimento de características narcísicas. 
Há dois grandes grupos dessas características, que levam a dois modos diferentes de funcionamento narcísico.  De um lado temos aquelas pessoas que têm sentimentos de inferioridade, são discretas e conformam-se às opiniões e interesses dos outros, de modo a evitarem serem criticadas e, por conseguinte, sentirem a sua autoestima ferida. Estas, se forem humildes e quiserem muito mudar e melhorar, podem de facto melhorar. 
Do outro lado temos aqueles indivíduos, mais propriamente chamados narcísicos, que são arrogantes, vaidosos, que precisam de ser o centro das atenções e que diminuem e desvalorizam os outros e não têm empatia pelo seu sofrimento. Estes são mais difíceis de tratar porque geralmente não querem, sentem que não precisam e não têm a humildade necessária para o efeito. 

António Coimbra de Matos (1929–2021) assinou o prefácio desse livro. Pode falar um pouco sobre a influência que esta figura incontornável na história da saúde mental em Portugal exerceu na sua formação e carreira? 
Nunca trabalhei diretamente com António Coimbra de Matos, mas aprendi muito com ele, inspirei-me muito com as suas ideias, sempre o admirei e sinto-me eternamente grato pela generosidade que teve em prefaciar esse livro e apresentá-lo no seu lançamento. 

Há mais de 30 anos que trata da Perturbação Borderline. «Os borderline são os doentes de quem ninguém gosta, aqueles que muitos procuram evitar.» Esta frase foi escrita por si no livro Reféns das Próprias Emoções. Mesmo no meio psiquiátrico, os pacientes com este transtorno de personalidade continuam a ser alvo de estigma? 
Embora menos, ainda continuam a ser alvo de estigma. 

Na obra Uma Luz na Noite Escura, debruçou-se sobre o tema da solidão. Quais considera serem os principais fatores psicossociais e culturais que explicam o aumento da solidão entre jovens adultos em Portugal? 
Reconheço muitas qualidades nos portugueses. Apesar disso, considero que, de uma maneira geral, os portugueses têm uma baixa autoestima e, em alguns aspetos, são invejosos. Por outro lado, a ilusão de comunicação que as redes sociais trazem, contribui para que nos sintamos mais sós.  Todos estes fatores, e mais outros que estudos sociológicos possam mostrar, contribuem, na minha opinião, para aumentar o sentimento de solidão que nos afeta. 

Em Lugares Escondidos da Mente, escreve sobre o lado mais sombrio da mente humana, descrevendo indivíduos com transtorno de personalidade psicopata. A psicopatia é curável?
Não.  

Segundo estudos e investigações de Robert D. Hare (n. 1934), um dos mais respeitados investigadores sobre o tema, em cada 100 pessoas, pelo menos duas são psicopatas. Como podemos identificá-las e proteger-nos dos seus comportamentos? 
Além desses 2 %, há muito mais pessoas que, não preenchendo todos os critérios para que as consideremos psicopatas, têm muitas das suas características.  
O problema é que, de início, podem ser indivíduos encantadores, atenciosos e que nos dão a sensação de que somos importantes para eles. Outro problema é irmos perdoando algumas das suas imperfeições. Outro problema é fazerem-nos sentir que precisamos deles. E por aí fora, até ficarmos presos nas suas garras. E nessa altura já é tarde.  
Só há uma forma de nos protegermos deles: contacto Zero! O problema é quando as pessoas preferem acreditar neles e optam por continuarem a ser destruídas. 

E quando não é possível evitar o contato? Muitos líderes empresariais exibem traços psicopáticos e usam o seu poder para manipular, praticar mobbing e adotar outros comportamentos abusivos. Como alguém pode se resguardar quando o psicopata é… o próprio patrão? 
O problema é o poder que esses indivíduos possuem. Esse é um dos seus grandes objetivos, e para o conseguir preparam o terreno para esse fim, representando, durante anos se necessário for, o papel de funcionário exemplar, subjugando-se aos próprios chefes e aliando-se a eles para ganharem o estatuto de “colaborador de confiança”. 
Claro que eles atuam sem testemunhas, de modo a não deixar provas, o que torna tudo mais difícil. Mas, suponhamos que a presa (é assim que devemos colocar os termos) filma ou grava as ações psicopáticas do chefe. A lei protege-os porque o som ou as imagens obtidas não têm validade jurídica. Ainda assim, penso que é fundamental fazê-lo.  
Sempre que possível, seria fundamental prevenir. Como? Não dando confiança, não falando de si nem da sua vida privada. A presa deverá tentar perceber se é a única. Se for, aconselho a que comece por falar apenas a alguém da sua maior confiança. Se não for, deverão juntar-se numa ação comum. Em qualquer dos casos deverão denunciar o caso ao Sindicato e à APAV. 
Mas, o mais eficaz seria haver legislação que protegesse os trabalhadores e punisse severamente os criminosos. Infelizmente ainda estamos longe da aplicação desse direito. 

Se alguém estiver a ser alvo de assédio moral no trabalho, por parte do chefe ou de um colega, como pode salvaguardar a sua saúde mental? 
Afastando-se do local de trabalho. Como? Usufruindo de um direito que os trabalhadores conquistaram: através de uma baixa médica. Na minha opinião, mais vale prevenir do que remediar. Tenho visto pessoas completamente destruídas (profissional, pessoal e familiarmente), perante o olhar condescendente e sádico desses chefes, que depois se passeiam sem culpa nem remorsos. 

Em maio deste ano, esteve na Madeira a dinamizar a formação ‘Princípios de Saúde Mental’, destinada a docentes que lecionam na ilha. Em que consistiu esse evento?
Tratou-se de uma iniciativa do Sindicato dos Professores da Madeira, que, aliás, levou a uma iniciativa idêntica do Sindicato dos Professores dos Açores.  
O principal objetivo foi contribuir para melhorar a literacia em saúde mental dos formandos, através da clarificação de conceitos, e a partilha de ideias várias sobre a personalidade, o caráter, o temperamento, o narcisismo e a autoestima, as emoções e sua regulação, o bullying e o burn out dos professores.  


Nasceu e cresceu nos Açores. Eu, na Madeira. Existe evidência científica de que a vida insular implica desafios específicos para a saúde mental? Estou certo ao afirmar que nas regiões insulares, observa-se um risco mais elevado de suicídio e de consumo problemático de substâncias aditivas?  

O risco aumentado de suicídio, a solidão e o consumo grave e preocupante de substâncias são reconhecidamente graves nas duas regiões. Creio que desde os finais dos anos 70, com a televisão e a Universidade dos Açores, houve uma maior abertura ao exterior, que, com o turismo, se tem vindo a desenvolver.  
A impressão que tenho, pelo menos no que diz respeito a São Miguel, nos Açores, é que as pessoas tornaram-se extraordinariamente simpáticas e acolhedoras.  
E o orgulho em sermos ilhéus é qualquer coisa que contribui para melhorar a nossa autoestima.  


Na sua intervenção no TEDxLisboa 2023, abordou a ideia de ‘cura pelo amor’. Qual considera ser a importância do amor, em suas múltiplas manifestações, no contexto do tratamento e da prevenção das perturbações mentais? 
A empatia e a compaixão pelo sofrimento humano são instrumentos terapêuticos de enorme valor. Das várias formas que o amor pode tomar, o amor terapêutico, chamemos-lhe assim, pode ser transformador e salvar a vida das pessoas. 

Quais os últimos livros de ficção que leu? 
Costumo ler vários ao mesmo tempo. Agora estou a ler A nuvem no olhar, de João de Melo e Biografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão. 

Que escritores admira particularmente? 
Saliento Carl Sagan, Kafka, Irving Yalom e Bill Bryson, para falar apenas dos primeiros nomes que me ocorreram (e misturando ficção com não ficção).  
E há outros que, embora não os conheça bem, admiro muito, como escritores talentosos, mas sobretudo pelas pessoas que intuo que são: João de Melo e Teolinda Gersão. 

Nos seus livros, a linguagem é sempre acessível e próxima do leitor. Quando nasceu a sua paixão pela escrita?
 
Não foi desde pequenino, e até acho que não tinha jeito para escrever. Apesar disso, lembro-me que, na Escola Primária, ganhei um prémio literário. Infelizmente, não me recordo de nenhum pormenor relacionado com essa situação.  
Só em 2005, aos 44 anos, escrevi o meu primeiro livro, As faces do Inconsciente. Depois estive 12 anos sem publicar. Pensei que aquele primeiro seria o único livro que iria publicar. Mas depois, inspirado por alguma ficção que recomecei a ler, tentei escrever um romance. Fiz duas tentativas, mas rapidamente percebi o quão difícil é essa tarefa. Mas creio que, apesar disso, surgiu o entusiasmo. E a partir daí voltei a publicar, desta vez O Inconsciente está no cérebro. E, depois, nunca mais parei. O “bichinho” já está entranhado. 

Como concilia a carreira de psiquiatra com a de escritor? 
O grande desafio, e a maior dificuldade que sinto, é na gestão do tempo. Por vezes penso que, caso tivesse tempo, poderia escrever bastante mais. Seja como for, os conhecimentos e a experiência que tenho adquirido como psiquiatra e psicoterapeuta, bem como tudo o que tenho aprendido com os meus pacientes, têm contribuído muito para desenvolver a minha tarefa como autor. 

Tendo já publicado sete obras, possui atualmente algum projeto ou ideia para o desenvolvimento de um novo livro? 
Tenho ideias. Há temas sobre os quais tenho estado a pesquisar e a tomar notas e que poderão dar origem a novos livros: os medos e os sonhos. Vamos ver. 

«Húmus», de Raul Brandão

Data de publicação: Dezembro de 2021
N.º de páginas: 256

Húmus é um dos títulos pertencentes à coleção Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa, da editora Imprensa Nacional. 
Publicado em 1917, esta é uma obra central do modernismo português, embora com fortes traços simbolistas e expressionistas. O livro não segue uma narrativa linear tradicional — é antes uma sequência de fragmentos, reflexões e descrições que exploram a condição humana.
«Raul Brandão rompeu com as conceções literárias vigentes no seu tempo, em nome da liberdade reclamada pela vocação indagadora de uma arte singularmente atenta à crise de valores que então se vive e à injustiça social», afirma a especialista Maria João Reynaud, doutorada em Literatura Portuguesa com uma uma tese sobre as três versões de Húmus.
Ao longo de 20 capítulos, Raul Brandão mistura prosa poética, imagens intensas e um tom melancólico para falar da vida, da certeza da morte, do sentido (ou falta dele) da existência e do inevitável destino de todos os seres: a decomposição, o “húmus”, metáfora para a decomposição e a renovação, que dá título à obra.
Há personagens recorrentes — padres, camponeses, velhos, pobres, soldados — mas eles funcionam mais como símbolos do sofrimento, da miséria e da efemeridade do ser humano do que como protagonistas de uma história. O espaço é frequentemente a aldeia ou o campo português, envolto em neblina e decadência.
Um dos grandes temas deste romance é a oposição entre a aparência e a essência, mas também, tem como sub-temas, a efemeridade da vida, a condição humana, a injustiça social e a Natureza como espelho existencial.
Em essência, é um livro sobre a fragilidade da vida, a presença constante da morte e a tentativa de compreender, ou ao menos sentir, o mistério do mundo. A escrita é densa, poética e carregada de imagens de natureza e decomposição, tornando-se quase um diário existencial.
Com Húmus, Brandão constrói um belíssimo retrato lírico-existencial da condição humana, onde a morte, longe de ser fim, se torna princípio de reflexão e criação.
O seguinte parágrafo, que transcrevo da página 67 do livro, capta perfeitamente o sentimento de claustrofobia, repetição e a urgência existencial que marcam a escrita do autor de As ilhas desconhecidas (1926) – a angústia diante da vida padronizada e a necessidade de libertar algo profundo que está contido:

«Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca‑nos. Pega‑se. Adere. Há dias em que não distingo estes seres da minha própria alma; há dias em que através das máscaras vejo outras fisionomias, e, sob a impassibilidade, dor; há dias em que o céu e o inferno esperam e desesperam. Pressinto uma vida oculta, a questão é fazê‑la vir à supuração.»

Novo livro de Charlie Donlea entre as novidades de supense de Agosto


Do mesmo autor de A Rapariga do Lago, A Rapariga Que Ficou para trás e A Rapariga do Olhar Vazio, a Presença acaba de publicar o tríler A Rapariga Sem Passado. Segundo o seguinte elogio do The New York Times, «não se pode culpar Charlie Donlea se o final do livro apanhar o leitor completamente de surpresa.»

Sinopse
A verdade quando revelada, pode ser mais mortal do que qualquer outra mentira.
Sloan Hastings, uma jovem patologista forense, submete o seu ADN num site de genealogia para um trabalho de investigação, com o objetivo de compreender melhor a riqueza da informação genética existente. Na verdade, Sloan tem algumas reservas quanto à experiência: é adotada e nunca pensou em procurar os pais biológicos.
Os testes de ADN revelam que Sloan é Charlotte Margolis, conhecida como «bebé Charlotte», desaparecida misteriosamente com os pais em 1995. Em busca de respostas, Sloan viaja até Cedar Creek, no Nevada, onde conhece a família biológica. Embora inicialmente acolhedores, os Margolis escondem segredos sombrios e nem todos parecem satisfeitos com aquele regresso. À medida que Sloan investiga o passado, percebe que há quem prefira que certas verdades permaneçam enterradas - mesmo que isso signifique matar. 



De Kelsey Cox, a Singular apresenta a 21 deste mês o tríler Fim de Festa. Podemos encontrar no Goodreads a seguinte opinião de um leitor, que sobre o livro escreveu: «As personagens são fantásticas, a história é arrebatadora e o final deu-me arrepios! É, sem dúvida, um dos melhores thrillers que já li.» 

Sinopse
Duvide de tudo e de todos. Nesta festa perfeita, ninguém é inocente.
Na glamorosa festa de 16 anos de Sophie Matthews, o cenário é de sonho: uma mansão luxuosa, uma pista de dança sob as estrelas, um bolo de aniversário digno do Instagram.
O evento é organizado pelo pai de Sophie, Ethan. Dani, a sua jovem esposa, sofre de depressão pós-parto. Kim, a ex-mulher de Ethan e mãe da aniversariante, debate-se com ciúmes e um problema de alcoolismo. Mikayla, a melhor amiga de Sophie, esconde segredos que vão além da sua aparente docilidade. Órlaith, a ama irlandesa contratada para ajudar Dani, parece ser a única a perceber o perigo latente na casa.
A tensão aumenta a cada brinde. Numa festa onde as aparências enganam, um corpo cai da varanda logo após o soprar das velas. Quem é a vítima e quem é o culpado

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Clássico russo «O Mestre e Margarita», de Mikhaíl Bulgákov, ganha nova edição

Romancista e dramaturgo, Mikhaíl Bulgákov nasceu em Kiev, em 1891, e morreu em Moscovo em 1940. Estudou Medicina e durante a Primeira Guerra Mundial trabalhou em vários hospitais. Das suas obras destacam-se A Guarda Branca, Coração de Cão e O Mestre e Margarita, publicado postumamente em 1966. 
Esta última obra, veio a ser reeditada 15 vezes na Rússia e traduzida para cerca de 180 línguas. Foi adatpada para televisão, cinema, teatro, etc.

Escrito em segredo e publicado vinte e seis anos após a sua conclusão, O Mestre e Margarita sobreviveu à censura e ao silêncio para se tornar uma obra universal - um triunfo póstumo da imaginação sobre a repressão. O romance, traduzido diretamente do russo por Nina Guerra e Filipe Guerra, ganha uma nova edição com o selo da Presença. Nas livrarias a 20 de Agosto.

Texto sinóptico
Um gato falante, um demónio que lança Moscovo no caos, um escritor perseguido pelo sistema e um romance proibido sobre a vida e a morte de Jesus. Tudo isto - e muito mais - se entrelaça em O Mestre e Margarita, obra-prima alucinante de Mikhaíl Bulgákov, escrita à sombra da censura e apenas revelada ao mundo décadas após a morte do autor.
Numa Moscovo mergulhada em paranóia e mediocridade, o Diabo - disfarçado de professor estrangeiro - chega para expor o ridículo dos homens e reescrever a ordem do mundo. Paralelamente, o Mestre - um escritor destruído pela repressão - luta pela sobrevivência do seu romance proibido.

Outra novidade de Agosto da editora: A Rapariga Sem Passado.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

O belíssimo livro de viagem que Raul Brandão escreveu sobre os Açores e a Madeira

Raul Brandão (1867-1930) fez carreira militar, foi jornalista e escritor de uma extensa obra literária. Reformado do posto de capitão, em 1912, Brandão inicia a fase mais fecunda da sua produção literária, escrevendo livros, como Húmus, a sua obra-prima. 
Em 1924, Raul Brandão visitou os arquipélagos dos Açores e da Madeira, no âmbito das visitas dos intelectuais então organizadas sob a égide dos Autonomistas. Dessa viagem resultou a publicação (em 1926) de As ilhas desconhecidas, considerado um dos melhores livros de viagens de todos os tempos na literatura portuguesa. 
Este livro, que contém também várias fotografias das nove ilhas açorianas, captadas nessa expedição, está inserido no Plano Nacional e Regional de Leitura. Uma publicação da Letras Lavadas, que também editou-o em inglês (tradução de David Brookshaw): The Unknown Islands.

Excertos do livro
«As Flores e o Corvo erguem-se uma defronte da outra, separadas por um canal de quinze milhas, o Corvo espesso e nu, as Flores violeta e verde com rochas violetas e os cimos dum pasto delicado.»
 — Raul Brandão, 30 de junho de 1924

«Nunca me esqueceu a manhã virginal da Madeira, e as cores que iam do cinzento ao doirado, do doirado ao azul-índigo - nem a montanha entreaberta saindo do mar diante de mim, a encerrar azul e verde...» — Raul Brandão, 14 de agosto de 1924

Excerto do prefácio
«As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens, [são] sem sombra de dúvida uma das obras-primas da literatura de viagens em língua portuguesa, facilmente ombreando com os melhores clássicos. Com efeito, ainda hoje, é impossível compreender os Açores moderno, sem trilhar os passos e entender as apreciações do escritor nessa viagem realizada de junho a agosto de 1924, ao encontro de um mundo de magia e mistério. Ligam-se a natureza, as pessoas, as tradições e a história, e o que resulta é um panorama que naturalmente nos atrai, numa identificação em que nos tornamos participantes num extraordinário laboratório onde o povo açoriano se singulariza nas suas qualidades, através de um melting pot baseado numa rica simbiose entre natureza e sociedade. Pode dizer-se que a obra de Raul Brandão constitui uma peça crucial para a compreensão da especificidade açoriana e para a construção da autonomia constitucional hoje consagrada. E a grande qualidade cultural e literária contribuiu decisivamente para a afirmação da moderna identidade açoriana ». Guilherme d’Oliveira Martins

Elogios 
"A sua visão da luz e da cor dos Açores é uma coisa inexcedível." — Vitorino Nemésio

"A alternância entre o esplendor da luz e o abismo negro da dor faz de Raul Brandão um escritor de hoje e de sempre." — Maria João Reynaud 

"É um magnífico livro de viagens, mas é muito mais que isso: faz da geografia das ilhas portuguesas uma geografia metafísica, tremenda e maravilhosa. Um reino deste mundo e de outros mundos." — Pedro Mexia

Outro livro que pode interessar: Lady Bobs, o seu Irmão e Eu, de Jean Chamblin

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Levoir publica novela gráfica que homenageia Fernando Pessoa

A novela gráfica O Desassossegado Senhor Pessoa foi uma das grandes sensações no mundo da Banda Desenhada em França em 2024 e candidato aos prémios do festival de banda desenhada de Angoulême 2025. A obra, em capa dura, editada pela Levoir, é "um retrato comovente de Fernando Pessoa, um dos maiores escritores do século XX". 
O Desassossegado Senhor Pessoa, do francês Nicolas Barral, foi traduzido para o nosso idioma, a partir de L'Intranquille Monsieur Pessoa (Dargaud, Set. 2024), por Ricardo Belo de Morais, escritor, investigador e especialista em Fernando Pessoa (autor de livros como O Quarto Alugado e Transição), que também assina o posfácio.

Texto sinóptico
Simão Cerdeira, um jovem jornalista do Diário de Lisboa é indicado para escrever o obituário de Fernando Pessoa, porque corre o rumor, em Novembro de 1935, de que o poeta está doente e morrerá em breve. Mas Cerdeira nada sabe sobre o poeta lançando-se numa investigação, percorrendo o seu rasto, entrevistando as principais testemunhas da vida desta enigmática figura. 
Ao mesmo tempo, Pessoa prepara a sua morte. Na altura Fernando Pessoa trabalhava nos textos do Livro do Desassossego, do heterónimo Bernardo Soares. 

«Dizem que Pessoa tinha um baú cheio de milhares de textos, uma espécie de caixa de correio onde todos esses escritores vinham regularmente deixar os seus manuscritos. Um baú cheio de pessoas que talvez só existam na imaginação do seu dono.»


Críticas
«O Desassossegado Senhor Pessoa é mais do que uma simples biografia ilustrada. É uma meditação que respeita a memória de Pessoa sem a enclausurar. Nicolas Barral, com sensibilidade e mestria, oferece-nos uma história que não pretende decifrar o poeta, mas acompanhá-lo nos seus últimos passos, através de uma carta de amor à Lisboa dos anos 30, ao mistério da criação artística, e ao homem que, do seu baú, deu voz a muitos outros homens e que continua, desassossegadamente, a falar connosco. Saibamos nós ouvi-lo.» Hugo Pinto, Blogue Vinhetas 2020

«(...) um belo tributo ao autor de Mensagem, que tem edição recente da Levoir e autoria do francês Nicolas Barral que, como já tinha feito em Ao som do fado, ambientado no estertor da ditadura, volta a usar Lisboa como palco de um romance gráfico, aqui com uma belíssima reconstrução da capital nos anos 1930, perfeitamente reconhecível como lugar real e não um artifício vazio para tornar mais cativante a obra.» Pedro Cleto,
Jornal de Notícias

«Do ponto de vista técnico, esta obra está muito bem conseguida. Já tinha lido Ao Som do Fado, do mesmo autor, e também me agradou imenso. (...) Uma leitura imprescindível para todos os admiradores do poeta e para quem quiser aproximar-se da sua complexa e fascinante figura.» Urbon Adamsson,
Goodreads

O autor
Nicolas Barral, nasceu em Paris, é argumentista e desenhador, tendo vários álbuns publicados em Portugal, nomeadamente Ao Som do Fado (2020) e três volumes da série As aventuras de Philip & Francis, co-assinado com Pierre Veys.

Outras novelas gráficas recentes
Rumo ao Sul; O Caderno Azul-Depois da Chuva.

domingo, 10 de agosto de 2025

«Lady Bobs, o seu Irmão e Eu», uma narrativa de viagem aos Açores do início do século XX


Lady Bobs, o seu Irmão e Eu
, traduzido para o nosso idioma por 
Manuel Menezes de Sequeira, é uma uma narrativa de viagem romanceada, epistolar e quase autobiográfica, da autoria de Jean Chamblin, que dedicou a vida ao teatro, à escrita e ao activismo. Esta obra editada pela Letras Lavadas, contém quinze fotografias que ilustram o texto. Este romance que tem os Açores como pano de fundo, foi publicado em 1905, quando a autora tinha 29 anos.

Em 1902, Jean Chamblin (1876 – 1950) visitou os Açores, tal como a sua personagem Kate. Partiu de Nova Iorque no vapor Dona Maria, passou pelo Faial, por São Jorge e por Angra do Heroísmo, e chegou a Ponta Delgada por volta de 8 de Maio de 1902. Aí permaneceu até final de Julho. Fez excursões às Sete Cidades e às Furnas, embrenhou-se na vida da Rua do Beco, participou nas Festas do Espírito Santo, que fotografou. 

Excertos
«Minha querida, encontrei-as! Estão aqui todas, as nove ilhas dos Açores. Pequenas ilhas cheias de orações e santuários e sinos vespertinos, enfiadas num fio de água, como as dezenas nas voltas de um Rosário do Mar.» 

«Na terceira fomos levados - o padre católico, um tal Diogo e eu -, por cortesia do seu proprietário, à mais encantadora casa de campo que alguma vez vi. E com que jardim! Flores, fetos e árvores suficientes para encher um herbário, pequenas grutas e passeios subterrâneos e namoradeiras por todo o lado.»

Elogios

«Lady Bobs
equilibra-se com leveza feminina, muito humor e virtuosa elegância no cruzamento entre a literatura de viagem e o romance epistolar. Escrito após uma digressão de Jean Chamblin pelo arquipélago açoriano, o livro oferece um interessante retrato da sociedade micaelense em inícios do século XX. Por entre descrições de paisagens rurais que se iluminam ou fantasmagorizam consoante os caprichos do clima, o olhar sensível da viajante americana capta as pessoas, lugares e costumes ilhéus, tecendo uma narrativa ancorada no casamento fértil entre a estranheza, o equívoco, a ironia e o fascínio. Um livro imprescindível, finalmente publicado nos Açores.» Paulo Ramalho

«Romance epistolar publicado em 1905, agora traduzido para português, Lady Bobs, o seu irmão e eu vem juntar-se à literatura dos Açores ou que tem o arquipélago como tema, e muito deve ao zelo do tradutor e editor Manuel Menezes de Sequeira, que o apresenta e a par e passo anota com máxima atenção aos contextos biográfico, literário e açórico, em favor de uma melhor compreensão e deleite dos leitores contemporâneos. Uma edição verdadeiramente exemplar, portanto, que cumpre saudar entusiasticamente.» Vasco Rosa

Críticas de imprensa internacionais
O livro recebeu críticas positivas, em 1905 do The New York Times e no ano seguinte dos seguintes meios de comunicação: Boston Evening Transcript, The Bookman, The Independent e Appleton's Booklovers Magazine.


Edição em inglês
Lady Bobs, Her Brother And I: A Romance of the Azores
 

Outro livro que pode interessar: As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Em Agosto são publicados pela Actual Editora livros sobre ChatGPT e IA

Além de Mentes Humanas, Animais e Artificiais (Edições 70), o Grupo Almedina lançará durantes este mês os livros ChatGPT para Negócios e Empresas (Actual Editora) e O Futuro com Inteligência Artificial (Actual Editora).

Este é um guia prático que inicia os líderes empresariais que pretendam integrar a inteligência artificial nas operações, visando aumentar a eficiência, a inovação e a competitividade das suas organizações. Ao longo dos capítulos, Fábio Hirota, especialista em sistemas e IA, detalhará como o ChatGPT pode ser aplicado em áreas estratégicas, desde a tomada de decisões ao relacionamento com clientes, passando pelas finanças, marketing ou recursos humanos.

Embora o ChatGPT esteja no centro deste guia como a ferramenta fundamental que permitirá aumentar a produtividade e impulsionar o seu negócio, este livro apresenta e compara-o com outras ferramentas que têm ganhado preponderância e mediatismo e mostra-lhe que ferramenta é a mais adequada para o tipo de resultado que procura.
O autor é especialista em desenvolvimento de sistemas e consultoria para a indústria farmacêutica e autor de ChatGPT e Inteligência Artificial (actualmente na 2.ª edição).


O Futuro com Inteligência Artificial
centra-se no papel das inteligências não-humanas para o desenvolvimento das economias, da produtividade e da concorrência, traçando uma perspetiva positiva sobre a aplicação da Inteligência Artificial para um marketing mais eficaz e personalizado, e empresas mais robustas.

O livro toma 2045 como referência para esse futuro. E será até essa data que Carlos Manuel Oliveira viajará, ao longo da obra, para dar forma a alguns cenários hipotéticos que procuram descortinar o papel das inteligências artificiais na sociedade. Num exercício que equilibra o presente e o futuro, aborda a Inteligência Artificial nas suas diferentes perspetivas e aplicações, e debruça-se sobre os  desafios e aspotencialidades que ainda estão para vir.
O autor é CEO da Marketingmania Consulting, Conferencista e Professor Convidado de Brand Management do ISEG/UL. Escreveu os livros O Marketing em Portugal, Marketing Pós-Digital, Humantech Marketing, Marketing Pós-Digital e Brand Management Na Era Digital e Humana.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

DEVIR lança no final de Agosto o 4.º volume da colecção Angoulême

A novela gráfica O Caderno Azul / Depois da Chuva é o novo título, o 4.º, da colecção Angoulême, da DEVIR, e será publicado a 28 deste mês.
André Juillard (1948-2024), nascido em Paris, foi um mestre da banda desenhada, com predominância do estilo realista. A sua paixão pelo desenho desenvolveu-se logo em criança, em que devorava a revista semanal "Tintin". São da asua autoria obras como Formule 1, Les Sept Vies de l’Épervier, La Ruée vers l’or, Les Frères de la côte e Après la pluie.

Texto sinóptico
Louise sai do banho nua e, sem se aperceber, é vista pela janela por Armand. Inicia-se, assim, um jogo de sedução entre dois estranhos.
O romance desenrola-se na cidade de Paris, cuja arquitetura e principais ruas são representadas de forma clara e sensível. 

O Caderno Azul é complementado com Depois da Chuva, outra história inesperada e envolvente de amor e mistério, que nos absorve até às páginas finais deste livro.

Prémios do Festival Internacional de Banda Desenhada Angoulême

Os Prémios do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême são os mais prestigiados galardões do mundo da BD. Criados em 1974, são atribuídos anualmente no festival realizado em Angoulême, França, um dos maiores e mais influentes eventos dedicados à banda desenhada a nível global.
Estes prémios distinguem obras, autores e editoras que se destacam pela sua originalidade, qualidade narrativa e impacto artístico. Ganhar um Prémio Angoulême significa reconhecimento internacional. Em suma, os Prémios Angoulême são o equivalente aos Óscares da BD, um selo de qualidade que distingue as melhores criações do meio.
As oito obras premiadas que serão publicadas ao longo do ano pela DEVIR transcendem o simples ato de ler banda desenhada. São narrativas que abordam temas complexos – da distopia e crítica social à introspeção psicológica e aos retratos biográficos – acompanhadas por uma arte visualmente arrebatadora. Cada título convida o leitor a uma viagem única, repleta de simbolismo, emoção e reflexão sobre a humanidade.

Volumes já publicados
Trilogia Nikopol, de Enki Bilal
Alack Sinner Bófia 
ou Detetive, de Muñoz & Sampayo
O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner & Rubén Pellejero

A lançar nos próximos meses
Silêncio, de Comès
Anaïs Nin, de Léonie Bischoff
O gosto do cloro, de Bastien Vivès
Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet

domingo, 3 de agosto de 2025

«Renascer das Cinzas», de João Carlos Melo e Maria C.

Data de publicação: 05-06-2025
N.º de páginas: 288

A dor fingida é, muitas vezes, a única forma de gritar por ajuda.
Quantas vezes, na infância, simulámos estar enfermos para fugir a um dia de escola? Agora, imaginemo-nos viver aprisionados a esse comportamento, não por capricho, mas como manifestação de um sofrimento psicológico profundo. 

No seu mais recente livro, o psiquiatra, grupanalista e psicoterapeuta João Carlos Melo aborda com profundidade três perturbações psicológicas complexas e estigmatizadas: a Perturbação de Personalidade Borderline (TPB), a Perturbação Factícia (conhecida como Síndrome de Munchausen) e a Mentira Patológica. 
A protagonista e co-autora de 
Renascer das Cinzas é Maria, que desde os 22 anos simula múltiplas doenças; quatro anos depois (em 2016), um médico diagnosticou-lhe Síndrome de Munchausen. O Verão de 2021 assinala o início de uma nova etapa em sua vida, marcada pelo início de psicoterapia com o autor de Uma Luz na Noite Escura. 
Este livro
-testemunho é o relato que ambos traçam dos últimos quatro anos de aliança enquanto paciente e terapeuta, e também dos acontecimentos — avanços, retrocessos e impasses — relativos às doenças mentais de que Maria estava refém, com ênfase na Síndrome de Munchausen, considerada a variante mais grave da doença de Perturbação Factícia. Trata-se de uma condição psíquica em que o indivíduo fabrica, exagera ou induz sintomas, por vezes falsificando exames e laudos médicos, ou submetendo-se a intervenções invasivas, para assumir o papel de paciente e obter cuidado e atenção por parte dos profissionais de saúde — uma tentativa de suprir necessidades afectivas negligenciadas na infância (muitos destes doentes só receberam afecto e atenção quando adoecidos). 
Melo considera-a «a mais perturbadora, devastadora e intrigante das doenças [mentais]», uma enfermidade muito mais árdua de tratar do que a esquizofrenia. Pouco se sabe sobre estas pessoas, que frequentemente fogem após o diagnóstico; o tratamento é extraordinariamente desafiante e «o que está em causa, em muitos casos, é o sentimento de que não existem.» Em 2013, um artigo científico mencionava que, no mundo inteiro, apenas três casos de recuperação haviam sido documentados. 

(No final do livro, a co-autora fala em «superação» da Síndrome de Munchausen; o autor afirma que a sua paciente «venceu» esta doença. Contudo, é informado ao leitor que «o início de 2025 foi muito difícil. A Maria esteve internada ainda mais uma vez em Psiquiatria por ter ficado gravemente deprimida. Além do sofrimento depressivo, tinha ideação suicida, risco de suicídio e chegou mesmo a fazer uma tentativa» (p. 196) e «A Maria teve alta do último internamento em Psiquiatria em meados de março [de 2025].» (p. 198) Em geral, considera-se que uma doença mental está em remissão ou “curada” quando a ausência de sintomas perdura por um período prolongado — normalmente, entre seis meses e um ano. Assim, falar em «cura» e «superação» parece prematuro, no entender de quem leu e está a escrever esta recensão.) 

Conforme relata Maria, «inventava sintomas só para ter cuidados médicos e não me sentir tão sozinha»; «as urgências acabavam por ser um conforto para mim»; «somos vistos como bichos venenosos para a grande maioria dos médicos». 
No capítulo dedicado à Mentira Patológica — ainda não reconhecida formalmente como doença 
—, somos informados que mais do que enganar terceiros, o mitómano busca proteger-se de uma realidade emocional intolerável, traço que liga esta perturbação à TPB e à Síndrome de Munchausen. 
Em Renascer das Cinzas, ao fundirem suas vozes, juntos, paciente e psiquiatra, rompem o silêncio do estigma e brindam o leitor com um olhar profundamente humano sobre o que significa sobreviver e recomeçar. Nesta obra, que por vezes não é de leitura leve, a dor encontra palavras e a escuta se transforma em acolhimento 
— João Carlos Melo revela-se um ser dotado de rara humanidade. 
Este é o quinto título do autor publicado pela Bertrand Editora, uma leitura imprescindível para quem deseja apreender as subtilidades da saúde mental, do comportamento humano e dos delicados limites entre verdade, mentira e sofrimento. É um livro inspirador, que demonstra que, mesmo na mais profunda escuridão, é possível acender uma luz — e renascer. Que a beleza possa brotar das cinzas.

Excertos 
«A escuta atenta e empática facilita a verbalização e a partilha de pensamentos, receios, fantasias e desejos por parte do paciente, e proporciona-lhe a oportunidade, valiosa e única, de ser efetivamente compreendido.»

«Em algumas alturas sentia-se tão triste, tão desamparada, com um crescendo de angústia e desespero tão incontroláveis que a única saída que encontrava era ir a uma Urgência. Noutras alturas era só o impulso, sem motivo: podia estar a caminhar na rua e, de repente, do nada, mudava a rota e dirigia-se para uma Urgência, a que estivesse mais perto.» 

«Um dos fatores transformadores numa psicoterapia é a experiência de recebermos do terapeuta as palavras e as melodias que dão sentido e significado às nossas vivências internas.»

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Hábitos poderosos para vencer num mundo em constante mudança


Para quem leu Hábitos Atómicos (de James Clear), Adaptar, uma das novas publicações da editora Bookout, é um livro obrigatório para enfrentar as rápidas transformações em curso. Porque não há momento mais perigoso para ser neutro em relação à mudança do que este que vivemos.


Texto sinóptico
Precisamos de uma nova relação com a mudança nomundo. Tem sido unânime que depois da pausa global de 2020, encontramos um mundo mais rápido, mais imprevisível e menos estruturado — as realidades profissionais foram alteradas, as normas sociais, políticas e culturais mudam mais rapidamente e enfrentamos o advento galopante da Inteligência Artificial. Mais mudanças, mais frequentes, mais imprevisíveis e mais depressa! Mas continuamos presos a uma mentalidade desatualizada que pensamos ser protetora. Andrea Clarke propõe abrir a porta aos muitos sinais de mudança e preparar-nos com novos hábitos para moldar o futuro a nosso favor. 
Estes novos Hábitos de Adaptabilidade acolhem as grandes tendências de um mundo imprevisível e são poderosas ferramentas para transformar a vulnerabilidade em força, a adversidade em resiliência e os desafios em oportunidades.

A autora, a australiana Andrea Clarke, ajuda líderes, trabalhadores e estudantes a preparem-se para o futuro, envolvendo-se mais com os sinais à sua volta, antecipando mudanças. Em Março de 2019, o seu livro de estreia 
Future Fit venceu o prémio Australian Business Book of the Year 2019 e está entre os 5 melhores livros de negócios australianos.

Outra novidade da editora: 
O jogo mental do trading.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

«Coisas de Loucos», de Catarina Gomes

Data de publicação 3.ª edição: Julho de 2023
N.º de páginas: 264

«Durante mais de século e meio [o Hospital Miguel Bombarda] foi um mundo apartado do mundo», escreve Catarina Gomes no texto introdutório deste livro, que se revela um trabalho de pesquisa minucioso. Em julho de 2011, a então jornalista acompanhou a saída dos últimos “habitantes” do primeiro hospital psiquiátrico português, que, ao fim de 163 anos, ia ser encerrado. «Queria escrever um texto final sobre um espaço que, ao ser esvaziado de pessoas, punha fim simbólico a um capítulo da história da loucura e da psiquiatria em Portugal.» 
Depois da sua reportagem «com os últimos doentes vivos do Bombarda», decidiu escrever «sobre alguns dos seus doentes mortos», após ter encontrado no sótão do manicómio uma «banal caixa de papelão» que continha vários objetos pessoais — cartas, desenhos, cadernos, fotografias, entre outros — pertencentes a antigos doentes. «O que encontrei dentro da caixa nunca mais me abandonou.» Essa descoberta deu origem a Coisas de Loucos, publicado em Julho de 2020, um livro de não-ficção e jornalismo narrativo, com fotografias de Paulo Porfírio, que desempenham um papel fundamental na obra e que mexe profundamente com o leitor. 
A obra relata várias histórias de doentes internados nesse estabelecimento manicomial, sendo uma das mais marcantes a de Valentim de Barros, um reconhecido bailarino que esteve internado durante quarenta anos, diagnosticado com homossexualidade, considerada uma patologia grave na época. Alegre e criativo, apresentava «características feminóides», como se lia numa nota médica. Segundo a história clínica do doente, a autora conta-nos que ele foi submetido a uma leucotomia: «o objectivo da cirurgia foi mudar-lhe a orientação sexual». 
Em Coisas de Loucos, livro notável pela escrita sensível e envolvente, Catarina Gomes questiona os limites entre normalidade e loucura, mostrando como a psiquiatria foi, em determinados contextos, utilizada como instrumento de controlo social. 
A obra foi reconhecida com o Prémio de Jornalismo da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. 

Excerto 
«Os objetos da caixa recordavam-me que a maior parte dos que sofrem de doença mental não são nem artistas nem criminosos, nem geniais, nem perigosos. São como nós.»